O racismo nosso de cada dia na textura das palavras simples

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Artigo de Maria Gil.

Desde pequenino… O início das texturas de palavras que estruturam frases que tantas vezes inocentamos pelo simples facto de serem usuais. E que desde pequeninos, como crianças, vamos crescendo sob a sina da banalização das texturas rudes das palavras que vão construindo o preconceito. Desde pequeninos que os consentidores de tal formação vão perpetuando a sua ânsia de colonialismos culturais que herdaram das gerações anteriores.

Hoje, acompanhada por um membro da geração que me sucederá, o meu filho, assisti a uma cena “comum” do nosso dia a dia… sim, como quem come o pão nosso de cada dia.

«(…) Sim, sim… era para declarar que estiveram aqui dois romenos e um preto para me tentar roubar! Sim… mas consegui sacar-lhes o cartão de cidadão e retirei o número de contribuinte, por isso vai ser fácil identificá-los é a mesma corja de sempre: pretos, romenos, ciganada…»

Conversa telefónica efetuada na via pública, à porta do supermercado do qual o declarante é diretor-adjunto. A indignação do que ouvimos não nos fez calar e perguntámos se tinha noção do que estava a dizer.

«A senhora está ouvir uma conversa privada de uma empresa. Isto é para entregar ao sistema de segurança interna da mesma, é normal este procedimento. Porque estas pessoas estão  todas integradas nestes tipo de grupos e assim é mais fácil de os controlar.»

É normal… foi a afirmação que mais foi repetida na tentativa frustrada de o senhor explicar que estava apenas a repetir o que lhe foi ensinado.

Quando, já auge da minha impaciência, lhe disse que chamaria eu a polícia por estar a ouvi-lo dizer que fazia parte do trabalho dele proferir insultos racistas e usurpar identificações alheias, sai-lhe a banal justificação:

«Desde pequenino… que sou amigo dos ciganos. A senhora não nota porque eu não estou moreno, mas eu até tenho ascendência africana e brasileira!»

Nesta textura de palavras corroídas pela vulgaridade do talento que se vão desenvolvendo, só me ocorre pedir que desde pequeninos lhes vão torcendo o “pepino”!

A demissão de valores de inclusão é da sua inteira responsabilidade.