O Maio de 68 dos imigrantes em França

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Nesta entrevista, o historiador Daniel A. Gordon fala sobre a participação dos trabalhadores imigrantes no Maio de 68, e sobre a forma como as lutas da imigração se desenvolveram na sequência do levantamento operário e estudantil. Daniel A. Gordon é autor de “Immigrants and Intellectuals : May’68 & the rise of anti-racism in France, Merlin Press, 2012”. Entrevista realizada por Selim Nadi, publicada em Contretemps, revue de critique communiste.


Contretemps: No seu livro, interessa-se pela forma como o Maio de 68 foi vivido pela imigração em França; o que o levou a este assunto?

Daniel A. Gordon: A ideia ocorreu-me, pela primeira vez, em 1998, ao ler Sixty-Eight: The Year Of the Barricades de David Caute. Caute menciona, de passagem, que a Universidade de Nanterre, onde começaram os acontecimentos de Maio, se situava perto de um bairro de lata de argelinos. Perguntei-me então o que pensariam os argelinos sobre a revolta do campus que se tornou uma greve geral? Tendo pouco a perder, apoiaram-na com entusiasmo ou, pelo contrário, questionaram, com incompreensão, contra o que se revoltavam os estudantes de classe média? Como era visto o Maio de 68 a partir do bairro de lata? E, da mesma  forma: como os revoltosos de 1968 viam o bairro de lata? Imigrantes & Intelectuais é o produto da minha investigação sobre o encontro destes dois mundos diferentes.

Contretemps: Como definiria o terceiro-mundismo? Como explicar que antes de 1968 a esquerda francesa se tenha apaixonado pelo “terceiro mundo”, mas que, paradoxalmente, este interesse tenha levado esta mesma esquerda a subestimar a questão dos imigrantes em França? No seu livro, explica que isto foi devido a razões estruturais, poderia explicar?

Daniel A. Gordon: O terceiro-mundismo era uma ideia muito influente no seio da extrema-esquerda de numerosos países, mas particularmente em França, onde se cristalizou no período da concretização das independências dos antigos países colonizados – por volta dos anos 1960-1962. Segundo esta corrente, a classe operária europeia deixara de ser revolucionária, ao mesmo tempo que as massas dos países que tinham obtido recentemente a independência constituíam a nova força revolucionária em nível mundial.

Assim, entre 1962 e 1968, um período de aparente estabilidade política em França, havia uma tendência para ver a tarefa principal da esquerda radical francesa como estando do outro lado do Mediterrâneo, na ajuda à construção do socialismo no Terceiro Mundo. Não se deram conta imediatamente de que o Terceiro Mundo podia começar nas portas de Paris, nos operários imigrantes indo na direção contrária da esquerda radical terceiro-mundista: para o norte, à procura de trabalho graças ao boom económico de França, amontoando-se em bairros de lata tentaculares, lamacentos e com risco de incêndios mortais. Na verdade, para compreender o subdesenvolvimento, não era necessário fazer todo o trajeto para a Argélia ou a Bolívia: bastava ir a Aubervilliers ou Bobigny. Mas os radicais do Quartier Latin não se deram conta disso imediatamente, porque não frequentavam esses lugares.

Assim, a razão estrutural desta ausência de encontro antes de 1968 residia na segregação de classe tácita entre uma extrema-esquerda intelectual do centro de Paris, que era bastante cosmopolita e radicalmente internacionalista, mas frequentemente ignorante das realidades da vida da classe operária, uma classe operária dominada pela esquerda comunista, nos arredores, onde vivia de facto a massa de operários imigrantes. Desta forma, para a esquerda estudantil emergente nos anos que precederam diretamente 1968, a questão da imigração não fazia parte das suas prioridades políticas porque não se tratava ainda de uma realidade concreta para eles. Ao mesmo tempo, nos arredores, as preocupações da maior parte dos operários imigrantes eram bem mais concretas, como, por exemplo, poupar dinheiro para ajudar as famílias. As ações políticas, em França, representavam um risco para os estrangeiros, e mesmo a minoria de imigrantes que eram militantes políticos interessavam-se, na época, principalmente pelas mudanças que estavam em curso nos seus países de origem.

Contretemps: As greves operárias de Maio de 1968 em França tiveram um impacto na organização política e na consciência de classe dos operários imigrantes?

