Odeio o dia de Ano-novo

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Por Alexandre Portela, excerto de Antonio Gramsci


O dia de Ano-novo é um dia como outro qualquer e sem nenhuma propriedade especial para concretizar desejos e realizar mudanças, ao contrário do imaginário popular que lhe é atribuído. Na imprensa mainstream é fácil encontrar reflexos desta ilusão em nós sem, no entanto, tocar na verdadeira problematicidade. Um artigo na U.S. News aponta que 80% das inscrições em ginásios feitas em Janeiro são canceladas até Fevereiro, e prossegue explicando o mindset correto para cumprir as resoluções. O Washington Post fala inclusivamente na “ciência de manter as promessas de Ano-novo”, colocando novamente a responsabilidade do lado de quem não sabe cumprir promessas, evitando abordar a situação absurda em que são feitas. Já Antonio Gramsci via a questão de outro modo.

Porque é que os mais oprimidos do sistema capitalista prosseguem as suas vidas em miséria, numa apatia não revolucionária? O conceito de Hegemonia Cultural que Gramsci desenvolveu procura explicar isso mesmo. Todo o ser humano vive imerso numa cultura- um conjunto de ideias, regras, costumes e valores que em última análise acomodam a nossa existência no mundo e nos ensinam qual o nosso lugar nele. É exatamente através da manipulação destes parâmetros culturais que a dominação de um povo é mais eficiente. As classes dominantes ditam as normas sociais que são percecionadas como permanentes (como as leis da natureza) quando na verdade são contingentes e por isso possíveis de serem alteradas.

Esta hegemonia perpetua-se com o incentivo às pessoas de manterem tudo como está, de preservarem a ordem acriticamente. Sempre que se engrena no status quo, protege-se a hegemonia, repetem-se os erros, voltam as mesmas dores e no fim diz-se que “a vida é assim mesmo”. Elimina-se qualquer ambição de mudança, reduzindo o Homem a um ser passivo que se conforma e já nem questiona. Exceto num dia por ano em que a narrativa em que nos encontramos nos convida a desejar mudanças (individuais e nunca na raiz dos problemas).

Neste texto, publicado no dia 1 de Janeiro de 1916 no jornal Italiano Avanti!, Gramsci critica o conformismo da celebração do dia de ano novo, num país que por sinal tinha entrado recentemente na 1º Guerra Mundial. O que é que ignorámos nós na noite passada?

Todas as manhãs, quando acordo de novo sob o manto do céu, sinto que é ano-novo para mim.

Por isso odeio estas passagens de ano calendarizadas, que fazem da vida e do espírito humano uma empresa comercial com o seu bom relatório final, e o seu balanço e o orçamento para a nova gestão. Isso faz-nos perder o sentido de continuidade da vida e do espírito. Acabamos a acreditar seriamente que entre um ano e o outro a continuidade cessa e que começa uma nova história, e tomamos decisões e lamentamos os erros cometidos, etc. etc. É o que está mal com as datas em geral.

Dizem que a cronologia é a espinha dorsal da história; pode-se admitir isso. Mas também deve ser admitido que existem quatro ou cinco datas fundamentais, que qualquer boa pessoa conserva no cérebro, que praticaram truques sujos na história. Elas são também o ano-novo da história romana, ou da Idade Média, ou da era moderna.

Tornaram-se tão intrusivas e fossilizantes que por vezes damos por nós a pensar que a vida em Itália começou em 752, e que em 1490 ou 1492 são como montanhas que a humanidade ultrapassou, encontrando-se subitamente num mundo novo, entrando numa nova vida. Assim, a data torna-se um estorvo, um parapeito que nos impede de ver que a história se continua a desenrolar com a mesma linha fundamental inalterada, sem paragens abruptas, como quando o cinematógrafo rasga o filme e há um intervalo de luz ofuscante.

Por isso odeio o ano-novo. Quero que todas as manhãs sejam um ano-novo para mim. Todos os dias quero lidar comigo mesmo e renovar-me a cada dia. Sem dias marcados para o descaso. Eu é que escolho as minhas pausas, quando me sinto embriagado com a intensidade da vida e quiser dar um mergulho na animalidade para dela tirar novo vigor.

Regulamentação espiritual não. Gostaria que cada hora da minha vida fosse nova, e ainda assim conectadas com as que já passaram. Nenhum dia de celebração com os seus ritmos coletivos obrigatórios, para partilhar com todos os desconhecidos com os quais não me importo. Só porque os avós dos nossos avós, etc., o celebravam, nós também devemos sentir a vontade de o celebrar. É nauseante.

Espero pelo socialismo também por esta razão. Porque vai deitar fora todas estas datas que já não têm ressonância no nosso espírito e, se criar outras, serão pelo menos as nossas, e não as que temos de aceitar sem reservas dos nossos tontos antepassados.