Política local no Porto: há aqui anticapitalistas!

Artigo de Joana Cruz e Susana Constante Pereira.


“Viva em cada caminho

descobrir mais um lugar

Vivam os braços abertos

Viva o gosto por mudar

Viva a nossa vontade

de partir para voltar

Vivam as histórias da gente

e o que está por inventar”

Esta letra (1), escrita para os Retimbrar, invoca o grito de liberdade que é saber que sempre podemos transformar o futuro e dar valor ao território e ao passado percorrido. Afinal, também somos o solo que, com os pés, pisamos.

Passaram 8 anos desde que a candidatura autárquica “E Se Virássemos o Porto ao Contrário” decidiu abrir a política à vida e, juntando artistas-cidadãos e cidadãos-artistas, fez uma campanha que, parafraseando Augusto Boal, quis “ter a coragem de ser feliz” (2). E decorreram 4 anos desde que o João Semedo deu ao coletivo do Porto cabeça fria e pele dura para fazer acontecer, afirmar alternativas e dar visibilidade à oposição socialista que a cidade merece.

Em 2021, com um novo processo eleitoral em curso, aqui e agora, temos razões para celebrar conquistas e o dever de o fazer. São conquistas cuja execução não depende do Bloco, mas que se devem celebrar, porque estaremos de certeza cá para as fazer vingar. A Automatização da Tarifa Social da Água, a criação de um Programa Municipal de Cuidados Informais, a consolidação de Políticas Locais de Saúde para Responder à Pandemia, um Plano de de Mobilidade em Bicicleta, o alargamento do Acesso às Bibliotecas Municipais, uma Estratégia Municipal Integrada para as Dependências ou um Plano Municipal LGBT+. Estes são exemplos das conquistas dos últimos anos.

De mangas arregaçadas para o que temos pela frente, continuamos a querer resgatar uma democracia plena para o Porto e lutar por condições dignas para quem aqui tem a sua vida. Contra uma governação que põe os interesses de poucos à frente dos direitos de toda a gente, que faz da cidade um produto para venda e que promove políticas que nos põe numa situação de enorme fragilidade em face da grave crise que vivemos, cremos numa Câmara Municipal, numa Assembleia Municipal e em Juntas de Freguesia que ouvem e respondem a nível local às necessidades concretas das pessoas, nas várias dimensões das nossas vidas: habitação, proteção social, respostas às famílias, economia e desenvolvimento local, trabalho com direitos, igualdade de oportunidades, ambiente, saúde, qualidade de vida, espaços verdes, direito ao lugar, património, identidade e cultura.

Depois de 20 anos de governação de direita – 12 anos de Rui Rio e de coligação PSD/CDS na cidade e 8 anos de Rui Moreira, que sob uma fachada de político independente convoca as mesmas forças de direita – falar da intervenção do Bloco no Porto, em junho de 2021, é falar de uma luta que nos convoca a todas e a todos, num plural que extravasa o próprio Porto, porque o que aqui se passa tem uma expressão que vai para lá do local e deve-nos preocupar a nível nacional. O que se passa no Porto é, em muitos aspetos, o contraciclo do que se passa no resto do país, no que toca às conquistas que temos feito. Quando se discute criticamente o colonialismo no país, e no mundo se derrubam estátuas, Rui Moreira ergue às custas do orçamento municipal um monumento ao ultramar. Quando no resto do país, e em tantos pontos do mundo, se pintam cidades de arco-íris, Rui Moreira responde à proposta de hastear a bandeira nos Paços do Concelho com desdém e socorrendo-se de justificações absurdas e que em nada consideram os direitos das pessoas.

Queremos continuar a luta pelos direitos das pessoas na cidade, abrindo caminhos, criando novos futuros dentro daquilo que existe. Ter a liberdade de viver o Porto no seu contrário, juntando diferentes vozes, unindo, para inverter aquilo que já não desejamos. E, neste caminho de luta, a par dos Retimbrar, continuamos a evocar o que há a celebrar: “E viva o Porto, cidade, E viva o Porto, canção, Viva a nossa Liberdade, Viva todos que aqui estão”.

(1) de Teresa Melo Campos, adaptada do original de José Carretas, para o coletivo musical do Porto: Retimbrar, no âmbito do Festival “Manobras no Porto 2012”

(2) Este foi o mote da Campanha de Augusto Boal para vereador do Rio de Janeiro, pelo PT, nas eleições municipais de 1992.