O estranho hábito de ouvir lições musicais

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Artigo de Miguel Bordalo.


 

Antes de mais, devo o meu pedido de desculpas às pessoas que leram o meu último texto aqui neste espaço, e a suas referências escatológicas, estava no meio de uma campanha complicada… fechados em máscaras e a mitigar a difícil ausência de contacto, com olhares cúmplices. Desculpas também para as três pessoas que deram conta da minha ausência, tentarei ser mais prolífico.

Cá estou de volta, e se o último artigo me permitiu escrever, este que aqui vêem… parece confirmar-se o espaço de liberdade onde nos encontramos.

Antes de mais, e porque a edição deste artigo tem o péssimo hábito de terminar com a minha proposta musical, desçam a página toda, carreguem no vídeo do youtube que está lá postado e voltem aqui… já está?

 

Tenho um hábito estranho de ouvir lições musicais do Leonard Bernstein no youtube. Quem tem interesse em música devia experimentar, mesmo os que não têm especial interesse deviam fazê-lo, talvez activasse o interesse. É um professor com prazer de ensinar, e com uma capacidade de comunicação e de criar fervor à volta do tema proposto que me surpreende sempre que ouço uma das suas lições. O tempo vai fazer com que tudo seja esquecido mas, como tudo o que é bom, devíamos tentar adiar o esquecimento o máximo possível relembrando Bernstein até sempre… que possível.

 

Numa destas lições Bernstein fala de um pianista chamado Glenn Gould, que o próprio Bernstein irá dirigir numa peça, logo a seguir ao que nos está ali a dizer. Antes de o fazer, discorre um pouco sobre as partituras incompletas que alguns dos grandes compositores de música clássica nos deixaram, o exemplo é de Bach, no qual o pianista Glenn Gould se especializou. Num parafraseamento tosco, que neste momento estou a ouvir o mesmo que vocês, o primeiro andamento da Scheherazade op.35, Bernstein diz que, por vezes, parece que estes grandes compositores deixavam as suas partituras incompletas, particularmente a acentuação e dinâmica, porque talvez quisessem ser eles a dirigir da melhor maneira a sua “própria” sinfonia, (a ideia de uma piada para Bernstein). Para exemplificar o próprio Bernstein pega na partitura e toca-a sem acentuação, e logo de seguida toca-a com a sua acentuação, a diferença é tão significativa que consegue com eficácia tirar a ideia de que os músicos de orquestra são matemáticos brilhantes, a resolver equações de um grau de dificuldade absurdo durante um determinado periodo de tempo. Afinal há interpretação, afinal há espaço à criatividade na performance… talvez… se muito combinado? Extremamente treinado e de acordo com o matemático da baqueta, que parece estar a controlar todas as contas e todos os números.

 

Como maioritariamente ouço jazz, tenho na minha condição humana simples, ou até talvez quem saiba mais – simplista, a expectativa de encontrar momentos de rasgo improvisado. Quando um dia comecei a ficar obcecado com Miles Davis e a comparar músicas tocadas por Miles Davis em tempos diferentes fiquei muito surpreendido com a interpretação que o Chick Corea deu às composições de Miles Davis, e a dimensão que a performance e dinâmica que o Chick Corea dava à música de Miles. Bitches Brew é um disco, é uma música e é um tratado de inovação que parte do Miles como líder daquela banda, mas também de todos os músicos que o quiseram acompanhar naquela viagem. O Chick Corea tocava teclas do lado direito, do lado esquerdo Joe Zawinul. Apesar do enorme músico que o Joe Zawinul é, ouçam a interpretação do Chick Corea e tentem esconder aquela paixão, aquele fascínio que o tornou durante anos, até há bem pouco tempo, num dos melhores e mais inovadores músicos de todos os tempos.

 

Também o Chick Corea dá lições incríveis que é possível consultar on-line e que recomendo a toda a gente. Não será o último, mas também ele devia ser recordado para sempre, ou até ser possível, vá… como um dos grandes professores deste movimento artístico a que chamamos de música. Perdemos a sua presença neste mundo, mas ficaremos com ele para sempre também na sua música e nas suas lições… também ficamos com ele naqueles a quem ele inspirou, ensinou e empurrou para uma carreira musical.

 

O que estão a ouvir neste momento no entanto não tem a ver nem com o Chick Corea nem com o Leonard Bernstein, mas quando ouço este concerto lembro-me dos dois porque é impossível não pensar em composição e em execução sem pensar nos dois mais incríveis professores de música que eu tive o prazer de encontrar na minha vida.

 

Eu, que olho para aquelas partituras com a dificuldade com que um aprendiz da soma e da subtracção olha para equações trigonométricas ouço esta interpretação que a Orquestra Sinfónica da Galiza faz sobre a batuta de Leif Segerstam de Scheherazade op.35 de Nikolai Rimski-Kórsakov e fico ainda mais fascinado por música. Ora, pelo que eu leio deste compositor russo ele vivia o momento da orquestração em especial obsessão pela orquestração. Ao contrário de Bach, que o Bernstein gozava não querer divulgar todos os segredos da sua música para ser ele a executá-la e só ele da maneira como ela a pensou, Nikolai Rimski-Kórsakov não deixou nada ao acaso.

 

Se por acaso tiverem paciência para ouvir este concerto todo e não se sentirem surpreendidos com a execução que esta peça nos deixa, e porque é que eu a relaciono com um músico de jazz na surpresa que ela me gera, mesmo depois de a ouvir trinta vezes… não sei que vos diga. Há coisas neste concerto que eu nunca tive o prazer de ouvir antes na minha vida. Um grito de alma feito na Galiza, por um maestro filandês, um compositor russo e sobre a história e a cultura Persa. Aproveitem.