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Artigo de Andreia Galvão e Beatriz Farelo.


Que relação entre a incerteza do recomeço das aulas, os esforços no reforço da ação social, a falta de alojamento estudantil e as inseguranças sanitárias, e a mercantilização e falta de investimento no Ensino Superior? Tudo. O sistema económico não está a falhar agora, ele já nos estava a falhar antes.

A pandemia veio relembrar-nos de todos os problemas no Ensino Superior: a falta de investimento, a mercantilização bruta das e dos estudantes e os fracos mecanismos de ação social. Conciliar o final do ano letivo com um cenário pandémico, teve um peso brutal na nossa saúde mental e no bolso de milhares de famílias. Muitos estudantes abandonaram os estudos, perderam a casa, e agora tentam a todo o custo procurar emprego em tempos onde mais estamos expostos a estágios não remunerados ou postos altamente precários.

Contudo, a conjuntura sócio-económica parece não abalar a lógica da propina. Ainda que o valor da propina tenha vindo a baixar para estudantes portugueses, veio à custa do aumento da mesma para estudantes internacionais e situações verificamos, mais uma vez, que é quem vem dos países historicamente explorados por Portugal que fica incumbido de financiar o Ensino Superior no nosso país, quando o Estado se desresponsabiliza de o fazer.

A ação social adaptou-se, mas é claramente insuficiente para tudo o que ainda está para vir. O ataque ao alojamento estudantil agravou-se, sim, mas não esquecemos que os e as estudantes já pagavam cerca de 300€ de renda por um colchão num quarto sem as mínimas condições de estudo, e as residências estudantis sempre foram insuficientes. Se o abandono cresce, é porque a incerteza económica do peso das propinas no bolso das famílias (agora em lay-off e no desemprego), e a insuficiência na ação social não asseguram a democratização do ensino àqueles e àquelas que já antes saíam prejudicados com este sistema.

Garantir um Ensino Superior público e democrático é garantir a segurança sanitária nas aulas presenciais, um lugar de estudo e pesquisa que preencha as necessidades dos estudantes, criar mais alojamento estudantil público e mais residências, reforçando a ótica da habitação social, exigir mais financiamento por parte do Estado, e reforçar a ação social, não apenas como um mero paliativo.

Em tempos em que a segurança e a nossa liberdade é posta em causa, urge repensar os modelos de organização da luta estudantil. Em contacto com ativistas estudantis e associações académicas, o Bloco tem vindo a perceber que as grandes dificuldades se prendem na falta de informação disponibilizada pelas Instituições de Ensino Superior, o que enfraquece a possibilidade de tomada de posições coletivas concertadas. Apesar de todas as dificuldades que se levantam sabemos o que queremos trazer para o centro do debate político: acabar com a propina, garantir segurança para todos e todas as estudantes neste ano letivo e assegurar que estudar é um direito para todos e todas.


Andreia Galvão e Beatriz Farelo são ativistas estudantis.