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Artigo de Andreia Galvão.


“Uma criança, um professor e uma caneta podem mudar o mundo”, Malala Yousafzai

Quando era pequena o meu pai pregava-me os bens da educação e como era a chave para o sucesso, especialmente de “pessoas como nós”. Tendo em conta a sua história de vida, tal conceção tornou-se inevitável: cresceu em Cabo Verde pós-independência com os seus treze irmãos e irmãs. O seu pai, meu avô, sempre apelou a que estes estudassem e esforçassem, mas só conseguiu financiar a sua educação até à quinta classe. A partir desse momento, e para a vida toda, o meu pai estava sozinho na busca por conhecimento. Abandonou o conforto do seu lar aos onze anos e foi para um seminário, onde a aprendeu a disciplina eclesiástica e teve um ensino marcado pela rigidez. No meio da sua turbulência adolescente e apaixonado por uma rapariga que via na missa, abandonou este estabelecimento e foi para casa de tios, onde conheceu um ensino convencional. Aluno brilhante e exímio, foi estudar na URSS, território da atual Ucrânia, medicina. Aprendeu russo, novos estilos de vida e formas de ver o mundo, passando de um jovem rapaz cabo-verdiano para um homem do mundo.

Uma história de vida que demonstra que a educação liberta, emancipa, salva-nos das nossas próprias correntes de opressão.

A luta estudantil

Paradoxal é o contexto a que nos vemos remetidas nos dias que correm. Com a maioria absoluta de Cavaco Silva, em 1992, que levou à implementação da Lei da Propina, vimos um retrocesso, do qual ainda não recuperámos, do direito a uma educação gratuita e democrática. A narrativa de mercantilização do ensino ganhou legitimidade e hoje somos nós, alunas e alunos, que colhemos os frutos. Embrenhou-se no imaginário português a ideia de que o ensino está acessível a “quem se esforça”, negando assimetrias sócio-económicas. Houve interesse em gerar uma hegemonia na opinião pública pela classe dominante, de modo a justificar esta mudança de prioridade política e invisibilizar a força social que contestava esta alteração paradigmática. Passámos a aceitar a ideia de que “os estudantes estrangeiros vêm usufruir do nosso sistema”, que “a educação é um serviço que deve ser pago“ e “que as propinas sempre existiram assim e sempre assim serão”.

É este discurso de inevitabilidade que encurrala, promotor do conformismo, que não tem em conta a capacidade de resistência do movimento estudantil, da memória de que a educação deve continuar a ser acessível a todos e a todas.

Mas se alguma coisa o meu pai me ensinou foi que as circunstâncias são dinâmicas e não têm de continuar a ser o que sempre foram. Foi por acreditar nesta visão, na democratização desta estrutura como alicerce da democracia, que me juntei ao movimento da Brigada Estudantil. Moblização esta que nasce de uma perspetiva revigoradora e fresca de luta, holística no que entende ser o perfil e as dificuldades dos e das estudantes. Partindo de um princípio transversal de interseccionalidade, reconhece a complexidade desta teia de relações, tal como a urgência de reposicionar as relações de poder no campo do ensino, reconhecendo as disparidades que este sistema suscita. Este tornou-se o tipo de tivismo estudantil que quero fazer porque apresenta uma visão que não se cinge apenas a questões materiais, mas que olha também para outras questões do foro social. Que compreende o peso da precariedade e como esta pode impedir o acesso ao ensino superior, empurrando estudantes para empregos, também, precários. Uma visão que não deixa para trás aqueles e aquelas que foram empurradas para as periferias, devido a políticas habitacionais especulativas que nos negam o acesso ao centro das cidades.

A Brigada Estudantil

A Brigada Estudantil, para além de olhar para a entrada no ensino superior e nos entraves colocados pelas instituições, olha também para o cruzamento das secções identitárias e reconhece que não estamos no mesmo barco. Mas remamos incansavelmente, buscando eternamente a valores maiores como a Igualdade e a Justiça.

Validar o cruzamento das questões identitárias, como a etnia, o género e a identificação sexual com as desigualdades apontadas como entrave no prosseguimento de quem estuda é urgente.

Comecei este texto com uma citação de alguém que fez parte da minha formação enquanto jovem ativista, Malala. Ainda tinha uma noção grotesca do certo, do errado, do que estava feito e o que faltava fazer. Foi uma ativista crucial porque me fez perceber, de bem cedo, que impossibilitar que pessoas estudassem era um ataque flagrante à liberdade.

Não esqueçamos, portanto, que as e os estudantes sempre foram forças progressistas. Cabe-nos a todas ser mais do que filhas dos nossos pais, mas herdeiras das lutas que nos anteciparam e passadoras da tocha das lutas que se avizinham no horizonte.


Andreia Galvão é ativista estudantil.