Notas sobre o fim do mundo

A fronteira agrícola

O progresso, como toda  a gente sabe, chega por estrada. Neste caso, pela BR-163 que liga o Rio Grande do Sul ao Pará e é um dos principais eixos de exportação agrícola. Inaugurada em 1976 pelo governo da ditadura militar, a sua expansão tem sido uma promessa eleitoral cumprida aos bocados pela democracia. “Décadas depois, nos três municípios cortados pela rodovia – Novo Progresso, Altamira e Trairão – perdeu-se uma área de floresta equivalente a dez cidades do Rio de Janeiro entre 2000 e 2018”.

Foi em nome do “progresso” que a fronteira agrícola foi sendo empurrada para dentro da floresta, e a Amazónia foi sendo recolonizada uma e outra vez, numa contínua nova-marcha para oeste. Visto de cima, o mapa do desmatamento da região pode ser sobreposto aos das veias e artérias que carregam maquinaria e escoam bois, soja, madeira, ouro e terras raras do território amazónico. Sem uma estratégia pública de proteção socioambiental e justiça fundiária, as estradas trouxeram também negócios ilegais, tráfico, conflitos pela terra e aumento da violência contra as comunidades tradicionais, os ribeirinhos, os quilombolas e os indígenas, como os Yanomami. Para muitas destas comunidades, é tão a certo a destruição vir atrás da estrada como uma criança atrás da bola. 

E assim foi. Durante o governo de Bolsonaro foram desmatados 6 milhões de hectares no Brasil, a maioria para o avanço da agropecuária. Pela primeira vez em muito tempo, a destruição erao objetivo. Em agosto de 2019, enquanto a Amazónia se consumia em fogo posto, um grupo de fazendeiros do Pará decidiu organizar “o Dia do Fogo” em apoio às políticas “ambientais” de Bolsonaro. A ação realizada no eixo da BR-163 durou dois dias e resultou num aumento dos focos de queimadas de quase 2000%. Em 2023, o mundo descobriu o lado ainda mais trágico desta política. A crise humanitária dos Yanomami abriu telejornais com a revelação de que 570 crianças morreram em decorrência de desnutrição, pneumonia e diarreia durante o governo Bolsonaro, consequência da violência direta e da falta de assistência sanitária. O governo de extrema direita tinha mandado “passar a boiada”1 e ela passou. Pior era impossível.

A fronteira fóssil

A expectativa era fazer de Lula o campeão do clima. Promessas foram feitas. Expectativas foram criadas. A primeira tarefa do novo governo foi acudir à emergência do povo Yanomami. Depois, o garimpo e as queimadas; as autoridades multiplicaram as ações de fiscalização sobre atividades ilegais ou irregulares. As nomeações de Sónia Guajajara para o Ministério dos Povos Indígenas e de Marina Silva para o Ministério do Ambiente deram sinais positivos. Quem assistisse, poucos anos antes, à entrada triunfal de Lula da Silva (recém eleito mas ainda não empossado) na COP27 em Sharm El Sheik, no Egito, não imaginaria que em breve o fim do mundo iria a leilão no Rio de Janeiro.

Em julho de 2025, o “Leilão do Fim do Mundo” colocou 172 novas áreas de perfuração a concurso, 47 delas na bacia amazónica. Meses depois, o IBAMA (autoridade ambiental) licenciou a perfuração exploratória no polémico Bloco FZA-M-59. Estão todos sob investigação do Ministério Público. ⁠Os 68 povos que vivem no Oiapoque não foram consultados e temem os resultados da exploração. Ainda assim, a cerca de 175 km da costa do Amapá, as brocas começaram imediatamente a trabalhar, até que um acidente derramou 15 mil litros de líquido de perfuração na bacia amazónica. O percalço não desmotivou o governo. Estava definida a nova fronteira fóssil do Brasil: a Foz do Rio Amazonas.

Ricardo Fuggi, da WWF-Brasil, explica o que está em causa: “é uma aposta perigosa em ativos fósseis que só terão retorno se o mundo fracassar na luta contra o colapso climático. Estamos falando de uma das regiões mais sensíveis do planeta, onde vivem ecossistemas únicos como o grande sistema recifal amazónico e mais de 80% dos manguezais do país – berços da pesca, da segurança alimentar e do sustento de milhares de famílias”.

As previsões dizem que o Brasil pode estar sentado em cima de 30 milhões de barris de petróleo na Foz do Amazonas, e há quem queira drená-los “até à última gota”2. O argumento de que os combustíveis fósseis são essenciais para financiar a segurança e a transição energética do país têm sido repetidos pelo governo e desmentidos por inúmeros especialistas. Os números são claros: o país bateu recorde na produção de petróleo e gás fóssil em 2025, produzindo 4,897 milhões de barris de óleo equivalente (BOE) por dia e o petróleo já é mercadoria mais exportada pelo Brasil pelo segundo ano consecutivo, com vendas de 44,6 mil milhões de dólares em 2025. 

