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Artigo de Marisa Matias.


“O euro foi o melhor favor que a Europa fez à Alemanha”, reconhece o primeiro-ministro com alguma nostalgia. Pois foi. Ao longo dos últimos vinte anos, seja por condicionamento institucional, como através das regras do euro e das restrições orçamentais, seja através do ativismo das imposições neoliberais, como por via dos programas de austeridade, agravou-se a divergência entre as diversas economias europeias. Assim, a sustentação democrática de um projeto de convergência foi contrariada pela realidade do poder dos governos mais poderosos da União e pela sua forma de funcionamento.
Mas nada permitiria esperar a confusão e a disputa que se instalou com o Brexit. Lembro que o Brexit resulta de um referendo autorizado e facilitado, se não mesmo estimulado, pelas autoridades europeias para ajudar David Cameron a fazer um ajuste de contas dentro do Partido Conservador britânico. O Conselho Europeu, com o apoio de todos os governos, incluindo o português, aceitou oferecer a Cameron condições ilegais, incluindo contra os direitos de circulação e de trabalho de cidadãos europeus no Reino Unido, para que o primeiro ministro britânico pudesse esgrimir essa concessão perante os conservadores mais isolacionistas. O resultado foi uma derrota para Cameron, o início da desagregação do seu partido e um pandemónio de negociação que se transformou numa vingança e num aviso contra qualquer país que queira sair da União Europeia.

Assim, a UE foi sendo fragilizada e os governos que têm maior peso na União chegam a estas eleições sem soluções, procurando manter os poderes tradicionais. Para Portugal, esta crise arrastada é uma ameaça, tanto nas regras como nos protagonistas. Mesmo que alguns dos seus coautores aceitem agora que o Tratado Orçamental é uma armadilha, o facto é que todos os governos continuam a aceitar a sua autoridade. Pela mesma razão, tanto os socialistas como a direita tradicional apresentam candidatos à presidência da Comissão Europeia que são continuistas: Timmermans vem do partido de Djisselbloem e Weber propôs a aplicação de sanções contra Portugal. Ambos são o retrato da agressividade e da falta de alternativas entre o centro e a direita, que têm arrastado a UE para crises políticas sucessivas e para soluções de austeridade e empobrecimento que estimulam revoltas e descontentamento, ou mesmo a emergência da extrema-direita em diversos países.

Por isso, a candidatura do Bloco de Esquerda não desiste da luta europeia. Procuramos parceiros e formas de cooperação nas esquerdas políticas e sociais que mantêm uma perspetiva internacionalista, que recusam os Tratados da austeridade, que enfrentam a política neoliberal e as rendas financeiras, que recuperam a democracia como soberania popular. E apresentamos um programa e uma candidatura que nasce e se enraíza nas lutas sociais, no feminismo e no antirracismo, na democracia sem muros. Na Europa como em Portugal, afirmamos uma esquerda anticapitalista, de combate, aberta e unitária, que é a voz de todas as mulheres e homens que não se resignam a uma obediência que tem multiplicado a crise social e que faz nascer os Trump, os Bolsonaro, os Salvini, os Orban e outros títeres.