Daniel A. Gordon: Sem dúvida. Foi o momento-chave que viu uma espécie de consciência de classe emergir entre os operários imigrantes, como tendo um interesse comum com os colegas franceses. Nas grandes fábricas de automóveis, como a Renault e a Citroën, nos estaleiros por toda a França, muito imigrantes participaram na greve geral, quer como grevistas passivos ou ativos, alguns deles cumprindo um papel importante nos piquetes de greve. A CGT e a CFDT tinham suborganizações dedicadas aos operários imigrantes e as suas publicações sublinhavam o papel dos imigrantes na greve. Se virmos as pesquisas da época, conduzidas por organizações como a JOC quanto à participação dos seus aderentes imigrantes na greve, encontramos provas que rompem com a ideia que era dominante antes de 1968, segundo a qual os imigrantes eram fura-greves. Aliás, como muitos operários franceses, encontramos em numerosos operários imigrantes um sentido agudo do facto de a greve ir para além de uma simples questão monetária – tratava-se da dignidade humana. Assim, encontramos, mesmo que por um curto e intenso período, um sentimento de camaradagem e de unidade entre os operários imigrantes e franceses, quebrando o isolamento no qual os imigrantes vivam antes de 1968.

Contretemps: A mobilização dos imigrantes que viviam em França em 1968 (e nos anos seguintes) multiplicou as organizações próprias dos imigrantes, ou a sua politização fez-se no seio dos novos grupos da esquerda radical francesa?

Daniel A. Gordon: Ocorreram as duas situações. Desde antes de 1968, existiam alguns grupos radicais auto-organizados, como a União Geral dos Trabalhadores Senegaleses em França, por exemplo; mas toda uma galáxia de organizações por nacionalidade, que se opunham aos governos dos seus países de origem, floresceram depois de 1968. No mesmo período, no imediato pós-Maio, muitos grupos da esquerda radical francesa mostraram uma certa tendência de querer recrutar operários imigrantes e de definir os imigrantes como as vítimas emblemáticas da opressão capitalista. Ora, em 1973, certos imigrantes, tendo vivido esta experiência, exprimiam veleidades de autonomia, questionando-se se eram instrumentalizados, num viés paternalista, pela extrema-esquerda francesa, de uma forma que podia ser perigosa para os estrangeiros. Seja como for, numericamente, a maior presença de operários imigrantes no seio de organizações políticas, no período pós-1968, não ocorreu na nova extrema-esquerda, mas antes no seio de organizações operárias tradicionais, como aquelas ligadas ao Partido Comunista, por exemplo.

Contretemps: Retrospetivamente, como avalia a experiência do Movimento dos Trabalhadores Árabes (MTA)? Esta experiência permitiu que uma franja da classe operária francesa lutasse contra o racismo? Quais foram as suas relações com as organizações de esquerda?

Daniel A. Gordon: O MTA era sem qualquer dúvida a mais importante e influente organização dos imigrantes de esquerda deste período. Foi fundado por militantes marroquinos e tunisinos que participaram de uma experiência do movimento francês de Maio de 1968, os Comités Palestina, e dos movimentos de solidariedade com a luta contra a repressão nos seus países de origem. Mas a sua experiência de encontros com operários imigrantes, em lugares como La Goutte d’Or, convenceu-os de que um operário norte-africano, assolado pelo medo constante de ser morto ao voltar do trabalho à noite, tinha preocupações bem mais imediatas que as longínquas da Palestina. A formação do MTA representou uma viragem para os imigrantes que começavam então a encarar o seu futuro a longo prazo em França, questionando o “mito do regresso” e afirmando o seu lugar na sociedade francesa.

O MTA mobilizava amplamente em torno das questões da violência racista e das tentativas do governo de barrar os direitos aos operários imigrantes. Desempenhou um papel determinante ao lançar a primeira greve de fome dos sem-papéis, que levou à regularização de 35 mil pessoas. Dada a recorrência dos movimentos de sem-papéis nos períodos recentes, eis um exemplo da maneira como o MTA começou algo que ainda permanece, mesmo se a organização só existiu entre 1972 e 1976. O MTA foi firmemente condenado pelo PCF e pela CGT pelo que estas organizações viam como uma “divisão da classe operária”, mas tinha boas relações com a CFDT, com outros grupos de esquerda como o PSU ou certos movimentos cristãos. A longo prazo, podemos igualmente ver a influência cultural do MTA: na revista Sans Frontière, do final dos anos 1970 ao início dos 1980, na ONG Géneriques, que promoveu, a partir de 1987, a compreensão pública da história da imigração em França e também no Museu Nacional da História da Imigração, onde antigos militantes do MTA desempenharam um papel crucial para a memória e a história da imigração. Um deles, Saïd Bouziri, que entrevistei no meu livro, tem atualmente uma praça com o seu nome no 18.º bairro de Paris.

