O Sol do Futuro: é apenas um pouco tarde

Sol do Futuro, é o título português (em italiano il sol dell’avvenire) da mais depressiva obra de Nanni Moretti, segundo Luís Miguel Oliveira, em torno de tantas inquietações suscitadas pelos fracassos da esquerda italiana ao longo das últimas décadas. Poderia tudo ter sido diferente tivesse estado o Partido Comunista Italiano contra os tanques soviéticos na Hungria? Na ausência de esperança, e o cinema como catarse para nos resgatar do presente, muda-se a história e corrigem-se os erros do passado. O protagonista, em luta por realizar o seu filme, vai perdendo a relação amorosa. Não se pode ter tudo.

Serve o título para ilustrar um sentimento que é comum e não é novo. Os processos de refluxo são vividos de forma intensa, emocional e, claro, política, tendo inúmeros autores tomado-o, inclusivamente, como objeto artístico. A segunda parte é do título-poema de Manuel António Pina, que para Leonor Figueiredo “é uma expressão que nos coloca algures entre a consciência de algo nos estar a fugir por entre os dedos e a força de ainda não ser altura de desistir, entre a falta de esperança e a resistência de aguentar sempre um pouco mais.” Entre os labirintos da história e a busca do tal otimismo da vontade, é o tempo que nos cabe agora.

A derrota eleitoral dificulta o combate político e os nossos desaires particulares contam o que contam, exigem balanços exigentes mas a análise deve ser fria e prudente. A esquerda não passará à clandestinidade, nem à resistência armada. A história não está escrita, não é linear e não se repete. A direita recupera a hegemonia política com 60% dos votos (AD, Chega, IL, ADN), enquanto a esquerda e PS mingam para resultados próximos de 1987 (PSD/Cavaco, CDS/Adriano Moreira e PRD/Eanes). As instituições democráticas estão sob ataque de uma força reacionária insurgente mas permanecem, apesar das suas fragilidades. O catastrofismo prejudica e o perigo está também, paradoxalmente, nas análises esdrúxulas em torno do crescimento da extrema-direita.

Sabendo disso, o neofascismo aproveita para cavalgar o senso comum, procurando encurralar a esquerda em pânicos morais incompreensíveis pela maioria da população, desgastando e banalizando a força moral e a memória histórica anti-fascista, de que tanto precisaremos.

O perigo estaria também na reconfiguração precipitada de um projeto político que se criou para juntar forças à esquerda. Não há travessias no deserto a preparar porque no deserto nada floresce. Mas vamos por partes. Uma hipótese e dois perigos.

Hipótese: a política do Bloco é não menos mas mais necessária agora que antes

Desde o surgimento do Bloco em 1999, este é o terceiro ciclo de governação das direitas.

A AD de Durão, Portas e Ferreira Leite nas finanças, que inaugurou a austeridade das contas públicas como chantagem, teve na cimeira das lages um dos pontos mais negros da política externa portuguesa em democracia, servindo de idiota útil a uma guerra vingativa e imperialista, ao arrepio da comunidade internacional e permitindo camuflar o isolamento dos EUA. Duas semanas antes da cimeira das Lajes, as esquerdas juntavam-se na aula magna para tentar travar a guerra, ousando trazer para essa frente Mário Soares e Freitas do Amaral, figuras históricas quase sempre do lado oposto durante as décadas anteriores da chamada “normalização democrática” e de avanço neoliberal. Grandes mobilizações foram convocadas, incapazes de impedir a guerra, o governo das direitas perde apoio popular e um ano antes das eleições o primeiro-ministro foge para o seu cargo europeu.

No segundo capítulo da direita da austeridade, e com cobertura política e institucional da União Europeia e do sistema financeiro global, impõe-se um ambiente de inevitabilidade austeritária, de empobrecimento e crise e das reformas neoliberais no estado e políticas públicas num governo assessorado pela Troika (FMI, BCE, Comissão Europeia). A resposta à esquerda fez-se em planos diversos mas sendo capaz de unir setores diferentes para responder aos principais desafios que foi preciso identificar. Tendo a dívida pública como eixo para a chantagem, foram sendo investigados processos populares de resposta à dívida, em particular a do Equador em 2007 sob a presidência de Rafael Correa. Ainda que muito diferente, a auditoria cidadã à dívida pública foi desenvolvida em Portugal, numa campanha que além de soluções técnicas, procurou disputar a inevitabilidade da dívida pública, cujos processos de endividamento correspondem menos a má gestão pública e muito mais ao desenvolvimento desigual e às regras e políticas económicas e de trocas comerciais económicas injustas entre países (no caso português, a ausência de respostas nacionais e da arquitetura europeia perante o ataque especulativo às dívidas soberanas dos países periféricos, além do receituário pró-cíclico de contração da procura, salários e investimento público, que estrangulava o crescimento, num efeito de bola de neve, porque a dívida é calculada em função do produto, sob vigilância e chantagem das agências internacionais, o que agravava o peso anual dos juros no orçamento).

