Foi um momento curioso quando, num debate promovido pelo Bloco numa universidade de verão em Setúbal, no princípio do século, Tariq Ali se viu confrontado com a afirmação de um militante da FER (hoje chama-se MAS) que, exaltado, lhe garantiu que o lugar que ele próprio ocuparia no contexto da invasão do Afeganistão seria com arma na mão numa milícia talibã, para fazer frente ao inimigo. O problema é que tu não estás lá, pois não?, e se estivesses serias morto pelos teus talibãs, respondeu-lhe Tariq. De facto, confundir uma fantasia adolescente com uma tomada de posição num conflito definidor é pouco mais do que uma forma de projetar uma aventura heroicizante, de modo inútil. A escolha de um campo não se manifesta numa quimera individual, que no melhor dos casos é moralizante e vazia de consequências, e só se pode concretizar numa ação política que procure criar opinião e movimento. Defender a população de Gaza e a criação de um Estado Palestiniano não espera o imaginário de um mosqueteiro, precisa de manifestações, de greves gerais, de informação, de criação de caudais de luta – e de afirmação de coragem, como a da Mariana Mortágua e dos seus companheiros e companheiras da Flotilha Humanitária. Escolher um campo só tem sentido para pesar na balança de uma luta política para a ajudar a vencer.
Em todo o caso, admita-se que somos sempre tentados ou levados a escolher campos nos conflitos (e se fazemos alguma coisa de útil em nome dessa escolha é que será a questão fundamental) e, como se sentiu recentemente, essa pulsão manifesta-se até nos jogos de futebol de um campeonato distante e irrelevante para o bem-estar dos povos. Em termos mais gerais, o nosso instinto, ou sabedoria, leva-nos a alinhar numa bandeira contra outra, ou numa causa contra outra, decerto de modo incomparavelmente mais dramático e intenso quando o que está em causa é a vida de pessoas e comunidades. O que concluo é que há duas formas de tomar posição e não as devemos confundir: uma é uma colocação e é declarativa, podendo até ser folclórica; a outra é uma posição e exige um movimento que dela decorre, e assume uma responsabilidade efetiva. Mas o que pergunto de seguida é se à política da esquerda se exige por norma um alinhamento com uma das vozes de qualquer conflito. Se a resposta fosse positiva, dela decorreria o que se deve chamar campismo, que é a aceitação do referencial, do discurso, das políticas e da liderança de quem desejamos e esperamos que resista.
A política tem esquinas
Comecemos pelo que é um campo. E constato que não tem sentido inventar uma continuidade que desenharia um destino e um percurso do qual a esquerda não se deveria desviar, como se houvesse um campo trans-histórico que exigisse a nossa aceitação ao longo dos tempos. De facto, cada conflito tem a sua história própria, e é mesmo a coerência da fidelidade aos oprimidos e a princípios, como o direito à autodeterminação dos povos, que torna imperativo que a reconheçamos. Na Primeira Guerra Mundial os revolucionários europeus recusaram o armamentismo e combateram as suas burguesias nacionais, com o seu curso para a guerra inter-imperial; na Segunda Guerra Mundial favoreceram a frente de resistência ao nazismo, o que também significava uma convergência de ação com burguesias nacionais e imperialistas, e mesmo com a mais poderosa delas, a dos Estados Unidos. A URSS recebeu armas dos norte-americanos, os partisans coordenaram-se com forças monárquicas e oficialistas em diversas frentes. O contexto conta.
Em contrapartida, o campismo significa a submissão a um interesse estratégico e a uma liderança, entendida como o centro da desejável solução política e/ou militar. Ora, essa submissão implica dois problemas estratégicos. O primeiro é que arrasta a inconstância ou viragens por razões alheias ao interesse do povo: como se lê noutro dos artigos desta edição, a oscilação de alianças da URSS, que promoveu um acordo com Hitler em agosto de 1939, uma semana antes do início da Guerra, levou o PCP a submeter-se então a esta política e só depois, com a invasão da Rússia pelas tropas nazis em 1941, a mudar de posição – seguindo as instruções e o discurso de Moscovo. Nessa primeira etapa falhou à sua obrigação para com o combate anti-fascista. Por contraste, os resistentes comunistas, e outros, mantiveram a sua independência política e militar durante a ocupação dos seus países pelos nazis e não se submeteram a uma direção única com os seus aliados de direita.
O exemplo do PCP em 1939 alerta para o perigo de aceitar a determinação por uma direção internacional, independentemente do que ela decida e de para onde caminhe. Tal subjugação é a característica essencial do campismo, veja-se o exemplo dos militantes políticos portugueses que se permitem ignorar o discurso de Putin na véspera da invasão da Ucrânia, que explicou como iria corrigir o “erro de Lenine”, que fora a autodeterminação do povo ucraniano, e em consequência que justificaram a invasão como uma resposta ao fascismo instalado em Kiev. Assim, a obediência é a primeira condição do campismo e conduz a um refúgio num universo paralelo. É aí que tudo se pode justificar: o roubo dos recursos de Angola pela sua oligarquia, o assassinato de centenas de jovens pela dinastia Ortega na Nicarágua, a monarquia hereditária no Coreia do Norte e, mais paradoxalmente ainda, a proximidade entre Putin ou Kim Jong-Il, apresentados como as cabeças de uma frente internacional anti-imperialista, e Trump, o chefe da hidra. Uma esquerda que quer ganhar a maioria do povo para o socialismo e que aceita estes regimes como um bem, ou mesmo como um mal menor, está condenada a aceitar a hipocrisia de discursos justificativos – é o preço amargo do campismo.
