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Artigo de Luís Leiria.


1. O sistema em crise

Os grupos conservador (PPE) e social-democrata (S&D) deixaram de ter a maioria que lhes permitia decidir tudo. O PPE caiu de 217 para 175 deputados e o S&D de 186 para 148. A soma dos dois (323) já não dá a maioria que lhes permitia dividir entre si cargos e nomear o presidente da Comissão. Para chegar de novo a, no mínimo, 376 eurodeputados, o bloco central terá de ser ampliado. O candidato conservador à presidência da comissão, o alemão Manfred Weber, admite fazer acordo com os liberais (ALDE), que subiram de 67 para 109 deputados, ou mesmo com os Verdes, que também cresceram de 50 para 69 deputados. Seja como for, nada será como antes.

2. O sistema esboroa-se

Chega a ser caricato, aliás, fazer estas contas todas, quando no Reino Unido venceu o improvisado partido do Brexit, de Nigel Farage (31,6%), varrendo e humilhando os conservadores da demissionária Teresa May (9%). Os partidos pró-Brexit tiveram maioria, donde o mais provável é o abandono dos 73 eurodeputados britânicos dentro de poucos meses.

3. A extrema-direita cresceu, mas não foi um tsunami

As extremas-direitas (no plural, porque são diferentes variantes que pertencem a diferentes grupos no europarlamento) venceram em países decisivos, mas não provocaram o tsunami que se temia. Venceram em França (Marine Le Pen, cuja formação agora se chama Rassemblement National, ou União Nacional), mas com 23,3%, perdendo 1,5% e um eurodeputado, em comparação com as eleições anteriores), na Itália, com a Liga de Matteo Salvini a chegar aos 30% e a superar, pela primeira vez numa eleição, o Movimento 5 Estrelas, no Reino Unido (o já citado partido do Brexit), na Hungria, com a vitória esmagadora do Fidesz de Viktor Orbán (53%), e na Polónia, com o partido Lei e Justiça (45,3%) de Jarosław Kaczyński.

Já na Áustria, o caso de corrupção conhecido como Ibizagate fez o ultradireitista FPÖ retroceder dois pontos e meio (17,2%) e provocou a queda do governo, e na Holanda, onde se registou uma vitória dos trabalhistas, o ultradireitista Fórum pela Democracia, que chegou a liderar as sondagens, ficou-se pelos 10,9%. Na Dinamarca, o Partido do Povo Dinamarquês, que vencera as eleições de 2014 com 26,6%, teve agora 10%, um colapso provocado por escândalos relacionados com fundos europeus.

E, já agora, vale a pena lembrar Portugal, um dos poucos países onde a extrema-direita não vinga.

Em termos de grupos no Parlamento Europeu, as divisões dos ultradireitistas impedem-nos de fazer valer o seu peso total. A extrema-direita está dividida entre a Europa das Nações e da Liberdade (ENL), 54 eurodeputados, onde estão Le Pen e Salvini, entre outros, e a Europa da Liberdade e da Democracia Direta (ELDD), 53 eurodeputados, cujos membros incluem o Partido do Brexit, o Movimento 5 Estrelas e a Alternativa para a Alemanha. Além disso, o Fidesz húngaro é membro do PPE (filiação suspensa) e o Lei e Justiça da Polónia faz parte do grupo Conservadores e Reformistas Europeus, que tem 61 eurodeputados. Não há iniciativas de unificação destes grupos.

4. A esquerda retrocedeu, mas manteve um grupo de 39 deputados

O grupo da Esquerda Europeia Unida/Esquerda Verde Nórdica (GUE/NGL), do qual participam o Bloco de Esquerda e o PCP, manteve 39 eurodeputados dos 52 que formavam o grupo. A presidente, Gabi Zimmer, afirmou que o grupo se mantém forte e continuará a lutar por uma Europa melhor.