Pacto germano-soviético, uma astúcia que custou cara

Ao assinar um pacto com a Alemanha nazi em agosto de 1939, o estalinismo justificou-o junto dos partidos irmãos com o alegado propósito de introduzir uma cunha entre os imperialismos democráticos e o Eixo nazi-fascista. Desse modo, anularia o risco de uma aliança de todos contra URSS, tal como ela parecera desenhar-se no ano anterior. Ao explorar as divisões entre as democracias e os fascismos, ganharia tempo e poderia preparar-se para uma guerra inevitável. 

A primeira aposta de Estaline tinha sido a de um pacto com as potências ocidentais, para conter o bloco nazi-fascista encabeçado pela Alemanha hitleriana. Cortejava-as, aliás, com resultados duvidosos: em Munique, Chamberlain e Daladier tinham dado rédea solta à Alemanha para que se lançasse contra a URSS. 

Só a violação dos acordos de Munique, com a invasão da Checoslováquia restante, convencera os imperialistas democráticos de que era inútil assinarem acordos com Hitler. Contrariados, tinham voltado às conversações com a URSS. A notícia do pacto germano-soviético ia portanto cair como uma bomba nas chancelarias ocidentais. Mas a URSS não podia ser acusada de trair França e Reino Unido, fazendo exactamente o mesmo que ambas tinham tentado fazer em Munique. O que a URSS tinha traído, já de antes, era a revolução socialista internacional. Tinha transformado a Internacional Comunista (Komintern) num braço auxiliar da política externa soviética. Perante o ascenso da ameaça fascista, deixara de apostar em revoluções como a que irrompera em Espanha, e passara a colocar todas as suas fichas na aliança com algum dos blocos imperialistas. Primeiro depositou esperanças nas democracias imperalistas mas, perante a duplicidade que estas evidenciavam, virou espectacularmente de bordo e assinou o pacto com a Alemanha nazi.

Um pacto de não-agressão com a Alemanha nazi já seria bastante execrável, por deixar as costas livres à Wehrmacht para o caso de as potências ocidentais lhe declararem guerra, depois de ter invadido a Polónia. Mas o Pacto Hitler-Estaline ia muito além de um pacto de não-agressão: ele era também um contrato de partilha territorial, que, em troca da liberdade de movimentos deixada à Alemanha a ocidente, dava luz verde à URSS para ocupar os países bálticos e a Polónia oriental 

Esta parte constava de um protocolo adicional que se manteve secreto durante várias décadas. No terreno, o segredo era de Polichinelo: em 17 de setembro, duas semanas depois de começar a invasão alemã, a URSS invadiu a Polónia e apoderou-se da sua metade oriental com requintes de brutalidade (em breve, a NKVD fuzilava cerca de 15.000 prisioneiros polacos em Katyn). Em 30 de Novembro, a URSS invadiu a Finlândia, mas aí deparou-se com uma resistência inesperada e teve de combater até março para obter ganhos territoriais relativamente modestos. Enfim, de 14 a 17 de junho, quando a França capitulava, a URSS iniciou a ocupação da Estónia, da Letónia e da Lituânia. A bonomia com que a diplomacia alemã reagiu a todas estas ocupações não deixaria dúvidas em qualquer observador atento sobre a existência do protocolo secreto. 

O pacto que surpreendera os diplomatas ocidentais também chocou milhares de militantes comunistas, que já se iam habituando a renunciar a uma perspectiva revolucionária e internacionalista, mas que continuavam, no tempo das frentes populares, a acreditar que a aliança da URSS seria com as democracias burguesas, para barrar o caminho ao fascismo. No entanto, numa Internacional domesticada, não houve cisões de monta nos partidos comunistas. 

Um grande partido, como era o PCF, ficou tão paralisado pelo pacto germano-soviético que, no início da ocupação alemã, iria ficar fora da resistência. À direita era ultrapassado pelos gaullistas e à esquerda por grupos incontrolados, como o de Missak Manouchian, comunista arménio e veterano da Guerra de Espanha, que assumiu a responsabilidade de pegar em armas contra o ocupante sem esperar pelo partido. O PCF só despertaria para a resistência, e nessa altura em força, depois da invasão da URSS pela Alemanha, em junho de 1941.

O partido alemão (KPD), desmoralizado pelo seu papel destrutivo na fase de ascenso do nazismo, e desmantelado seis anos antes na vaga repressiva que se seguira ao incêndio do Reichstag, estava incapaz de reagir. Muitos dos seus quadros dirigentes tinham-se refugiado na URSS e boa parte deles fora liquidada nas purgas estalinistas dos anos 30. Com o pacto germano-soviético, os sobreviventes voltaram a achar-se numa situação difícil: a NKVD entregou dezenas deles à Gestapo, como foi o caso famoso de Margarte Buber-Neumann.

Outro grande partido, o polaco, tinha obviamente o potencial para questionar violentamente o pacto que sacrificava o seu país – mas para isso precisava de ainda existir. Ora, como se já conhecesse todo o guião do que estava para vir, Estaline tinha ordenado a sua dissolução no ano anterior, já depois de ter exterminado milhares de comunistas polacos nas purgas. 

