Presidenciais: o que se aprende numa derrota

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Francisco Louçã, professor universitário e ativista do Bloco


Na noite das eleições presidenciais, Marisa assumiu a derrota sem meias palavras: “Os resultados estão à vista: não são o que esperávamos, não são os que esperei”. É assim que se deve falar quando se perde, como se deve sublinhar a vitória quando é o caso contrário.

Como é evidente, o fator essencial para a explicação deste resultado, num contexto de pandemia em que não foi possível fazer uma campanha diretamente junto da população, foi a polarização de voto em Ana Gomes para conseguir que Ventura não ficasse em segundo lugar. Essa realidade é confirmada pelas sondagens e pelos estudos eleitorais destas eleições. Na mesma noite das eleições, a sondagem da RTP, feita com uma amostra alargada de cerca de cinco mil votantes presenciais, indicava que o Bloco subia ligeiramente em relação a sondagem de há uns dias e que o PS baixa, mas tem mais do que o PSD e Chega somados. A derrota das candidaturas de Marisa e de João Ferreira são evidentes pelo facto de não terem polarizado uma parte dos seus campos eleitorais, nas circunstâncias que foram as desta eleição. E, como se confirmou, não foi a cedência do PCP no Orçamento que se traduziu em vantagem eleitoral.

Marisa reafirmou, corajosamente, que “aqui estou, como sempre, com mais energia do que nunca para as nossas lutas comuns”. “Dei neste combate o melhor de mim”, disse, acrescentando que “este resultado não é uma falta de comparência: hoje como ontem, amanhã como hoje, cá estarei para todas as lutas, para ganhar e para perder, como fiz sempre e como faz toda a minha gente”. Essa confiança reconfortou quem se entusiasmou com a campanha e a sua viragem nos últimos dias. É essa persistência que permite a Marisa manter uma fasquia elevada: “Queremos um país solidário, é essa a nossa tarefa. Um país solidário que se junte pelo SNS e pelos seus profissionais, a nossa maior arma contra a pandemia, ou para defender a democracia”. “Queremos e precisamos de um país solidário, que não aceite a crise e a divisão como política. Terá de respeitar quem vive do seu trabalho e combater a precariedade, devolvendo a esperança às gerações mais jovens, que têm sido as mais sacrificadas em todas as crises”, acrescentou. Só posso aplaudir esta persistência e determinação. Marisa foi uma candidata forte e mostrou por que mereceu o apoio de tantas personalidades independentes.

Quando no passado tive responsabilidades no Bloco, passei e passamos por vitórias e derrotas, algumas mais amargas do que esta. Tivemos mais de 9% nas eleições legislativas de 2009, elegendo 16 deputados e deputadas, e depois caímos para 5% nas eleições de 2011, com oito deputados e deputadas. Essa derrota ocorreu num contexto muito duro, a direita ganhou essas eleições e governou durante quatro anos. Nada que se compare com a conjuntura presente, em que o governo é o mesmo e a vitória de Marcelo era esperada. Além disso, a derrota destas presidenciais encontra o Bloco em situação melhor do que há dez anos: tem mais força social, mais experiência e uma proposta política mais forte.

A esquerda aprende uma dura lição com o tempo que passa, lutamos sempre em circunstâncias sempre diferentes e há uma lei da vida, que é que, quando ganhamos, a direita se reorganiza, os inimigos mudam e não costuma ser para melhor. Sempre que a esquerda avança, como tem acontecido nos últimos anos, a direita radicaliza-se e é por isso que temos agora a extrema-direita a constituir uma parte tão relevante do mapa do conservadorismo e da reacção. O mundo mudou desde Trump e essa mudança está agora dentro de portas.

Nesse contexto, a esquerda saberá como recuperar, polarizando contra a aliança da direita e extrema-direita e procurando impor medidas sociais, que são prioritariamente as respostas ao fracasso do Orçamento: recompor o SNS com pessoal, carreiras e exclusividade das profissões de saúde, e medidas sociais e económicas para proteger as vítimas, as pessoas desempregadas e atingidas pela recessão Covid. Onde o Orçamento e o governo falharam, é onde a esquerda não pode desistir e deve conseguir fazer aprovar e aplicar as respostas de urgência que a crise exige. Essa é a esquerda de que Portugal precisa.