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Artigo de Edgar Morin.


Surgiu muito longe, numa cidade desconhecida da China. Rapidamente,os espíritos compartimentados, entre os quais o do nosso ministro da Saúde de então, reconfortavam-nos: este vírus não nos chegará cá. E o vírus viaja de mão em mão, de respiração em respiração, faz-se ao caminho, de barco, de avião, vai de terra em terra, da tosse à saliva. Penetra às escondidas, aqui e lá, na Lombardia, no Oise, espalha-se na Europa. A contaminação ganha. O alerta para a epidemia é declarado.

O primeiro problema é evidentemente sanitário. Os hospitais, vítimas de economias insensatas, estão já a transbordar e o vírus vem agravar a crise hospitalar. O remédio é ainda desconhecido e a vacina inexistente. As declarações dos/as médicos/as são contraditórias, umas prevenindo para um grande perigo, outras assegurando uma previsível mortalidade baixa.

Os poderes públicos tomam medidas de proteção que apenas podem isolar parcialmente tanto doentes como saudáveis sob ameaça.

As medidas preventivas tomadas um pouco por todo o planeta afetam escolas, reuniões, refreiam trocas comerciais, imobilizam navios de transporte ou de passageiros, limitam viagens internacionais, bloqueiam os produtos de exportação da China, inclusive medicamentos, diminuem os consumos de carbono, desencadeiam uma crise entre países produtores de petróleo, provocam baixas nos mercados bolsistas e começam a provocar uma crise económica no seio de uma economia mundial já desregulada.

De facto, o vírus traz/impõe uma nova crise planetária na crise planetária da humanidade na era da globalização. Mas por todo o lado se continua a considerar e a tratar esta complexidade como problemas e setores separados. Cada Estado fecha a sua nação sobre ela mesma; a ONU não propõe qualquer aliança planetária de todos os Estados. Será preciso pagar, em vítimas adicionais, o sonambulismo generalizado e a pobreza dos espíritos que separam o que está unido? E, no entanto, o vírus revela-nos o que está oculto nos espíritos compartimentados formados nos nossos sistemas educativos, espíritos dominantes nas elites técnico-económico-financeiras: a complexidade do nosso mundo humano na interdependência e intersolidariedade no sanitário, no económico, no social, em tudo o que é humano e planetário. Esta interdependência manifesta-se por inúmeras intenções e retroações entre os diversos componentes das sociedades e indivíduos. Assim as perturbações económicas suscitadas pela epidemia favorecem a sua propagação.

O vírus diz-nos então que esta interdependência deveria suscitar uma solidariedade humana com a tomada de consciência da nossa comunidade de destino. O vírus revela-nos, também, aquilo que chamei “ecologia da ação”: a ação não obedece necessariamente à intenção e pode ser desviada, deslocada da sua intenção, e mesmo regressar e acabar por atingir, em efeito boomerang, aquele que a desencadeou. É o que prevê o professor Eric Caumes, do (Hospital) la Pitié-Salpêtrière: “No fim são as reações dos políticos a este vírus emergente que vão resultar numa crise económica global… com um benefício ecológico”. Último paradoxo da complexidade: o mal económico poderia gerar um bem ecológico. A que preço? De qualquer maneira, mesmo fazendo-nos muito mal, o coronavírus diz-nos verdades essenciais.