Editorial: Outro tempo, as mesmas vozes

Trata-se de um texto magnífico, de testemunho, de proximidade e de crítica. Um Sétimo Homem, livro que conjuga o texto de John Berger e a fotografia de Jean Mohr, transporta cenas de vida e de quotidianos de trabalhadores e trabalhadoras migrantes. Está em causa um processo de reabilitação de discurso e de dignificação das experiências, quando os sujeitos concretos surgem humanizados e reais, para além da frieza numérica dos relatórios e poses institucionais.

 

É um lugar-comum sublinhar as realidades mais sofridas decorrentes do labor do call center, das plataformas digitais, das estufas ou das várias dimensões de precariedade que caracterizam o sistema económico, mas são urgentes e variadas as formas de as fazer falar e significar. Mesmo que em contexto temporal distinto do nosso, o livro clássico de Berger e Mohr é exímio na inversão de uma lógica de discurso em que os/as esquecidos/as do capitalismo surgem como índices acusatórios de um sistema que os toma por objetos: que nunca se descrevem, porque são descritos; que nunca falam, porque são tema de conversa. Antes como agora, a franja dos esquecidos e exploradas não logram falar de si mesmas.

 

Neste texto, Berger recorre ao termo “sociedades metropolitanas”, como expressão indicativa de uma divisão do trabalho que, anteriormente estabelecida com o predomínio da “metrópole” no interior de um Estado, excede agora os limites fronteiriços e reconfigura-se na lógica mais atual das economias de mercado. As “sociedades metropolitanas” são hoje centros de poder económico e político que congregam todos os poderes, entre os quais o de tomar a palavra pelos outros, pelas outras, por seja quem for. Falar de “imperialismo”, hoje, é falar ainda desta centralização do poder da palavra, mas é também recorrer a um conceito que se reconfigurou totalmente. É repensar um termo à luz de circuitos de produção, de lógicas de subalternização do trabalho e de processos de parasitagem que vão muito além da aceção mais convencional do conceito de “império”.

 

Este número da Anticapitalista reveste-se de um novo fôlego, que incluirá a cada mês um dossiê temático. “Imperialismo” foi precisamente o tema que se impôs, quando, de tantas geografias e em tantos registos e intensidades, novas interpelações se propõem ao pensamento e à ação da esquerda. Reconhecer a necessidade de pensar as novas roupagens do imperialismo, testar a sua validade na dinâmica do capitalismo atual, é reencontrar, com possíveis novas inflexões, o que já Berger reconhecia na sua obra clássica: a perpetuação da injustiça proporciona-se pela invisibilidade dos/as injustiçados/as.

 

Que esta renovada Anticapitalista contribua para o rasgar dos silêncios, dando espaço e projeção à voz das combativas, à tenacidade militante, à responsabilidade de uma esquerda que não desiste do tempo e que não desiste de si.