Partidos mais pequenos, como o português, tinham sido vítimas marginais da paranóia estalinista dos anos 1930, ficando fora da Komintern. Ainda assim, procuravam fazer-se reabilitar por via de uma obediência absoluta às directivas de Moscovo. A direcção, quase toda internada no Tarrafal, começou por obedecer incondicionalmente à estratégia das frentes populares. Quando veio a viragem do pacto, o partido adaptou-se rapidamente, mediante a propaganda feita em Lisboa pelo núcleo que começava a tomar forma em torno de Álvaro Cunhal.

Durante quase dois anos, entre setembro de 1939 e junho de 1941, o pacto germano-soviético deu aso a uma intensa colaboração da URSS com o esforço de guerra da Alemanha nazi. Embora se mantivesse oficialmente neutral, a URSS fornecia à Alemanha minérios importantes para a indústria de guerra, petróleo, cereais e outras mercadorias. O volfrâmio que a Alemanha importava da China, e que era decisivo para o fabrico de peças de artilharia, transitava pela URSS através do transsiberiano.

A convicção de Estaline sobre a impossibilidade de uma guerra alemã em duas frentes e a sua cegueira sobre os preparativos alemães para atacar a URSS fizeram-no desprezar as advertências dos seus serviços de espionagem. Leopold Trepper no ocidente e Richard Sorge no Japão forneceram-lhe informações coincidentes e muito precisas sobre os planos alemães, sobre a data do ataque e sobre a dimensão das forças envolvidas. Essas informações apenas confirmavam o significado de gigantescas movimentações de tropas observáveis à vista desarmada junto à fronteira, e que não podiam constituir simples exercícios. 

Totalmente surpreendido pelo ataque, Estaline permaneceu paralisado durante as primeiras horas e emitiu mesmo ordens para que o Exército Vermelho se abstivesse de responder a “provocações” até haver a certeza de que a Alemanha estava efectivamente violando o pacto. Essas ordens tiveram um efeito trágico: em poucos dias, grande parte da força aérea soviética (mais de 2.000 aviões) foi abatida no solo; em poucos meses, mais de 4 milhões de soldados foram mortos, feridos ou capturados. A Wehrmacht avançou de forma fulminante e em dezembro esteve ainda na iminência de tomar Moscovo.

A viragem da guerra, que conduziria a Alemanha nazi a uma estrondosa derrota, não cabe já num artigo sobre o pacto germano-soviético. Mas vale a pena referir que a ruptura desse pacto e a guerra entre a URSS e a Alemanha afectaram profundamente o sentido dos movimentos pela autodeterminação da Ucrânia e dos países bálticos. Esses movimentos, com especial realce para a resistência finlandesa na guerra de 1939-40, tinham sido expressões genuínas da luta contra uma burocracia grã-russa, que Lenine vituperava como remanescente do império czarista.

Quando o pano de fundo das lutas nacionais deixou de ser o pacto germano-soviético e passou a ser a guerra de extermínio do nazismo contra a URSS, as correntes fascistas adquiriram um papel hegemónico nessas lutas nacionais e elas perderam esse carácter para se tornarem instrumentos do Terceiro Reich.

Nas repúblicas bálticas, os nacionalistas tornaram-se o grande alfobre de recrutamento das Waffen-SS, de composição estónia, letona ou lituana, que, mais do que as tropas alemãs, tomaram a seu cargo massacrar judeus e russos. Na Ucrânia, os nacionalistas liderados por Stepan Bandera combateram o Exército Vermelho em estreita aliança com a Wehrmacht, massacrando populações de judeus e polacos, até perceberem finalmente que Hitler não tinha a menor intenção de promover a independência ucraniana. Nessa altura entraram em rota de colisão com os nazis, mas nem por isso se aliaram à URSS. Quando hoje o Governo de Zelensky atribui uma alta condecoração a unidades banderistas, não surpreende que o facto ocasione uma crise nas relações com a Polónia.

Enfim, a Finlândia aliou-se à Alemanha nazi, esperando desse modo recuperar os territórios perdidos na guerra de 1939-40, mas, quando a sorte das armas começou a virar, procurou um acordo com a URSS que implicava a retirada de tropas alemãs até aí admitidas no país. A Alemanha opôs-se à retirada das tropas e a Finlândia teve de combatê-las. Tal como Stepan Bandera, o governo finlandês teve de constatar que a última coisa pretendida pela Alemanha nazi era garantir-lhe a soberania. No entanto, ao contrário de Bandera e dos colaboracionistas ucranianos, saltou fora do barco nazi a tempo e horas de poder ainda conservar um estatuto de neutralidade no pós-guerra.

A vitória esmagadora da URSS sobre a Alemanha permitiu-lhe impor-se nos pequenos países da Europa central e oriental como um mal menor relativamente à política nazi, que previa o extermínio de povos eslavos considerados “inferiores”. Mas as feridas deixadas pelo pacto germano-soviético nunca cicatrizaram inteiramente. O pacto que Estaline quis apresentar como o culminar da sua astúcia em matéria de política externa era, na verdade, uma bomba relógio, programada para explodir várias décadas depois.