O mito de Europa entre nós e a Antiguidade

O conceito de Europa, assim como o seu mito, nasce na Grécia Antiga, embora não ao mesmo tempo, nem de forma estável ou definitiva. De resto, a identidade Europeia assenta frequentemente numa narrativa de continuidade com esse passado clássico, que nem sempre conhecemos, mas onde gostamos de nos rever. 

O “berço” da Europa

Europa era, na mitologia grega, uma princesa fenícia que, como comumente acontece na mitologia, Zeus desejou. Para se aproximar dela, Zeus vai transformar-se num touro branco. Ao ver a sua beleza, Europa aproxima-se, e sobe para o flanco do animal.  Zeus começa a correr e rapta Europa, levando-a para Creta onde terão três filhos. É esta imagem de Europa em cima de um touro a correr sobre o mar que frequentemente encontramos na iconografia, nomeadamente, ainda hoje, na moeda grega de 2 euros. No século V a.C. Heródoto (Histórias 4.45) já encontra vários problemas na relação entre este mito e o continente da Europa, não só porque para o autor nem a Fenícia, nem Creta fariam parte da Europa, mas em primeiro lugar porque não compreende porque é que a terra, que é uma, está dividida em três continentes – Europa, Ásia e Líbia (África) – ou quem definiu as suas fronteiras.  

Quer o mito, quer as perplexidades de Heródoto, falam-nos de uma cultura muito mais centrada no mediterrâneo oriental do que em qualquer coisa a que hoje chamaríamos “Europa”. No entanto, é exatamente dessa proximidade cultural que nascem muitas das narrativas que estabelecem uma identidade cultural grega (e que com o tempo se irá metamorfoseando em europeia ou ocidental) por oposição a uma cultura “bárbara” (ou oriental). Encontramos esta  narrativa de oposição entre “civilização” e “bárbaros” num dos primeiros textos na literatura ocidental, na  descrição na Ilíada (XVIII 478-608) do escudo de Aquiles onde em torno dos vários elementos civilizacionais gregos encontramos o grande rio Oceano, espaço do caos e do desconhecido, espaço dos monstros “do mar tenebroso” que Ulisses encontra nas suas viagens na Odisseia. No entanto é na Atenas do século V a.C., depois da vitória grega sobre os persas, que vamos encontrar talvez a mais importante  cristalização destes temas na antiguidade

O “berço” do Orientalismo

A vitória grega sobre os persas no início do século V a.C. tem um impacto imenso na construção da imagem que os atenienses têm sobre si mesmos. Após as pesadas derrotas que infligem ao inimigo em Maratona e Salamina, Atenas surge no contexto grego como potência militar capaz de rivalizar com Esparta. Mas, Atenas, que estava então em processo de democratização, acreditará que o seu poder militar vem da sua recém-formada democracia, de o seu exército ser composto por homens livres com plenos poderes políticos. A ideologia democrática de Atenas é, assim, reforçada por esta oposição ao grande império persa. Nas décadas seguintes, ao reconstruir a acrópole, os atenienses vão fazer-se representar como o baluarte da civilização, da racionalidade, da humanidade face a todas as ameaças bárbaras e monstruosas: os gigantes, os centauros, as amazonas e, claro, os persas. A sua vitória é a vitória da civilização face à barbárie. Mas se a iconografia nos apresenta uma narrativa de alto contraste, conseguimos encontrar retratos mais complexos. Um exemplo disso são os Persas de Ésquilo, representados ao mesmo tempo que se iam fazendo os trabalhos de reconstrução da acrópole, e a única tragédia com um tema histórico que sobreviveu. Esta tragédia transporta-nos para a capital do império persa, Susa, durante a derrota dos persas em Salamina. É, claro, uma celebração dos vencedores, mas é uma celebração que se centra nos derrotados e que, de alguma forma, os humaniza suscitando a empatia. 

