No calor das lutas: o lugar de fala como problema efetivo

image_pdfimage_print

Presente com particular vivacidade nos movimentos feministas e antirracistas, a questão do lugar de fala tem proporcionado debates acesos, disputas amargas, quando não roturas e divisões no interior dos movimentos sociais. Importa reconhecer, antes de tudo, que a problematização do lugar de fala decorre do reconhecimento fundamental de que a opressão existe, que atua e que se repercute mesmo no interior dos organismos que a combatem. A busca do lugar da mulher negra, da mulher lésbica, da migrante precária não esteve nem está adquirida no interior do próprio movimento feminista, hegemonizado pela mulher branca e ocidental, assim como a experiência concreta da pessoa racializada não esteve nem está garantida nas visões mais institucionais de combate ao racismo. Não é uma questão simples nem linear, pelo que mais do que assegurar o lugar, há que questionar o lugar.

Quando a luta reproduz o poder
Questão diferente é a pretensão de se assumir legitimidade exclusiva para se representar uma causa, numa espécie de autoeleição em que a voz própria exclui e menospreza todas as outras. Não é um problema novo nem se resume a um só segmento da história, mas dá-se em escalas diferentes: surge quando um único partido se eleva como exclusivo porta-voz do movimento operário; reedita-se quando um grupo ou movimento pretende concentrar, unicamente em si mesmo, a expressão das opressões. Num caso como noutro, não temos um lugar de fala, mas um ventriloquismo reprodutor do poder. O lugar de fala não se limita a substituir
o portador ou a portadora da palavra, mas a garantir que na rua, no local de trabalho, na manifestação ou no piquete não se reproduz uma relação de dominação que negou à mulher, ao migrante ou à pessoa racializada a sua dignidade enquanto produtores e produtoras de discurso. E que mesmo com a melhor e mais transformadora das intenções, ninguém deve falar no seu lugar e na sua vez. Trata-se do direito de produzir
saber, de ser visto e de ser reconhecido, de ser escutado e de existir, sem a mediação condescendente de qualquer sujeito hegemónico.

 

Plural e coletivo
A luta justa é a que garante a voz da pessoa subalterna, não a que fala no seu lugar. Na formulação de Djamila Ribeiro, o lugar de fala parte de um pressuposto epistemológico, onde começa por reconhecer-se o privilégio social – branco, patriarcal, heteronormativo – em que a legitimidade do que se sabe, do que se diz e dos meios por que se diz é determinada por mecanismos que favorecem as estruturas de dominação. O potencial crítico do lugar de fala – e o seu grande desafio – passa por contrariar a via única desse pressuposto epistemológico. O que passa por alargar o espaço, o direito e as formas de enunciação da palavra a mais gente.
É o fulcro da questão: aumentar o espaço da palavra, em vez de o limitar; coletivizar diferenças, em vez de as restringir à expressão a que legitimamente aspiram. O lugar de fala não é o de um único partido, o de uma única identidade ou o de uma única pessoa. Recusamos atos narcisistas de exclusão e já demos para o argumento da abrangência de partidos únicos.

Nem dividir nem reinar
Não se trata, pois, de limitar a palavra, de estreitar a representação ou de espartilhar o discurso em nome de uma espécie de hierarquia de legitimidades entre quem pode ou não pode tomar uma posição política. Trata-se de aumentar, nunca de diminuir, o potencial de confrontação de uma luta coletiva, invertendo-se as instituídas ordens de discurso: se a linguagem do capital é masculina, branca e eurocêntrica, o seu contraponto está na aliança dos oprimidos e oprimidas que esta linguagem produz. Sem que se possibilite esta aliança nenhuma politização à esquerda é realmente possível. Nunca um movimento social ou uma alternativa política pôde triunfar com sujeitos atomizados, dispensando alianças ou deslegitimando posições comuns. Negar falsas universalidades não significa promover isolacionismos. A postura ética do lugar de fala, como sublinha Djamila Ribeiro, vem de se ter a noção do lugar que se ocupa – de saber utilizá-lo em benefício de uma causa coletiva e de usar a sua dinâmica na direção necessária. Não se deve confundir lugar de fala com exclusividade de exercício de palavra ou com qualquer argumento de autoridade.

Assumir diferenças e vencer distâncias

Aspiramos a algo mais do que agendas incompletas, em que o biombo identitário encobre o movimento da transformação sistémica e dá a mão ao divisionismo. Por isso criticamos com veemência, tanto a hegemonia do feminismo liberal quanto o fechamento identitário dos combates antirracistas. Por ocasião da prisão de Angela Davis, o escritor James Baldwin – ativista e intelectual, gay e militante antirracista – faz publicar uma carta-aberta à sua irmã, Angela. Neste texto impressionante, Baldwin exorta à recusa de uma “economia carnívora que democraticamente mata e vitimiza brancos e negros”. Nesta recusa, sublinha a necessidade de ultrapassar o refúgio da branquitude e o conforto do privilégio, que impõe uma distância “sinistra” entre oprimidos e oprimidas e que faz com que a própria experiência da subalternidade não seja reconhecível. O lugar indelegável de cada um e de cada uma apenas se garante numa luta coletiva em que todos tenham voz e lugar. Singular, mas sempre remetido ao plural, esse espaço de partilha é uma das definições da militância.