Nicarágua: Ortega deixou de ser de esquerda há muito tempo

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Artigo de Luís Leiria.

Uma manifestação realizada no centro de Manágua no domingo 23 de setembro de 2018 foi atacada pela polícia e paramilitares armados, que feriram com tiros de armas de fogo várias pessoas, entre as quais um jornalista, e mataram o manifestante Matt Romero. Os protestos pediam a libertação de centenas de presos políticos e a saída do presidente Daniel Ortega.

A repressão foi feroz, à semelhança do que vem ocorrendo desde o dia 18 de abril, quando o anúncio de uma contrarreforma da Segurança Social promovida pelo governo espalhou a indignação e levou às ruas milhares de pessoas exigindo a anulação das medidas. O balanço da rebelião que tomou o país desde então inclui centenas de presos – o governo admite 204 pessoas encarceradas, mas organizações de direitos humanos falam em mais de 300 – e pelo menos 320 mortos.

O veterano sandinista Júlio López Campos, que conheceu Daniel Ortega quando ambos eram dirigentes estudantis, recorda: «Lutávamos então contra um ditador que tinha matado quatro jovens… E esse mesmo Daniel é hoje o responsável pelo assassinato de dezenas de estudantes, e esse mesmo Daniel é agora o ditador… Custa-me a entender».

Fórum de S. Paulo: “Grupos da direita terrorista”

Para uma parte da esquerda latino-americana e mundial, porém, Ortega não é um ditador, é uma vítima das maquinações do imperialismo que arma grupos terroristas. Os 400 representantes de partidos e governos, entre eles Evo Morales, Nicolás Maduro, o governo cubano e partidos como o PT do Brasil, reunidos no XXIV encontro do Fórum de S. Paulo, em Havana, em julho deste ano, rejeitaram «de forma enérgica a política intervencionista dos Estados Unidos nos assuntos internos da Nicarágua sandinista». Segundo a declaração, aprovada por unanimidade, o que se assiste no país centro-americano é a aplicação da mesma fórmula que Washington promove «contra os países que não respondem aos seus interesses hegemónicos, causando violência, destruição e morte mediante a manipulação e a ação desestabilizadora dos grupos terroristas da direita golpista», com o intuito de atacar o processo de transformações sociais impulsionado pela Frente Sandinista.

Em Portugal, o PCP afina pelo mesmo diapasão: «Há denúncias de que os distúrbios públicos fazem parte de um plano dirigido do exterior com o objetivo de desestabilizar o país e provocar o derrube do governo da Frente Sandinista» (Avante, 5/6/2018).

Ortega deixou de ser de esquerda há muitíssimo tempo

Giovanna Belli, escritora nicaraguense e ex-dirigente da Frente Sandinista, diz-se muito desiludida com o que está a dizer parte da esquerda latino-americana sobre o governo da Nicarágua. «Como se trata de Daniel Ortega, pode-se matar 400 pessoas e não me importa porque é de esquerda?», critica. Para ela, o chefe do governo de Manágua deixou de ser de esquerda há muitíssimo tempo. «Uma vez no poder, aliou-se com os grandes capitais», acusa, numa entrevista ao Tiempo argentino. E enumera a trajetória para a direita do ex-líder da revolução de 1979: «autorizou um roubo que se chamou “La Piñata”, quando se distribuíram terras e casas, criou-se uma burguesia sandinista, privatizou-se a energia da ajuda venezuelana e toda a sua família é dona dos meios de comunicação. Fez fraude para dominar a Assembleia Nacional, alterou a Constituição para reeleger-se indefinidamente, pôs a sua mulher na vice-presidência neste país onde tivemos uma dinastia [Somoza], usam uma linguagem horrivelmente religiosa, a esposa de Ortega fala todos os dias e parece a Madre Teresa de Calcutá, aboliram o aborto terapêutico. Definitivamente não pode considerar-se um governo de esquerda».