Antes do touro, a vaca

Mas é noutra peça de Ésquilo que me quero focar:  As Suplicantes. Aqui Ésquilo põe em cena um grupo de jovens mulheres que chegam à Grécia em busca de refúgio contra um casamento que rejeitam. Estas mulheres vêm do Egito e contam-nos a história da sua antepassada Io. Io não é só antepassada destas jovens Danaides, é também a trisavó de Europa. A história começa da mesma forma: com Zeus tomado de desejo por Io, sacerdotisa de Hera. Mas desta vez Hera, mulher de Zeus, antecipa-se e transforma Io numa vaca para a tentar afastar do marido. Claro que os seus esforços são em vão e Io, ainda em forma de vaca, acabará acossada por um moscardo enviado por Hera, que a fará atravessar os três continentes (dado nome ao Bósforo – lit. “passagem do boi”) e chegar ao Egipto onde, depois de dar à luz Épafo, filho de Zeus, este lhe devolve a forma humana. 

As Danáides invocam esta relação com Io para reclamarem asilo a Pelasgo, rei de Argos. A identidade destas jovens mulheres é alvo de forte tensão na peça, se por um lado Pelasgo vê nelas uma “aparência bárbara”, fica perplexo ao ver que compreendem e cumprem os rituais gregos, nomeadamente os que pertencem ao seu estatuto de suplicantes. A esta indefinição, a peça contrapõe Pelasgo e os argivos, que parecem representar a cultura grega. Argos, em As Suplicantes, não é apenas grega;  é, na verdade, a Grécia. O rei Pelasgo controla toda a Grécia continental, honra os deuses e os costumes gregos. Os elementos democráticos do poder de Pelasgo e o seu recurso à assembleia (ecclesia) aproximam Argos, de facto, da Atenas democrática que acolheu originalmente a representação desta peça. O facto de os cidadãos de Argos optarem por ajudar estas jovens, reforça a narrativa Ateniense de se apresentar como aquela que está sempre pronta a resolver os problemas daqueles que mais precisam e a acolher os estrangeiros no seu seio. Os “bons estrangeiros”, claro está, os que, como as Danaides, reconhecem e seguem os costumes gregos. 

Já no século V a.C. essas narrativas são construídas com a criação de falsas dicotomias que implicam, por um lado, como teorizou Said, uma “orientalização” do outro;  mas também uma versão modificada da própria realidade. É que a Atenas democrática nunca viveu esses ideais que proclama e tinha políticas rigorosas que visavam controlar os estrangeiros ou mesmo o acesso de suplicantes à cidade. A Atenas da “salvação” algumas décadas depois das representação de Pelasgo no teatro de Dioniso e da sua assembleia que decide proteger as jovens Danaides irá na sua assembleia decidir matar toda a população da cidade de Melos porque recusam ser seus aliados políticos e militares na guerra que estão a perder contra Esparta. 

O mito da Europa: “nós e os outros”

Se estes mitos vão ocasionalmente voltar a entrar na discussão sobre a Europa e a(s) sua(s) identidade(s) ao longo dos tempos, as ideias que lhes subjazem vão estar muito mais presentes. À ideia de civilização e salvação, com a sua democracia, racionalidade e jurisprudência, vai ressurgindo de diversas formas, mas ao mesmo tempo a construção de uma identidade europeia  por oposição a um identidade bárbara e/ou oriental vai estar, nas suas muitas metamorfoses, no centro das narrativas da europa justificando muitas vezes guerras, exploração ou o colonialismo. 

Em momentos de crise a Europa volta com frequência a este espaço da antiguidade para legitimar a sua identidade e a sua posição no mundo. Mas frequentemente volta para reconstruir uma narrativa binária, tantas vezes Eurocêntrica, que romantiza o passado. Essa narrativa não é nova. O “eu” e o “outro” dessa narrativa vão mudando ao longo dos séculos: o “eu” europeu passa da Grécia para Roma, para se fragmentar em múltiplas identidades e se reagrupar na União Europeia; também o “outro” será muitas coisas: dos Persas ao Islão, passando por múltiplas identidades no colonialismo europeu. Mas a romantização do passado e da própria identidade está lá desde o primeiro momento, a simplificação do mundo em eixos binários: o mal a combater e a solução a oferecer. E talvez estejamos condenados a cometer os mesmos erros ou, quem sabe,  possamos aprender alguma coisa com eles se formos capazes de abandonar o conforto do binarismo para discutir a complexidade da narrativa europeia e da sua realidade.