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Artigo de Tatiana Moutinho.


O conhecimento científico não se traduz numa verdade absoluta e imutável. Mas uma coisa é certa: décadas, séculos e milénios de produção de conhecimento têm-nos conduzido a cada momento, e inevitavelmente, ao mais próximo que alguma vez estivemos da verdade.

Nos últimos anos temos vindo a assistir a sucessivas e incrementais tentativas para minorar e descredibilizar o conhecimento que a investigação e o saber, em todas as áreas do conhecimento, vão acumulando – notavelmente, pela parte de uma extrema-direita que precisa da ignorância e da desinformação como de pão para a boca.

No entanto, e não será seguramente a primeira vez, à conta da pandemia do chamado “novo coronavírus” (SARS-Cov2), assistimos recentemente a um fenómeno cujas consequências poderão vir a ser absolutamente trágicas, orquestradas pelo sinistro Dominic Cummings e anunciadas pela marioneta falante que dá pela graça de Boris Johnson: a apropriação de um conceito cientificamente validado na tentativa de pôr em prática um plano de contornos eugénicos. Malthus deverá, pelos dias que (de)correram, rejubilar na tumba.

Tanto quanto a ciência é capaz de dizer – e a ciência já é capaz de dizer muito nesta questão específica – a chamada “imunidade de grupo” é um facto: ter um amplo grupo de pessoas imunizadas contra agentes patogénicos ajuda a proteger aquelas que, por alguma razão, não estão imunologicamente protegidas (por exemplo, as pessoas imuno-deprimidas).

É por isso que a vacinação é tão importante e é por isso que anti-vaxxers e as suas campanhas são tão irresponsáveis e, em última análise, criminosas: as pessoas não vacinadas podem permanecer imunologicamente protegidas enquanto a maioria do grupo estiver imune; quando um determinado limiar é ultrapassado – ou seja, no momento em que a proporção de pessoas não vacinadas se torna relevante – a imunidade de grupoo fica comprometida e as consequênciassão dramáticas dramáticas (veja-se o que aconteceu com recentes surtos de varíola e sarampo, por exemplo).

O grande e intolerável erro cometido por Boris Johnson e sua trupe (e, muito provavelmente, não por ignorância) assenta na forma como se atinge a imunidade de grupo. Este tipo de imunidade pode ser alcançado de duas formas: ou deixando um agente patogénico à solta, contaminando tudo e todos com as respectivas consequências: a doença de muitos e com a respectiva mortalidade associada, que dependerá da gravidade da doença produzida. Aqueles que sobreviverem e recuperarem ficarão, muito possivelmente, imunes, pelo menos durante algum tempo. Assim, num determinado momento, uma grande parte das pessoas acabará imunologicamente protegida e atingir-se-à a chamada “imunidade de grupo”. Ou, podemos atingir a imunidade de grupo através da imunização controlada, ou seja pela vacinação (em resumo, a exposição controlada do grupo ao agente causador de doença, seja pela exposição a versões atenuadas ou pela exposição a partes do patogéneo capazes de desencadear uma resposta imunológica). No contexto da SARS-Cov-2 (o vírus) e Covid-19 (sua doença relacionada), o que Boris e amigos estiveram a propor era o sacrifício da população (com consequências imprevisíveis, mas já reconhecidas como extremamente severas para muitos) de modo a que, nalgum momento se tivesse um grupo imunologicamente protegido contra a doença. Este é o mais próximo da eugenia que alguma vez estivemos – ousaria dizer.

Se, nesta altura, já podemos caracterizar com bastante segurança o chamado “grupo de risco” – pessoas mais idosas e/ou com morbilidades associadas -, os próximos tempos virão explicar que, no contexto de contenção e mitigação do surto, as políticas do #FiqueEmCasa são para quem pode (não para quem quer). Ao que acresce o facto de, não estarem a morrer apenas as pessoas que se inserem no tal grupo de risco. Fica a dúvida: o que é que vos fez retroceder na abordagem criminosa da pandemia: deixarem de ter a certeza que nem vocês estão protegidos ou acharem que já têm a margem suficiente para que as teses de Malthus vos (nos) possam desgraçar?