Sérgio Ramírez, outro histórico sandinista que foi vice de Ortega entre 1985 e 1990, considera que Ortega cometeu um erro de cálculo ao atuar como sempre, isto é, reprimindo qualquer manifestação contra o seu governo. «Qualquer pequena manifestação, e eram pequenas as manifestações aqui, 20-30 pessoas que se punham a protestar, por exemplo, pela fraude nas eleições municipais. As suas tropas paramilitares vinham para espancar as pessoas, para dispersá-las com correntes, com paus, e a polícia sempre que parava ali era só para contemplar o trabalho sujo que faziam essas forças». Para Ramírez, também escritor e vencedor do prémio Cervantes deste ano, «o momento em que foi produzido o primeiro morto é o fim deste regime».

Discurso ultrarreligioso

Ora, para a vice-presidente Rosario Murillo, os manifestantes são os verdadeiros culpados das centenas de mortos: «(…) o Povo sabe, sabe quem provocou os mortos; sabe-o bem, porque esses mesmos, pelas suas lutas de ambição, pela sua cultura da droga, com a qual pretendem aterrorizar o país, pessoas drogadas, alcoólicas, pessoas ligadas a toda a espécie de crimes e delinquências; o povo nicaraguense sabe que entre eles mesmos provocaram um morticínio para culparem o Governo», afirmou em 20 de julho.

Um dia antes, Daniel Ortega defendeu que os contestatários, a quem chamou de terroristas e putschistas, usam práticas diabólicas e satânicas. Afirmou que os terroristas torturam «de maneira satânica» (sic!) as pessoas do povo nas barricadas. E apelou aos bispos católicos para que «exorcizem» esses «diabos» que se apoderaram dos manifestantes.

O mesmo discurso ultrarreligioso, tão nosso conhecido, foi usado pela vice-presidente para criticar as mulheres que pedem a despenalização do aborto, que vigorava antes do governo Ortega-Murillo e que foi revogada por decreto do seu governo. Hoje não é permitido o aborto por malfomação fetal nem em caso de violação. Diz Rosario Murillo: «Um povo que defendeu a Vida em todas as suas formas, desde o ventre materno… Desde o ventre materno! No entanto, muitos que se dizem “cívicos”, mas que de cívicos nada têm por serem criminosos, desfilaram nas ruas de Manágua para pedirem o aborto. Atentando contra a Vida! É esta a Verdade».

É caso para perguntar: como pode alguém ver alguma coisa de esquerda neste governo?


Ernesto Cardenal: Daniel Ortega e a sua mulher são os donos absolutos de todo o país

O padre Ernesto Cardenal foi militante sandinista e integrou a Junta de Governo Revolucionário como Ministro de Cultura, função que exerceu até 1987. Em 1983, o Papa João Paulo II visitou a Nicarágua e intimou Cardenal, diante das câmaras de televisão, a abandonar o cargo ministerial. Ele, porém, não obedeceu, o que lhe valeu ser suspenso ad divinis pelo Vaticano, que considerou incompatível a sua missão sacerdotal com o seu cargo político.

Neste artigo, publicado por Religión Digital em 10 de setembro de 2018, Cardenal denuncia a atual situação da Nicarágua. Reproduzimos a versão publicada no site IHU online, com tradução de Wagner Fernandes de Azevedo.

O mundo deve saber o que passa na Nicarágua. Daniel Ortega e a sua mulher são donos absolutos de todo o país. Daniel não só é dono do Executivo, mas também do Poder Legislativo, Judiciário, Eleitoral, da Polícia, do Exército. É o dono dos meios de comunicação. Tem um silêncio total do Governo e um absoluto segredo de tudo o que fazem.

A juventude havia se mantido submissa e atemorizada, mas por fim rebelou-se em todo o país. Com marchas e manifestações de multidões, desarmadas, marchas cívicas e todos gritando «Que o casal Ortega e Murillo saiam do Poder».

Estamos nas mãos de uma mulher com um poder sem limite, e um presidente submetido a ela.

Os policiais, militares, parapoliciais e paramilitares estão disparando para matar os manifestantes e já são mais de duzentos os que eles mataram, a sangue frio, e há mais uma grande quantidade de feridos e desaparecidos. É necessário que isso cesse e se intervenha para que não siga sucedendo.

Fraternalmente,

Ernesto Cardenal