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Apelo subscrito por: Amelinha Teles | Andrea Medina Rosas | Angela Y. Davis | Antonia Pellegrino | Cinzia Arruzza | Enrica Rigo | Julia Cámara | Jupiara Castro | Justa Montero | Kavita Krishnan | Lucia Cavallero | Luna Follegati | Marta Dillon | Monica Benicio | Morgane Merteuil | Nancy Fraser | Nuria Alabao | Paola Rudan | Sonia Guajajara | Tatiana Montella | Tithi Bhattacharya | Veronica Cruz Sanchez | Verónica Gago | Zillah Eisenstein


Pelo terceiro ano consecutivo, a nova vaga feminista transnacional apelou a um dia de mobilização global no 8 de março: greves legais do trabalho assalariado – como as 5 milhões de grevistas do 8 de março de 2018 em Espanha e as centenas de milhares no mesmo ano na Argentina e em Itália; greves protagonizadas pelos movimentos de base de mulheres sem direitos nem proteção no trabalho, greves ao trabalho de cuidado não pago; greves de estudantes, mas também boicotes, marchas e cortes de estradas.

Pelo terceiro ano consecutivo, mulheres e pessoas queer de todo o mundo mobilizam-se contra os femicídios e todas as formas de violência de género; pela autodeterminação sobre os seus corpos e o acesso ao aborto seguro e legal; por um salário igual para trabalho igual; pela liberdade sexual. Mobilizam-se também contra os muros e as fronteiras; os encarceramentos em massa; o racismo, a islamofobia e o antissemitismo; a expropriação das terras das comunidades indígenas; a destruição dos ecossistemas e as alterações climáticas.

Pelo terceiro ano consecutivo, o movimento feminista dá-nos esperança e a perspetiva de um futuro melhor num mundo em desagregação. A nova vaga feminista transnacional é inspirada pelo Sul, não só no sentido geográfico, mas também político, e é nutrida por cada região em conflito. É por isso que é anticolonial, antirracista e anticapitalista.

Vivemos um momento de crise geral. Esta crise não é apenas económica, ela é também política e ecológica. O que está em jogo nesta crise são os nossos futuros e as nossas vidas. Forças políticas reacionárias crescem e apresentam-se como solução para esta crise.

Dos EUA à Argentina, do Brasil à India, passando por Itália e pela Polónia, governos e partidos de extrema-direita constroem muros e cercas, atacam os direitos e as liberdades LGBTQ+, negam às mulheres a autonomia sobre o seu próprio corpo e promovem a cultura da violação, tudo em nome de um retorno aos “valores tradicionais” e da promessa de proteger os interesses das famílias da etnia maioritária. A sua resposta à crise neoliberal não é resolver problemas desde a sua raiz, mas atacar os mais oprimidos e explorados de entre nós.

A nova vaga feminista é a linha de frente na resistência contra o fortalecimento da extrema-direita. Hoje, as mulheres lideram a resistência aos governos reacionários em inúmeros países. Em setembro de 2018, o movimento “Ele Não” juntou milhões de mulheres que se levantaram contra a candidatura de Jair Bolsonaro, que se tornou um símbolo mundial dos planos da extrema-direita e o catalisador de forças reacionárias na América Latina. Os protestos tiveram lugar em mais de trezentas cidades no Brasil e do mundo inteiro.

Hoje, Bolsonaro trava uma guerra contra os pobres, as mulheres, as pessoas LGBTQ+ e negras. Apresentou uma reforma draconiana da previdência e enfraqueceu as leis de controlo de armas. Os femicídios disparam num país que já em 2018 tinha uma das maiores taxas de femicídios do mundo, sendo que 70% das mulheres assassinadas eram negras. 126 femicídios já ocorreram em 2019.

O movimento feminista brasileiro responde a estes ataques e mobilizar-se-á no 8 e 14 de março, no aniversário do assassinato político de Marielle Franco, na altura em que surgem informações sobre ligações estreitas entre os filhos de Bolsonaro e um dos milicianos responsáveis pelo assassinato.

Da mesma forma, o movimento Non Una Di Meno, em Itália, é hoje o único que se organizou para responder às políticas anti-imigração e misóginas do governo de direita da Liga Norte e do Movimento Cinco Estrelas. Na Argentina, as mulheres lideraram a resistência contra as políticas neoliberais do governo de direita de Macri. E, no Chile, o movimento feminista luta contra a criminalização da luta dos povos indígenas e o machismo sistémico de uma educação muito cara.

O movimento feminista redescobre assim o significado da solidariedade internacional e da iniciativa transnacional. Nos últimos meses, o movimento feminista argentino invocou a “Internacional Feminista” para se referir à prática da solidariedade internacional reinventada pela nova vaga feminista. Noutros países, como em Itália, debate-se, no movimento, a necessidade de encontros transnacionais para melhor coordenar e partilhar pontos de vista, análises e experiências práticas.

Face à crise mundial, de dimensões históricas, mulheres e pessoas LGBTQ+ enfrentam o desafio e preparam uma resposta global. Depois de 8 de março, será o tempo de levar o nosso movimento a dar um passo adiante e convocar reuniões e assembleias internacionais dos diversos movimentos para travar a fundo e deter o comboio do capitalismo global, que se dirige a toda velocidade em direção à barbárie, levando a bordo a humanidade e o planeta.