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Entrevista de Andrea Peniche e Hugo Monteiro a Nadia de Mond.


Nadia De Mond é uma feminista marxista ítalo-belga, ativista do movimento Ni Una Di Meno e militante da rede Communia. Esteve recentemente em Portugal, no Porto, no âmbito do encontro Feminista Internacional, organizado pelo Feminismo Sobre Rodas.

Nota: nesta entrevista, a palavra mulher deve ser sempre entendida como incluindo mulheres cis e trans, hétero e LGBTQI+.

Como surgiu o Non Una di Meno? Quais as suas áreas de intervenção?

O Non Una di Meno (N1DM) nasceu no outono de 2016, depois do bárbaro assassinato e violação em grupo de uma rapariga em Roma, que chamou a atenção para uma situação generalizada de violência crescente contra as mulheres. Os coletivos de jovens feministas, que se tinham juntado e mobilizado durante a campanha Io Decido em solidariedade com as mulheres espanholas em defesa do direito ao aborto, juntaram forças com a rede nacional de CAV – Centros AntiViolência (casas-abrigo) – e com a pequena organização feminista histórica UDI – Unione Donne in Italia – para convocar uma manifestação nacional, a 25 de novembro, no âmbito da jornada internacional contra a violência contra as mulheres. Para nossa surpresa, 200 000 mulheres, e também muitos jovens que acompanharam as suas namoradas –, em particular jovens muito jovens, responderam à convocatória enchendo as ruas de Roma com os seus gritos de guerra contra a violência sistémica. Desde o início, a intenção do N1DM foi o de criar um movimento duradouro e não apenas um evento de um dia. Por isso a convocatória incluía a informação de uma assembleia nacional que se realizaria no dia seguinte à manifestação, para delinear os contornos e objetivos do movimento. Foi um enorme sucesso de participação e de compromisso com o futuro.

Ficou claro desde o início que o N1DM considerava a violência machista num sentido muito amplo e sistémico, isto é, como funcional para a manutenção do sistema capitalista, heteropatriarcal e racista. Em consequência, a assembleia decidiu organizar-se em grupos de trabalho, que analisam a forma como a violência contra as mulheres e de género atravessa e marca diferentes domínios das nossas vidas: da economia à educação, dos mass-media ao sistema jurídico, das políticas de imigração à destruição do ambiente. Foi criado um grupo de trabalho específico sobre o sexismo nos movimentos sociais, porque nenhum espaço está completamente livre de violência machista, apesar do que proclama.

Quais são as vossas principais propostas para combater a violência contra as mulheres e de género?

As nossas propostas sublinham o protagonismo das mulheres na sociedade e a exigência de apoio por parte dos organismos públicos às suas atividades. Concretamente, reivindicamos a longa experiência e profissionalismo dos CAV – muitas vezes autogeridos e baseados, parcialmente, em trabalho voluntário – no acompanhamento das mulheres vítimas de violência doméstica, num processo de recuperação da sua autonomia psicológica, social e económica e a disponibilização dos fundos públicos necessários para o seu funcionamento. Mas propomos também muito trabalho em termos de prevenção: educação sexual em todos os níveis de ensino para desmontar os estereótipos de género, intervenção contra a “narrativa tóxica” da violência machista nos media, que revitimiza as mulheres e banaliza as violações. Exigimos também políticas sociais e económicas que combatam as desigualdades salariais de género, o assédio sexual no trabalho, a precariedade, a falta de serviços públicos de qualidade e acessíveis a todas, o fim das medidas que limitam os direitos das pessoas migrantes e refugiadas, porque a violência está intrinsecamente ligada às condições materiais de sobrevivência.

A Itália está diferente desde a saída de Salvini e da extrema-direita do governo?

Desde o outono passado, após a crise do governo Salvini/Di Maio, a Itália conseguiu livrar-se do governo populista de direita que criara um clima cultural de legitimação do discurso – e das acões – abertamente racistas e homofóbicos. O novo governo do PD/5S (Partido Democrático/Movimento 5 Estrelas) foi, por isso, recebido com alívio por uma parte da população. O apoio institucional a conferências internacionais da extrema-direita “pró-vida” e a proposta de leis misóginas à moda do senador Pillon, da Lega, já não estão na ordem do dia. No entanto, as políticas económicas não mudaram muito, mantendo-se o seu pendor neoliberal e anti-imigração. Só o discurso político parece menos agressivo.