A Tricontinental em 1966
O segundo problema estratégico criado pelo campismo é que paralisa as respostas internacionais necessárias contra um imperialismo que estende guerras infinitas pelo mundo e que promove a viragem neo-fascista em múltiplos países.
Essa resposta sempre foi difícil. Mais ainda, movimentos anteriores para a constituir fracassaram ou esgotaram-se, e alguns são bem conhecidos da gerações militantes atualmente em atividade, como os Fóruns Sociais Mundiais e outras expressões da alter-globalização. Mas quero referir um exemplo anterior que demonstra as potencialidades e extremas dificuldades do empreendimento: é o caso da Conferência Tricontinental, que pretendia agrupar representantes das lutas nacionais e anti-imperialistas de vários países. A Tricontinental reuniu-se em janeiro de 1966, há portanto mais de sessenta anos, e depois de um percurso acidentado: o organizador da conferência era Ben Barka, o revolucionário marroquino que dirigia a luta socialista no seu país; contudo, ele foi raptado em França nos finais de outubro de 1965 (seria depois entregue à polícia do seu país e assassinado) e deixou de poder acompanhar os preparativos finais da conferência, que se devia ter realizado em Genebra. Foi por isso transferida para Havana. E foi um sucesso: com mais de mil participantes e encerrada por Fidel Castro, a conferência juntou figuras notáveis como Amílcar Cabral, da Guiné e Cabo Verde, Nguyen van Tien, do Vietname, e Salvador Allende, do Chile, e muitas outras pessoas.
Che Guevara não esteve na conferência, já tinha partido para a missão fracassada no Congo (onde esteve entre outubro e novembro de 1965) e preparava-se para rumar à Bolívia (onde chegou em outubro de 1966 e viria a ser assassinado um ano depois), mas enviou uma mensagem longa, que reflete o sentido da iniciativa – e o cartaz da conferência era ilustrado com uma foto sua, ele era o ausente presente e o símbolo da reunião. O seu argumento essencial foi que o Vietname era a primeira trincheira da luta contra o império: “Temos que nos perguntar, esperando uma resposta honesta: está o Vietname isolado ou não? Não está a manter um perigoso equilíbrio entre os dois poderes mundiais opostos? E que gente corajosa, que estoicismo e coragem! E que lição para o mundo é a desta luta!”. Ao acrescentar que os dois poderes mundiais se digladiavam em torno do Vietname, o Che escolhia afastar-se do campismo pró-soviético e afirmar uma alternativa independente, que se expressou no apelo a criar “um, dois, muitos Vietnames”. A conferência procurou incentivar esse impulso.
Para registo, referiu-se numa parte da sua mensagem à luta nas colónias portuguesas: “Se nos detivermos a analisar a África, devemos observar que nas colónias portuguesas da Guiné, Moçambique e Angola a luta se desenvolve com relativa intensidade, com sucesso concreto na primeira e com sucesso variável nas outras duas” (o tom reflete a admiração que os dirigentes cubanos tinham por Amílcar Cabral e a desconfiança em relação aos movimentos em Moçambique e Angola).
A conferência entusiasmou os seus apoiantes e surgiu como uma continuidade da vitória cubana (tomada do poder em 1959, vitória contra a invasão da Baía dos Porcos em 1961). Alimentou o discurso do não-alinhamento, que fora enunciado pela Conferência de Bandung, na Indonésia, em 1955, com Nasser e Chu Enlai, e que afirmava uma política fora da tutela dos EUA ou da URSS, em torno da noção ambígua do “Terceiro Mundo”, que deveria ter uma voz própria. Como leste atrás, o próprio Che não escondia a sua distância em relação aos soviéticos, porventura acentuada pela sua gestão da crise dos mísseis (1962) e, como Castro, procurava lançar uma iniciativa independente, mesmo que sem cortar os laços políticos com Brejnev. O que recusavam então era o precipício do campismo, queriam construir uma força internacional independente e entendiam mesmo que sem ela não haveria luta revolucionária nas colónias e ex-colónias.
A organização nascida da conferência, a OSPAAL (Organização de Solidariedade entre os povos da Ásia, África e América Latina) manteve-se durante décadas, mas não se lhe pode atribuir mais influência do que a que o governo cubano exerceu diretamente, nomeadamente na futura guerra civil e invasão sul-africana de Angola. Outras vitórias, como a independência das colónias portuguesas, inauguraram novas etapas da sua história, mas isso é bem conhecido de quem lê este artigo. Desse modo, a Tricontinental pode ter sido dos mais claros e esforçados projetos internacionais para o combate anti-imperialista e a constituição de uma força independente do campismo de então, o pró-soviético. Não existe hoje nenhuma organização ou movimento internacional com dimensão e com esse objetivo.