Contretemps: Um dos aspetos mais interessantes do seu livro é não abordar apenas a imigração oriunda das antigas colónias francesas, mas também aquela vinda de países europeus: como era a politização da imigração portuguesa, espanhola, grega dos anos 1970? A queda dos regimes ditatoriais provocou alterações quanto à organização política dos imigrantes da Europa do Sul?

Daniel A. Gordon: Sim, para mim era muito importante tomar a história da imigração na sua totalidade durante este período. De modo inverso a esta tendência redutora, na França de hoje, de ver os “imigrantes” simplesmente como sinónimo de “árabes” ou de “muçulmanos”. Nos anos 1970, a maior parte das pessoas entendiam o termo “imigrantes” essencialmente como um sinónimo de “operários imigrantes”, principalmente no sentido económico, e não como uma suposta categoria cultural separada do resto da população francesa, o que significa que os operários portugueses – que viviam muitas vezes nos bairros de lata – eram tão “operários imigrantes” quanto os argelinos.

Queria igualmente interrogar o estereótipo que tinham os sindicatos franceses na época, segundo o qual os operários portugueses e espanhóis eram dóceis e não tinham consciência de classe (uma perceção reforçada pelo alto nível de prática católica nestes grupos, o que rompia com o secularismo da esquerda francesa).

Contrariamente a este estereótipo, encontrei muitos exemplos de casos nos quais os operários da Europa do sul participaram dos acontecimentos de 1968. Não obstante, era igualmente verdade que eles tinham boas razões para se manterem discretos, porque a polícia secreta portuguesa mantinha uma vigilância sobre a subversão no seio dos seus compatriotas no estrangeiro – havia muitos desertores da incorporação obrigatória no exército português que viviam em França. Assim, a queda das ditaduras em 1974-1975 foi um momento importante para os imigrantes do sul de França, dando origem a um florescimento de atividades no seio das organizações de imigrantes, mas igualmente uma reação contra o que alguns encaravam como os excessos do período revolucionário: a revolução, tal como a contrarrevolução em Portugal tiveram eco em França.

Contretemps: Termina a sua obra com a Marcha pela Igualdade e Contra o Racismo de 1983; qualifica o ano de 1983 como sendo o da “morte dos anos 1960”, poderia explicar esta expressão? Nomeadamente no que diz respeito à politização dos imigrantes…

Daniel A. Gordon: Há muitos debates entre os historiadores quanto à data exata do fim dos “anos 68”, as estimativas precedentes situavam-na num período entre 1972 e 1981. No último capítulo do meu livro, posiciono-me a favor do ano 1983 como o da viragem decisiva. Foi o ano no curso do qual apareceram numerosos parâmetros da vida política francesa contemporânea, o mais evidente dos quais sendo uma extrema-direita obtendo sucessos eleitorais, um aspeto cuja ausência era notória no período coberto por este livro, em que a Frente Nacional não conseguia sequer 1% dos votos. Não foi por acaso que esse foi o momento da “viragem do rigor”, acompanhado de uma reversão das políticas inicialmente pró-imigrantes do governo Mitterrand. Assim, os operários imigrantes encontravam-se atolados em lutas defensivas muito duras, para defender o seu lugar conquistado com dificuldades na sociedade francesa, numa época em que pareciam antiquados – porque a própria ideia de operário passou a ser vista como arcaica, mas também porque envelheciam, enquanto que as orientações da juventude faziam do denominado “beur” [mestiço] um novo objeto de fascínio. De facto, mesmo a politização da “segunda geração” não começou com a Marcha pela Igualdade e Contra o Racismo de 1983: ela encontrou também as suas raízes no fim da cultura de extrema-esquerda pós-68, durante a segunda metade dos anos 1970. Mas tudo isto foi sujeito a uma certa amnésia: espalhou-se a ideia de que a “primeira geração” de operários imigrantes tinha simplesmente sofrido em silêncio. Assim, se uma nova era da história do antirracismo em França se abriu a 3 de dezembro de 1983, quando Mitterrand acolheu os participantes da marcha no Eliseu, a era precedente foi escondida. É por esta razão que eu vejo 1983 como “a morte dos anos 1960”.

Tradução condensada de Luís Leiria