Perante a necessidade de alternativas, no plano da proposta política, à esquerda também se desenvolveram esforços para debater ideias programáticas nas áreas alvo de maior destruição privatizadora das direitas. O Congresso Democrático das Alternativas teve assim o seu papel em provocar encontro entre setores da esquerda que já se aproximavam genericamente na crítica à hegemonia neoliberal desde a queda do muro e mais ainda na aceleração furiosa imprimida pela troika e Passos Coelho, mas que mantinham reticências no diálogo em torno de que eixos fundar alternativas reais e propostas programáticas, e procurar fazê-lo em áreas fundamentais como segurança social, educação, saúde, etc.

Por último, a organização de protestos massivos e populares que tiveram as maiores mobilizações desde o 25 de Abril, com os vários capítulos do “Que Se Lixe a Troika”, que contou com pelo menos três momentos de luta social que encheram as maiores avenidas e praças por todo o país, e que permitiram expor a fratura entre governo e a maioria da população portuguesa face a uma inevitabilidade austeritária que deixou de ser tolerada.

O Bloco não foi um participante temeroso ou hesitante destes processos. Ao contrário, foi uma força impulsionadora destas iniciativas. Alargar, juntar forças, sujar as mãos, sem receio de contágio e contra a higienista pureza ideológica tão estimadas nas inúmeras organizações panfletárias e inconsequentes no campo da esquerda.

A fuga livresca

O período de refluxo para as organizações de esquerda é sempre bastante desafiante. A resistência de uma força política socialista e anticapitalista faz-se também pela capacidade de coesão e resistência de algumas ideias fortes, capazes de manter vivas culturas políticas, imaginários alternativos e utopias, esperança numa outra coisa. No entanto, também é muito comum, em sociedades de educação escolar (no sentido freireano do termo), identificar e culpabilizar a falta de formação ideológica (em geral, das bases militantes, é a elas que a falha costuma ser assinalada) como outra causa dos problemas da esquerda. A consequência habitual é a deserção para dentro das sedes e para longe da organização do conflito social, só ele capaz de devolver esperança. A formação ideológica será sempre mais útil quando for uma necessidade convocada pela luta de classes e pelas dúvidas estratégicas que cada luta e cada escolha se nos coloca, entendida de forma orgânica e de acordo com as necessidades do ativismo militante e não tanto como ponto de partida. Menos enquanto fuga.

…e a fuga para a trincheira

A maioria dos 20% de portugueses que apoiaram em urna a extrema direita não apoiam a agressão de atores à porta de teatros, nem de voluntárias que distribuem comida na rua. A organização de movimentos amplos e unitários em defesa da democracia e das liberdades já se iniciou ainda nem o programa do novo governo estava aprovado. A multiplicação de protestos em solidariedade com as vítimas de uma massacre genocida à vista de todos ou das marchas LGBT configuram oportunidades centrais para um novo ciclo político de protestos contra as novas ameaças e perigos.

Mas é preciso também que se saia dos espaços de conforto para os espaços de confronto. E sobre isso, talvez valha a pena notar que sim, a democracia liberal portuguesa deixa muita gente para trás, e que sim, há muita pobreza e periferização, e que sim a organização social e política é absolutamente essencial para travar o avanço da exploração e violência alienante nas camadas mais vulnerabilizadas da população. Mas ao mesmo tempo, nenhuma alternativa radical e progressista singrou em lado nenhum sem a participação ativa e hegemónica dos segmentos juvenis, mais qualificadas e urbanos, sendo muito preocupante a penetração em escolas e faculdades das ideias económicas liberais refrescadas, por um lado, e das ideias conservadoras e violentas, por outro, que conquistaram o estatuto de contra poder.O desafio das periferias, das novas realidades de exploração laboral e a multiplicação de experiências e de novas culturas políticas de combate nos jovens, na cultura, nos movimentos urbanos e da cidade são desafios a que à esquerda só se conseguirá responder com organização, com trabalho político em rede com gente muito diferente entre si, para além da propaganda ou comunicação.