A disputa sobre a expansão da fronteira fóssil na Amazónia não tem nada a ver com projetos de “transição energética”. Para Suely Araújo3 “o Brasil exporta um pouco mais de 50% do petróleo que produz. Essa expansão é para exportação. Justificar a expansão da produção petroleira com base na transição energética é uma contradição nos próprios termos”. Trata-se de aprofundar o modelo de desenvolvimento económico tal como está. Não espanta, por isso, que o “mapa do caminho” para o fim dos combustíveis fósseis apresentado por Lula para não sair de mãos vazias da COP de Belém pareça isso mesmo… uma decisão para inglês ver. É difícil imaginar um caminho para o fim do fóssil em que o “X” marca o local em que a Amazónia vai ser perfurada.

O verdadeiro mapa está no monitor de explorações fósseis Monitor da Amazônia Livre de Petróleo e Gás, onde é possível encontrar os nomes de todas as grandes empresas energéticas do mundo: Chevron, Shell, BP, Exxon Mobile, Repsol, GALP… you name it. Lá se vai o argumento de que a exploração de petróleo é essencialmente nacional e pública. É um triste mapa para se navegar… Um mapa para o fim do mundo. 

A Queda do Céu

Davi Kopenawa é um escritor, xamã e líder indígena. Foi na luta pela demarcação da Terra Indígena Yanomami que, em 1992, Kopenawa desenvolveu o corpo mitológico da “ecologia xamânica”, uma crítica cosmológica do capitalismo. 

A “mitologia metálica”, as “febres do ouro e efeito de estufa” e o “canibalismo da mercadoria” são conceitos que denunciam a obsessão das sociedades ocidentais com a mercadoria, em estreita relação com a forma de apreender o mundo: os xamãs veem-no na sua essência, enquanto os brancos só acedem a representações determinadas pela ganância. Essa ganância é materializada na extração do outro e personificada pelos garimpeiros “filhos de comedores de terra-floresta”. A evolução do mito sobre a perigosidade dos metais associa a “fumaça do metal”, produzida localmente, à poluição como um todo, o que permite consagrar como destinatário desta narrativa não apenas a floresta mas o mundo inteiro. E aqui o xamanismo encontra a ecologia. Por sua vez, o “canibalismo da mercadoria” concentra na figura do branco toda a violência provocada pelo sistema económico, traduzido na mitologia pelo espírito maléfico Xawarari, como numa relação de predação. Isso acontece porque os brancos têm o “pensamento plantado nas mercadorias”, às quais subtraem os vínculos simbólicos de posse e de troca. 

A visão mitológica das consequências do caos ambiental é “a queda do céu” e o esmagamento de toda a humanidade. Esse fim do mundo remete para o mito da queda do céu dos primeiros tempos, originada pela morte dos grandes xamãs ancestrais que criou o mundo atual. No entanto, sendo uma visão apocalíptica, a destruição total não é uma inevitabilidade, “apenas” um dos resultados possíveis do embate entre a pandemia xawara (o mal dos brancos) e o xamanismo… Uma possibilidade bastante razoável, convenhamos. Concordo que o desfecho não é inevitável4. Mas está cada vez mais próximo, sobretudo para as comunidades tradicionais destes biomas. Há mais de 30 anos, Kopenawa elevou a sua voz acima da floresta. Há quase 40, Ailton Krenak fez-se ouvir na Constituinte de 1988. Ainda assim, insistimos em contaminar o mundo com as febres do metal e chamar-lhe “progresso”. A ecologia xamânica apresenta-nos uma história aberta, com futuros possíveis, outros dirão ecossocialismo ou barbárie. Mas parece que nem com o céu a cair-nos aos pés olhamos para cima.

  1. “Então pra isso precisa ter um esforço nosso aqui enquanto estamos nesse momento de tranquilidade no aspecto de cobertura de imprensa, porque só fala de COVID e ir passando a boiada e mudando todo o regramento e simplificando normas.” Ricardo Salles, Ministro do Ambiente do Governo Bolsonaro, 22/05/2020. ↩︎
  2. O ministro de Minas e Energia do Brasil, Alexandre Silveira, defende a exploração de petróleo “até a última gota”. ↩︎
  3. Coordenadora de Políticas Públicas do Observatório do Clima, ex presidente do IBAMA. ↩︎
  4. Outra política é possível. Em novembro de 2025, a Colômbia tornou-se o primeiro país amazónico a proibir a exploração de petróleo, gás e mineração em larga escala em toda a sua região amazónica. ↩︎