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Artigo de Andreia Quartau.


Não nos resignarmos com conceitos, ideias e propostas deterministas será sempre uma boa estratégia. Questionar, discutir e repensar serão sempre bons caminhos para avançar na construção de novas respostas ou completar as antigas.

Tentemos, então, pensar o socialismo de forma mais abrangente, para além da socialização dos meios de produção e de uma sociedade sem classes. Pensemos que o sistema capitalista não é apenas um sistema de exploração da classe trabalhadora assalariada, onde de um lado está quem detém os meios de produção e do outro quem vende a sua força de trabalho. O capitalismo assenta numa produção desenfreada, mas sustenta-se também na reprodução social, através do trabalho reprodutivo. Se o sistema explora os recursos do planeta para possibilitar a produção, explora também quem garante a existência da/o trabalhadora/a. No entanto, não devemos entender este pensamento como uma soma de camadas ou de esferas de exploração e opressões. Devemos, sim, integrá-las, procurando identificar o que escapou e tem escapado ao marxismo “tradicional”, bem como à agenda e formas de organização à esquerda. São várias as pensadoras feministas que se têm encarregado desta tarefa e deveremos ser nós, enquanto esquerda, socialistas e, por isso, anticapitalistas, a concretizar e a tornar praxis política os caminhos teóricos para os quais nos têm apontado. Aliás, parafraseando Marx, os filósofos limitaram-se a interpretar o mundo, mas o que importa é transformá-lo.

Antes da produção, da captura da mais-valia, da acumulação, deparamo-nos com toda uma estrutura de suporte ao sistema capitalista que, se ignorada, torna impossível a visão do socialismo como projeto de libertação social: o trabalho reprodutivo, em geral na esfera doméstica, do qual o capitalismo depende para que exista força de trabalho pronta a engrenar-se nos processos produtivos onde se dá a exploração na sua forma mais comummente referida. Se para a última temos, pelo menos, mais de 200 anos de desenvolvimento de instrumentos de luta, para a primeira, que se dá fora do sistema de produção, precisamos de criar novos instrumentos. É aqui que surge a greve social, uma nova forma de contestar a ordem social, tendo por base não apenas a esfera laboral mas também a esfera reprodutiva. A greve social não surge em alternativa à greve laboral, mas sim em simbiose com todas as lutas pela emancipação social. A Greve Feminista Internacional é uma das suas traduções práticas que surge precisamente do reconhecimento de uma relação de exploração capitalista no âmbito da reprodução social e que coloca no centro a própria forma como é garantida a vida humana, desde o nascimento, até à morte, do vestir das crianças, passando pela alimentação do/a trabalhador/a, ao cuidado para com os idosos.

Em primeiro lugar, a Greve Feminista coloca no centro do debate o reconhecimento do trabalho “invisível” e não remunerado, como é o trabalho de cuidados – a “produção de pessoas” é condição indispensável à “produção de mais valia”. Colocar a vida no centro permite-nos encontrar novas frentes de conflito social que apontem para a necessidade de uma transformação estrutural e, portanto, radical da sociedade. Construímos a greve social porque sabemos que a sobrevivência, e, por regra de consequência, a destruição do capitalismo não depende apenas do conflito capital-trabalho. Além disso, a Greve Feminista Internacional permite um processo de democratização da própria greve, uma vez que que procura e precisa do envolvimento de vários setores, por vezes afastados do movimento sindical, que refletem inclusivamente sobre este, ajudando-nos a criar novas ferramentas de organização coletiva.

As contradições do sistema capitalista que resultam nas suas crises alimentam a procura incessante de alternativas por parte daqueles que sentem não caber “neste mundo”. O desespero social gerado por um sistema que é só para alguns não é irracional e tem contribuído para o crescimento de movimentos de extrema-direita um pouco por todo o globo. Também por esta razão, os e as socialistas têm a responsabilidade e a urgência de reconhecer o potencial emancipatório deste velho-tornado-novo instrumento de luta social.


Andreia Quartau é ativista e uma das organizadoras da greve feminista.