4. O N1DM é uma das organizações que, em Itália, convoca a Greve Feminista Internacional? O que pensas desta iniciativa?

Desde 2017 que o N1DM aderiu ao apelo do Ni Una Menos argentino para transformar o 8 de Março numa jornada internacional das mulheres, que vinha sendo cada vez mais esvaziada de conteúdo, num dia de greve feminista. A ideia era – e é – parar as atividades para tornar visível a contribuição indispensável, invisibilizada e desvalorizada das mulheres para a economia e a reprodução da sociedade, sob o slogan “Se as nossas vidas não valem nada, produzam sem nós”. Utilizamos a greve – que é um instrumento tradicional de luta do movimento operário – transformando-a, ampliando-a. A greve feminista diz respeito tanto ao dito trabalho produtivo, para o mercado, como ao trabalho reprodutivo, desempenhado pela maioria das mulheres, que é indispensável para sustentar a vida, mas não é reconhecido como tal. É uma greve global, política e internacional, que diz respeito a 99% das mulheres, onde quer que trabalhem: nos setores formal e informal, como falsos recibos verdes ou na economia subterrânea, como estagiárias ou precárias. Estes são setores frequentemente negligenciados pelos sindicatos que o movimento feminista organiza, abordando os problemas relativos à existência como um todo.

5. Em tua opinião, quais são os principais desafios que enfrenta atualmente o movimento feminista?

Apesar da natureza bastante ampla e inclusiva do novo movimento feminista, ele corre o risco de nunca atingir verdadeiramente os 99% das mulheres que é necessário consciencializar e trazer para a luta. É dirigido por jovens altamente escolarizadas, muitas vezes precárias, que correm o risco de falar uma língua pouco compreensível para as mulheres de outras proveniências sociais, enquanto pretendem representá-las e incluí-las. O desafio é sair da nossa própria bolha – física e psicológica –, para realmente alcançar e ajudar a organizar aquelas que mais precisam e para construir as relações de força indispensáveis para conquistarmos o que queremos. O mesmo desafio de alargamento é colocado ao nível internacional. Sabemos que o que chamamos de “nova vaga feminista” toca de forma muito diferente os diversos países e continentes. No entanto, assistimos a um ativismo e um protagonismo incríveis das mulheres pelo mundo inteiro, em lutas de todo o tipo, muitas vezes ligadas à sustentabilidade da vida, seja em defesa dos recursos naturais e do território contra as multinacionais, revoltas contra o aumento do custo de vida ou a resistência contra regimes repressivos e ditatoriais. Estas problemáticas cruzam-se necessariamente com o caráter patriarcal do capitalismo atual. E nós, as feministas, devemos ser capazes de articular o nosso discurso e as nossas práticas, para que todas estas mulheres que se levantaram em defesa dos seus direitos encontrem o seu lugar no movimento.

6. O movimento feminista tem-se articulado com outros movimentos sociais? Se sim, quais? Há uma agenda comum ou alianças pontuais?

Após a década de 2000, em Itália, os movimentos sociais, em particular os antiglobalização neoliberal e antiguerra, por falta de vitórias concretas, eclipsaram-se, assim como os movimentos estudantil e trabalhista. De facto, foi o N1DM que tomou em mãos a tarefa de construir uma oposição global contra as políticas de direita do governo Salvini, em defesa de direitos e liberdades para todas as pessoas. Só muito recentemente um novo movimento social começou a agitar as consciências. É o movimento Fridays for Future, da geração millenial, que reconhece Greta Thunberg como figura emblemática da contestação ecológica contra as alterações climáticas decorrentes do nosso modo de produção baseado em energias fósseis e no desperdício de recursos naturais. Nas escolas secundárias, muitas vezes, as pessoas que se mobilizam para as questões ambientais são as mesmas que participam nas iniciativas do N1DM. No entanto, uma aliança mais sustentável e programática ainda precisa de ser construída entre esses dois movimentos, que são a esperança da próxima década.

7. Aquilo que, visto daqui, nos parece ser uma grande instabilidade ao nível da organização partidária da esquerda em Itália reflete-se no movimento social? Se sim, como?

Infelizmente, ao nível partidário e sindical, a Itália ainda vive uma fase de derrota e recessão, devido, em grande parte, a uma política de adaptação das forças de esquerda aos ditames da União Europeia da austeridade, que provocaram uma crescente degradação das condições de vida e o abandono da ideia de uma sociedade alternativa à do mercado capitalista. Isso produziu uma desconfiança generalizada, especialmente entre os e as jovens, da política como instrumento de transformação. O espaço onde o poder se exerce corre o risco de permanecer fora do alcance dos cidadãos e cidadãs e dos movimentos sociais, que se empenham mais na contestação e resistência do que no projeto de construção de uma alternativa global de sociedade.