O planeta está a aquecer mais depressa do que os modelos previam e, apesar dessa evidência, as emissões continuam a subir. Mandam-nos separar o lixo para reciclar, calcular a pegada carbónica das nossas compras e trocar para carros elétricos, enquanto as maiores máquinas de destruição ardem sem limites e sem prestarem contas a ninguém. A economia de guerra está no coração da crise climática. É um dos seus motores.
O impacto da guerra no clima é um segredo bem guardado. Os exércitos do mundo serão responsáveis por cerca de 5,5% das emissões globais de gases de efeito de estufa, o dobro da aviação civil, mais do que toda a navegação mundial. Se as forças armadas do planeta fossem um país, seriam o quarto maior emissor da Terra. E quase nada disto aparece em qualquer registo das emissões. Na Conferência de Quioto, em 1997, as emissões militares foram excluídas da obrigação de registo. No Acordo de Paris os países comprometeram-se a revelar, mas apenas de modo voluntário. Hoje as três maiores potências militares (Estados Unidos da América, China e Rússia) divulgam as suas emissões militares apenas de forma incompleta, ou pura e simplesmente não as divulgam, ou então declaram que simplesmente “não estão a ocorrer”. A máquina de guerra é um poluidor gigantesco e arquitetou a sua própria invisibilidade.
As emissões da guerra são, aliás, muito maiores do que conseguimos imaginar. Quando vemos a guerra na televisão vemos explosões de misseis e drones. Mas o grosso das emissões vem da produção e, sobretudo, da reconstrução depois da destruição. Quando os Estados Unidos e Israel iniciaram a guerra contra o Irão, as bombas, do ponto de vista das emissões, foram a menor parte de tudo isto. A maior fonte de emissões nas primeiras duas semanas virão dos edifícios destruídos: o carbono de milhares de estruturas destruídas vai ser libertado quando os escombros forem removidos e quando voltar o betão e o cimento. Em Gaza, estima-se que reconstruir o que foi destruído emitirá muito mais do que os bombardeamentos, segundo alguns cálculos, mais de vinte vezes mais. A guerra emite duas vezes: uma escondida nas contas dos países que fazem as bombas para arrasar as cidades, outra a contar nos países que têm de as reerguer.
E a guerra faz mais do que emitir. Torna impossível a ação climática. Cada guerra arrasta o mundo para mais fragmentação, rivalidade e o colapso da cooperação que qualquer transição séria exigiria. Constrói, aliás, precisamente o mundo que os piores cenários climáticos descrevem: cada nação armada contra a vizinha, os bens comuns globais abandonados, o futuro sacrificado à guerra. Reorganiza economias em torno dos combustíveis fósseis em nome da “segurança energética”. Justifica novas perfurações, novos terminais, novos gasodutos: drill baby, drill. A história é clara quanto a isto: todos os grandes choques petrolíferos acabaram numa corrida à perfuração e esta guerra já fez disparar o preço do petróleo e mandou as perfuradoras de volta às jazidas de petróleo. E pelo caminho lá se vai o dinheiro para as pensões, para as casas, as escolas, os hospitais ou para a transição energética. Com medo de Trump e de Putin, a Europa quer despejar centenas de milhares de milhões em rearmamento e cada euro gasto em armas é um euro que não é gasto na transição. O “Guns or butter” de hoje é guerra ou desastre climático.
Pior, quem lucra com a economia de guerra são os mesmos que bloqueiam a transição, as empresas de armamento, o capital fóssil, as elites e a extrema-direita que hoje governa em muitas partes do mundo. Construíram a máquina de guerra para ser politicamente indestrutível e espalham as fábricas e contratos milionários como se fosse um programa de emprego para o apocalipse. Em Portugal basta ver o entusiasmo de Nuno Melo com a “oportunidade” que as armas vão criar para a “riqueza” do país.
O fim do mundo é, de facto, mais fácil de imaginar do que o fim do Capitalismo.
A indústria de guerra é uma criação da humanidade, são fábricas, trabalhadores, engenheiros e orçamentos de Estado e cada parte dessa indústria da morte pode ser reconvertida para o bem comum. A mesma capacidade industrial que fabrica um drone assassino ou um blindado pode reconstruir a rede elétrica de territórios afetados pelo comboio de tempestades de janeiro. As mesmas mãos podem ser postas em painéis solares para descarbonizar em vez de destruir.
Clima e guerra são duas faces da mesma crise. As emissões e a destruição são produzidas pela mesma máquina, pela mesma classe. Não há justiça climática enquanto caírem as bombas, nem paz num planeta em chamas.
Lutar por uma é lutar pela outra.
É o mesmo fogo. É a mesma luta.