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Artigo de Gabriela Morais.


A praxe é, no fundo, uma representação da subjugação dos corpos. Não vai só “quem quer”. Quem entra na praxe é também x estudante que chega pela primeira vez a uma cidade desconhecida e vê como alternativa não tirar os olhos do chão (em prol de um espaço de integração). Em Portugal, esse espaço de “integração” é experienciado por mais de 70% dxs estudantes.

É certo que a atual difusão da praxe nas faculdades se relaciona com o adormecimento do movimento estudantil no nosso país. Xs alunxs são afastadxs das reivindicações estudantis, intensifica-se o conceito “antipolítico” no pensamento dxs mesmxs e reforça-se uma visão da vida académica como mera preparação para o mundo laboral.

Após o 25 de Abril, a praxe ressurge, em parte, por mão da Juventude Social Democrata (JSD). Não é de estranhar a relação entre a praxe, as juventudes partidárias de direita e as associações de estudantes. Pode dizer-se também que as instituições privadas viram na praxe uma forma de reforçar a sua identidade.

A normalidade de um dia de praxe é a objetificação do corpo da mulher, a homofobia, o racismo e os estereótipos de género. Caloirxs são vendidxs em leilão e compradxs como se fossem mercadoria. Sabemos que xs praxistas fazem pactos de silêncio e que esses pactos de silêncio impedem a punição dos atos violentos. Nesse sentido, é necessário forçar o governo a implementar medidas para travar os crimes que são atirados para debaixo do tapete.

A praxe é também uma instituição que perpetua valores antidemocráticos, a humilhação e a hierarquia. Com a institucionalização destes rituais, criou-se a falsa ideia de “tradição académica” – que sustenta a maior parte dos argumentos de quem praxa. É preocupante xs estudantes do Ensino Superior indicarem como “melhor experiência” a sua presença na praxe e isto comprova que este é um regime de exceção onde a discriminação e a hierarquia são uma diversão. À medida que a praxe construiu a sua hegemonia, a discussão sobre a democracia foi desaparecendo. Hoje em dia, qualquer argumento em defesa da praxe baseia-se na experiência pessoal da sua praxe “boa” e não numa observação crítica sobre o que acontece durante a sua preparação e execução. Cair na falácia argumentativa da praxe “boa” e da praxe “má” é não entender que a praxe nunca mudará a sua genética fascizante.

Os momentos de enfraquecimento de adesão à praxe correspondem aos momentos em que xs estudantes estavam mais preocupadxs em construir uma sociedade de iguais e em combater a guerra colonial e o regime. A luta de hoje deve incidir na disputa cultural e política das universidades. Deve incidir no contorno à perda do poder de decisão nos órgãos de gestão da faculdade. O foco dxs estudantes deve passar pela luta antipropinas, pelo direito à habitação e pela construção de um ensino superior livre, gratuito, crítico e onde todxs tenham voz. É urgente lutar para reativar o movimento estudantil e disputar também o espaço público. Espaços horizontais e de reafirmação da emancipação social são a alternativa ao espaço opressor e misógino que caracteriza a praxe; são a alternativa à aceitação acrítica das relações de poder do sistema capitalista e patriarcal, combatendo o conformismo e esvaziando a hegemonia da praxe.