Odemira: o Alentejo do passado e caminhos de resistência

Artigo de Mafalda Escada


 

Odemira é um Alentejo diferente do imaginário tradicional. É o Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina e as praias. A aposta na turismo no litoral tornou Odemira dependente da época balnear. Os serviços públicos escasseiam. Note-se que Odemira equivale a 17 vezes o concelho de Lisboa. O interior está ao abandono: Sabóia tem das mais elevadas taxas de suicídio do mundo. A condenação à não-existência durante grande parte do ano tornou também Odemira no local perfeito, porque escondido, para o capitalismo predatório.

A aposta na agricultura intensiva não é de agora e as consequências eram conhecidas. A sobreutilização dos recursos hídricos da região reflete-se no mirrar da barragem sugada pelo novo latifúndio. As estufas ameaçam a biodiversidade. Foi no domínio do ambiente que a denúncia deste modelo agrícola começou a ser feita em Odemira, mas sem grande resultado. A proliferação das estufas continuou e, com ela, o “recrutamento” de mão-de-obra estrangeira. Entre 2008 e 2013, a população estrangeira com estatuto legal (não conta com os trabalhadores em situação irregular) diminuiu em Portugal. Em Odemira subiu 5%. O parque habitacional não chegava para albergar trabalhadores, mesmo que distribuídos à dezena por quarto. A instalação de contentores com o aval do governo disse-nos que esta gente que nos põe comida na mesa não merece uma casa.

 

Exploração

A pandemia deixou a nú as condições insalubres em que os trabalhadores são obrigados a viver. A Solidariedade Imigrante (SOLIM) e a comunicação social tornaram público que muitos dos trabalhadores pagaram milhares de euros para cá chegar, não recebem salário diretamente e são-lhes descontadas rendas injustificáveis. Ganham os “angariadores”, as empresas de trabalho temporário, os senhorios e as grandes cadeias de supermercados.

A solução dependerá do enquadramento político do problema e da mobilização social. Uma visão somente setorial pode ser um obstáculo, tendo em conta as inúmeras possibilidades de ramificação. Na Andaluzia, onde a ossificação dos sindicatos impede a representação dos trabalhadores agrícolas, surgem alternativas. As Jornaleras de Huelva En Luchaintervêm junto dos trabalhadores, denunciando os abusos e garantindo apoio jurídico através da Cooperativa de Abogadas Andaluces de Sevilla. Para mitigar o difícil acesso à saúde, trabalham com a Yo Sí, Sanidad Universal pondo profissionais de saúde em contacto com os trabalhadores agrícolas. Puseram em marcha redes de solidariedade; trabalham na criação de uma sindical local e plural e em campanhas de sensibilização. Em Portugal, a SOLIM tem-se batido pelos trabalhadores agrícolas, na sua grande maioria pessoas racializadas. Os Juntos pelo Sudoeste têm denunciado o dano ambiental das estufas.

A esquerda no Alentejo

Odemira são as margens sem voz e o combate pelas suas vidas é também o nosso. A pandemia tornou o momento atual o tempo para este combate, mas deve relembrar-nos que não travamos esta batalha sozinhos. Importa organização política no Alentejo, onde a extrema-direita galopa. Importa que o Bloco cumpra o seu papel de partido de diálogo permanente com o movimento social, importa que o combate jurídico das associações locais se transforme em força política. Odemira pode ser em todo o lado: falamos de modelo de produção, de habitação, de antirracismo, de ambiente. Odemira é também na Andaluzia e na produção de abacate no Chile. Contudo, não diluamos o problema na estrutura em que se insere. O nosso projeto político de sociedade e a nossa força ativista e militante não se podem esgotar no discurso solidário e interseccional, é preciso ação. Odemira é, primeiro que tudo, em Odemira e urge provar que existe uma alternativa ao modelo económico e social do litoral alentejano. O Bloco é a única força política capaz de agregar as lutas que têm palco em Odemira, tendo em conta o desdobramento dos seus ativistas pelos vários movimentos. O que sair de Odemira poderá apontar caminho para a transformação de todas as Odemiras.