Os partidos de esquerda sempre fizeram das lutas sociais a sua morada. Por mais que o panorama político mude, a rua permanece o espaço-palco de inquietação, de manutenção da democracia, preservação dos direitos já alcançados e reivindicação daqueles ainda por alcançar. É também aqui que conseguimos estabelecer o ponto de rebuçado entre uma militância ativa e um espírito de comprometimento com a(s) luta(s).
O nosso trabalho, enquanto esquerda, reside na lógica de correr por dentro e por fora, ao nos envolvermos de corpo e alma nos movimentos sociais que impulsionam greves, possibilitam pontos de viragem históricos e alimentam o combustível para a mudança, ao mesmo tempo que semeamos cravos de Abril na política interna e internacionalista. O parlamentarismo, as vozes previsivelmente bem colocadas, o formalismo, o cinzentismo de homens engravatados e austeros, nunca foram a nossa identidade. A génese da esquerda está na resistência popular, no punho erguido, nos piquetes para as greves, na garganta arranhada de tanto gritar palavras de ordem, no ajudar a montar e desmontar a festa, no dar a cara, lado a lado com o povo.
O trabalho de formiguinha vai muito além da Assembleia e do recrutamento de novos aderentes. O trabalho político, comprometido com a luta, é contínuo e está em constante mutação e adaptação. Só com um conhecimento de causa das causas, tropeçando num pleonasmo, é que nos é possível levar as urgentes e devidas pautas ao Parlamento, em formato de intervenção ou projeto de lei. Todo o “fazer parte” de um coletivo que integra um determinado movimento social – sublinhe-se que a luta é interseccional – é escola, é amadurecimento político, é aprendizagem.
A representatividade de partidos de esquerda nos movimentos sociais deve ser idealmente garantida através de pessoas que vivem e (r)existem numa simbiose de militância ativa e ativismo interseccional, que navegam entre os vários palcos de luta e permitem estabelecer uma ponte entre a ação de rua – alicerce da política – e o trabalho parlamentar – materialização do trabalho de bases. Porém, este envolvimento de pessoas militantes nos movimentos, como qualquer outra integração num grupo, baseia-se na confiança.
Em contraponto com este envolvimento comprometido, surgem por vezes militantes paraquedistas que se aproveitam deste caminho previamente construído e que tentam tomar de assalto este espaço coletivo, mais concretamente quando chega o momento da ação de mobilização propriamente dita (protesto, manifestação, concentração, assentada, etc.). Assistimos recorrentemente a movimentos sociais, outrora unificados e possantes, nomeadamente entre 2018 e 2020, a erodir-se devido a conflitos internos, disputas de espaço, como se estivéssemos a remar em sentidos opostos. Dá-se assim o ponto sem retorno: a quebra de confiança entre ativistas apartidários e ativistas partidários.
A práxis de quem luta reside no abraçar de pessoas que queiram fazer a luta toda, independentemente das divergências ideológicas que possam existir ou da diversidade de percursos de militância traçados. Quando tudo falha, resta a confiança. E, na sua ausência, perdemos tudo. Perdemos o rumo, perdemos a estrutura, sem rede de apoio, sem conseguirmos encontrar e trilhar o caminho de migalhas de Hansel e Gretel, que nos levaria de volta ao berço do trabalho político e ao porquê de ainda fazermos (tudo) isto. O desmerecimento da confiança nutrida pelas pessoas ativistas, em sentido lato, perante os partidos de esquerda, é orfandade.
O acentuar do antipartidarismo nos movimentos sociais não surge, portanto, no vazio. Este fenómeno parece acompanhar a tendência de descredibilização relativamente ao papel dos partidos políticos, particularmente os de esquerda, no concreto impulsionamento de mudança social. A esta tendência junta-se também a perda de confiança e de representatividade, tanto ao nível de alinhamento ideológico, como ao nível literal de falta de representatividade, em números, de deputados de esquerda no Parlamento. No seio dos movimentos sociais recuperam-se os pensamentos recorrentes de «a esquerda devia unir-se», «os partidos de esquerda deveriam radicalizar o seu discurso», «deviam deixar de se preocupar tanto com o número de aderentes e focar-se mais nas lutas». Críticas válidas e que possuem um fundo de verdade, mas que não deixam de ser duras e difíceis de canalizar para uma autocrítica interna em partidos que já se encontram fragilizados e numa roda viva de campanha seguida de campanha, derrota atrás de derrota.
Há que juntar os cacos e formar algo novo, sem perder a essência, como kintsugi. Estas linhas não almejam apresentar uma receita mágica para solucionar todos os flagelos, mas oferecem álcool para colocar sobre a ferida, seguido de um curativo.
Enquanto permitimos ao tempo sarar a pele, ficam aqui algumas mezinhas para ajudar a acelerar o processo de cicatrização:
Não transformar os movimentos sociais em lugares de disputa de espaço partidário, nem de busca por holofotes mediáticos, e muito menos usá-los como zonas de pesca intensiva, e pouco subtil, de novos aderentes. Estas dinâmicas desgastam e enfraquecem os movimentos que se querem unidos, fortes e coesos. É dever e deve ser práxis dos partidos de esquerda amparar e amplificar os movimentos sociais, seja com simplificação de burocracia, transmissão de conhecimento, ou com trabalho de bastidores, com a disponibilização de materiais, colunas, microfones e megafones, fundo de maneio para imprimir cartazes e panfletos, tecidos para fazer faixas, tintas e pincéis, ou até mesmo ao abrirem as portas das sedes para que os coletivos delas façam uso. É responsabilidade da esquerda ser o bálsamo e a madrugada que esperávamos.
Terminamos com uma nota de «esperançar», como nos lembra Paulo Freire. Os partidos de esquerda continuam a ser o que nos segura, face aos retrocessos políticos que vivemos, e que nos permite ganhar tempo para organizar, dar a mão e tomar consciência de que são ainda pouco doces os tempos que se avizinham. Evocando um dos emblemáticos slogans do PSR, «Mais vale um deputado acordado do que dez a dormir», e, camaradas, sigamos com a certeza de que basta uma alma inquieta para continuar a partir pedra e a trazer a poesia para a rua. Não é sobre nós, mas sim por todas nós.