Palestina: breve comentário sobre uma viagem, snipers de kippah e o regabofe triunfalista

Artigo de Ana Bárbara Pedrosa.

Serão tempos confusos, vertiginosos. Há muita informação em simultâneo, acompanhar o mundo é uma vertigem. A Internet acelera o processo, a cada dia há novidades, jornais que afirmam em nome de outros jornais, citações de citações. A distância que nos separa – mais cultural e histórica do que física – enubla o imaginário, cria relações de alteridade. Mas o Médio Oriente está à distância de dois voos, sete horas no ar. Foi formular a hipótese e estar lá um mês depois.
Chego a Jerusalém e é tudo em catadupa: espaço amplo, moderno, judeus ortodoxos, kippahs, gente nova armada, civis e militares. As armas contrastam a aparente acalmia, evidenciam que está para rebentar a bomba atómica. Nas ruas, há mais hebraico do que árabe.

Entrando na Cidade Velha, ainda deserta à madrugada, tudo parece caricatura: bairros muçulmano, judeu, cristão e arménio, bandeiras azuis e brancas, lojas de artigos religiosos, prêt-à-porter para turistas. E pedra branca, gatos vadios, um vazio que é estímulo.

Mais tarde, no Muro das Lamentações, judeus emocionam-se. Rezam enquanto balançam, agarram os seus livros sagrados, choram, deixam mensagens escritas em papéis. É o segundo lugar mais sagrado para os judeus, suplantado apenas pelo Santo dos Santos, que é o mais importante para cristãos e fica logo atrás, no Monte do Templo, o terceiro mais sagrado para o Islão, depois de Meca e Medina, e de onde os muçulmanos acreditam que Maomé ascendeu num cavalo alado. Como tudo isto se condensa, e ainda se lhes junta a via-crúcis, o Monte das Oliveiras, a Basílica do Santo Sepulcro, o Monte Sião, não espanta que Jerusalém seja o lugar mais sagrado do mundo nem que os fanáticos abundem. Serão pois compreensíveis os 3,6 milhões de turistas que ali puseram os pés em 2017, valor recorde, com uma injeção de dinheiro que Israel capitaliza. A maior parte dos turistas é cristã e vai ali pelos territórios palestinianos, roubados e ocupados, e são precisamente essas verbas que são usadas no embate. É por isso que não existe uma estadia apolítica ali. Desde que se aterra no aeroporto Ben Gurion, há uma escolha a fazer: encher os bolsos a Israel ou boicotá-lo? Fazer tudo da forma mais fácil, como vem indicadinho no aeroporto, pelos guias israelitas, tudo controlado pelo Estado de Israel, ou procurar a alternativa que não alimenta a carnificina? Ali a indiferença não pode ser apática, traz consequências em forma de catástrofes. Quem ali vai gastar os seus shekels em transportes e alojamento israelitas deve saber que está a financiar a maior potência colonizadora do mundo, que está a contribuir para que os muros que encarceram gente como gado continuem erguidos, que podem escolher comer e dormir com palestinianos, aqueles que o Povo Eleito tenta vergar, que humilha com a sua potência militar. A indiferença traz um lado implícito.

Falamos de um país onde os jovens andam na rua de metralhadora na mão, que a alçam como se fosse inofensiva, onde as armas são o pão nosso de cada dia e é impossível ignorar que o Estado faz do povo exército; um país onde a bandeira de Israel é erguida ao lado da dos EUA e da da UE e onde se fazem outdoors a dizer “God bless Trump from JerUSAlem DC to Washington DC”. É o poder norte-americano ao lado do de Israel, económico e cultural, o regabofe triunfalista, a supremacia dos exércitos, a imposição de uma cultura, a arrogância, a cegueira, a violência sem fim do Povo Eleito. O saque, a pilhagem, os direitos humanos atropelados, tudo reside na bandeira de Israel, tudo se intensifica quando esta é posta ao lado da megalomania de Donald Trump. Está a tentar fazer-se da história tábua rasa, apagá-la, apagar o presente, chutar para um canto quem incomoda e impede a materialização da força mítica dos fanáticos.

Dos que vi (Jerusalém, Belém, Ramallah, Hebron, Jericó), o cenário mais desolador será Hebron. Passagens bíblicas dizem ser este o território dos judeus, e essas passagens são transcritas nos edifícios sem ninguém. É que Israel resolveu dividir a terra ao meio, clamando aquela parte, e os palestinianos foram expulsos, por todo o lado há bandeiras de Israel. Para quem? Por ali, só eu e gente armada. De um lado, há ruas com vida, depois um checkpoint separa a cidade do cenário pré-apocalíptico. O que se vê é desolador, tudo evoca a guerra, desde a cidade fantasma aos vários militares armados, uns em telhados, à snipers, de kippah. Acho horrível, aponto a um soldado a máquina fotográfica, sei que não me acontecerá nada, e ele ainda tem o topete de posar para a fotografia, no seu regabofe triunfalista. Nessa como noutras vezes, quis o registo do horror, ninguém pareceu perceber que fotografava para ter provas de que aquela monstruosidade existe mesmo. Continuo a andar em frente, metem-se ruas vazias, um silêncio que arrepia: isto está mesmo a acontecer e eu estou mesmo a andar aqui? O choque é grande, parece um filme.

Junto ao checkpoint, crianças brincam e uma senhora de hijab espreita do telhado. Devem ser palestinianas, por algum motivo não terão fugido para o outro lado. No chão há ratos mortos, a bicicleta das crianças passa-lhes por cima. Não é ficção, não é a realidade tratada por um artista para a vermos nos olhos, cortada a bisturi para doer mais, é mesmo a secura dos dias: ruas abandonadas, três crianças a brincar, ratos mortos, snipers de kippah nos telhados, bandeiras de Israel. A um olho sem treino, a realidade é hiper-realidade e para mais a vida mistura-se com a desolação do abandono. Sobram ruínas e a história que Israel quer contar.

Para onde vamos nós com isto tudo?

Israel, Palestina, fim de 2017, início de 2018. Um acéfalo ao leme dos EUA resolveu reconhecer Jerusalém como a capital oficial de Israel, mudando para lá a Embaixada, 128 países da ONU votaram contra a decisão, Netanyahu finge que defende a solução dos dois Estados para mascarar a ofensiva. Entretanto, o presente urge, a história avança, o inconcebível escancara-se, o colonialismo veste-se de cordeiro, e eis que alguém manda às urtigas a tendência internacional, incluindo a Wikipédia, e depois de três dias de raiva há mais protestos, o Hamas recusa-se a participar na reunião da Organização para a Libertação da Palestina (OLP), que decide não retomar as negociações de paz com Israel até que os EUA revertam a decisão de reconhecer Jerusalém como a capital de Israel.E entretanto os acordos de paz foram ignorados: pois não ia Israel definir fronteiras? Desde o Nabka, a primeira grande expulsão de palestinianos das suas casas e terras desde 1948, a Palestina confinou-se a 15% do seu território histórico. O projeto colonialista já vai com 51 anos, desde a Guerra dos Seis Dias (1967, início da colonização de Gaza, Cisjordânia e Jerusalém), e não parece tencionar parar nem valorizar o sangue derramado. O Povo Eleito clama a sua terra, a violência obscena será uma pequena pedra no caminho.

Do que vi e do que li, não me parece que a paz esteja no programa político de Israel, antes a colonização, a humilhação, o triunfalismo. Cabe à comunidade internacional isolar Israel, há um povo preso em muros que tem direito à vida.