Revisitar Angela Davis

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Artigo de Andrea Peniche e Hugo Monteiro.


Quem viu recentemente o magnífico documentário The black power mixtape 1967-1975 (Göran Olsson, 2011) pôde assistir àquela que terá sido a primeira entrevista de Angela Davis dada a partir da prisão, onde aguardava pelo julgamento que lhe poderia trazer a pena de morte. Talvez surpreenda apreciar a determinação e o desassombro da jovem ativista que, na ostentação orgulhosa da sua vasta cabeleira afro, não apenas reiterava a justiça da sua militância como se tornava uma das vozes públicas pela supressão total do racismo, pelo fim da guerra do Vietname e da colonização do continente africano.

Já em 1972, para Davis, estava em causa o poder do povo em vez da exaltação de um líder, da força do movimento em vez do gesto da iniciativa. Uma forma muito tenaz de firmeza transparecia da intelectual e ativista negra, que assumia a negritude como postura, identidade e resistência. Era já esta Angela Davis – a mesma que, em dezembro de 2017 e perante uma plateia grega, denunciou o capitalismo racial da administração Trump, mas também os mais silenciosos dispositivos de normalização, ordenação e vigilância do Ocidente neoliberal.

A conferência de Davis, proferida na 11.ª Conferência Anual em Memória de Nicos Poulantzas, que pode ser integralmente vista na presente edição online da revista Anticapitalista, retoma desde o seu título o conceito de feminismos de abolição, tão importantes para Davis desde o início do seu ativismo. Lembremos, como a própria sublinha, que o abolicionismo invocado nada tem a ver com a condenação do trabalho sexual, mas sim com os movimentos de abolição da escravatura que delinearam os primórdios dos chamados feminismos negros.

A época da escravatura, como os tempos que sucederam a sua pretensa abolição, foi marcada pelo silenciamento ou pela patologização dos modos de vida negros, numa ideologia segregacionista ampla e prolongada no tempo. As comunidades negras dos Estados Unidos, cujos contextos ou formas de organização se afastavam de um modelo familiar branco, heterossexual e de classe média, sofriam assim um efeito de segregação racista a partir do pretenso desvio estrutural das suas formas de convivência social. Exemplo desta patologização é, já em 1965, o conhecido Relatório Moynihan, documento produzido para o governo que atribui as causas das “doenças” estruturais das famílias negras à ausência de uma autoridade masculina. Conclui, claro está, com a recomendação da introdução de uma figura masculina de supremacia como elemento regulador da família (Cf. Angela Davis, Women, Race and Class, 1983). É contra pressupostos como estes, em que se intersetam relações de subordinação esclavagista com o patriarcado, em que as mulheres e as mulheres negras não têm voz nem expressão, que se definirá o amplo e plural movimento dos feminismos negros.

Desenhando desde logo um campo de diferenciação crítica entre movimentos negros de emancipação das mulheres e as primeiras vagas do feminismo hegemónico, a questão da escravatura implica uma especificidade negra, uma interseção entre raça e género como formas de dominação. A construção hegemónica do feminismo burguês, limitado em discurso e ação, invisibiliza as mulheres negras, excluindo-as muitas vezes da própria categoria “mulher”. Desenha-se a urgência de um outro feminismo em que as negras, saídas das grilhetas da escravatura, assumiam a possibilidade de criarem um caminho que seja seu. Desse longo percurso resulta um discurso crítico e abrangente, capaz de beneficiar o movimento como um todo, nas ruas e nos bairros, na academia e nos partidos. Angela Davis tem sido uma das protagonistas desta alternativa feminista, em que um desejo intersecional de transformação se radicaliza e se recria – hoje particularmente, quando as condições históricas que permitiram a escravatura e o fascismo, de acordo com Davis nesta mesma conferência, se repetem e se repercutem. E hoje, quando as dimensões mais relevantes de movimentos como o Black Lives Matter se afirmam na capacidade de construir sínteses de inúmeros (mais de 50) outros movimentos, desafiando lógicas setoriais que vêm ditando a história passada e presente dos ativismos.       

Os feminismos negros têm muito a dizer ao pensamento e ação anticapitalistas, desde logo por refletirem uma postura de resistência dificilmente assimilável pelas lógicas centralizadoras do chamado feminismo liberal. Este último, tão lesto em celebrar o progresso igualitário das mulheres (brancas, heterossexuais, bem-sucedidas e preferencialmente “empreendedoras”) nas montras do livre comércio, tem expressão mediática e amplo poder de disseminação, mas evidentemente é falho nas várias frentes onde é necessário lutar. Quando as consequências da divisão sexual do trabalho são tão numericamente evidentes, quando as lógicas de dominação se impõem de forma tão mais tenaz nos circuitos periféricos, este feminismo celebratório não falha apenas na representação da maioria das mulheres como cria uma miragem de igualdade. A necessidade de projetar a voz de todas as mulheres, a começar pelas mais vulneráveis aos meios de subalternização do capitalismo, será sempre o horizonte de um ativismo feminista que não abre mão de ultrapassar as opressões no seu conjunto, como consequência das injustiças de um mesmo sistema que esmaga. Daí a importância de uma luta total, inclusiva e intersecional. Daí, também, a necessidade de se revisitar Angela Davis desde os seus primeiros trabalhos, recolhendo o exemplo do seu inigualável espírito combativo.


Agradecimentos:

À Rede Transform e ao Instituto Nicos Poulantzas, por terem entusiasticamente apoiado o nosso ensejo de traduzir e legendar a conferência de Angela Davis.

A Tatiana Moutinho, pelo trabalho de tradução e legendagem e pela alegria que pôs nessa tarefa.