Sobre o mapa sindical em Itália

Em Itália, foi erguido um verdadeiro sistema de concertação social entre os governos – todos sem exceção –, as organizações patronais e as grandes confederações sindicais (CGIL, CISL, UIL). É um sistema que entrega o monopólio da representação e negociação sindical a essas organizações, com o privilégio que daí decorre para os seus aparelhos. As três confederações participam no processo de reestruturação da segurança social pública pela sua integração no seio dos conselhos de administração dos fundos complementares e privados de pensões.

A concertação entre os “parceiros sociais” está hoje em crise devido às políticas do governo Meloni, de extrema-direita, que tende a privilegiar as relações com a CISL e a UIL, mais conservadoras, em relação à CGIL, que continua a ser a principal organização sindical, tradicionalmente ligada à esquerda reformista e igualmente ao Partido Democrático, um partido social-liberal (malgrado a tentativa da sua secretária, Elly Schlein, de o orientar para posições neo-social-democratas).

Tem havido numerosas tentativas de criar sindicatos de base ou alternativos, para responder às políticas de concertação e ao funcionamento burocrático das confederações. Na segunda metade de 1980, os Cobas (comités de base) nasceram em vários setores, sobretudo no ensino público (Cobas Escola), depois entre os maquinistas (Comité dos maquinistas unidos). E depois na indústria, como no caso dos trabalhadores da Fiat/Alfa Romeo, com a FLMU, nascida de uma cisão de esquerda do sindicato católico dos metalúrgicos.

Desde então e até ao início da década de 1990 passou muita água debaixo das pontes. O sindicalismo de base conheceu importantes períodos de luta, opondo-se à austeridade. Participou igualmente nos movimentos sociais que contestaram a mundialização capitalista no início dos anos 2000 e que procuraram contrariar as políticas da Troika depois da grande crise de 2008-2010. Contudo, esta resistência sindical foi acompanhada por uma fragmentação do sindicalismo de base, devido a uma forte vontade de afirmação própria que produziu práticas sectárias, incapazes de procurar a convergência. Em resumo, assistiu-se, numa parte do sindicalismo de base, a uma perda de vitalidade e de capacidade de iniciativa para influenciar a relação de forças. Em consequência, existe hoje uma grande diversidade de sindicatos ditos “alternativos” e de “base”.

A USB (União Sindical de Base), que não é, ao contrário do que o nome sugere, uma união de diferentes sindicatos, é certamente o sindicato mais importante entre eles, presente tanto no público como no privado. E, graças à iniciativa do Coletivo dos Trabalhadores do Porto de Génova (CALP), que dela faz parte, teve um importante papel nas mobilizações de solidariedade com o povo palestino e a Flotilha no verão-outono de 2025. Trata-se de uma organização capaz de uma ação sindical combativa e ao mesmo tempo muito sectária, que exclui qualquer convergência com as outras correntes do sindicalismo e se apresenta como a única alternativa à hegemonia da CGIL, da CISL e da UIL sobre a maioria dos trabalhadores.

A USB não tem pluralismo interno, faz parte da Federação Sindical Mundial e mantém relações com sindicatos de regimes de países como a China e a Coreia do Norte, ou da Rússia de Putin, como tinha relação com os da Síria de Assad. É uma organização decididamente “campista”, que procura constituir um “bloco político-social”, agrupando um partido, Potere al Popolo, e duas organizações de juventude. É dirigida por uma pequena organização estalinista, a Rede dos Comunistas.

Existem muitas outras organizações sindicais de base. A começar pelo S.I. Cobas, que tem feito importantes ações de sindicalização dos trabalhadores da logística. Sem esquecer o ADL Cobas, sobretudo presente nas regiões do nordeste do país, e outras organizações históricas do sindicalismo de base, como a CUB (Confederação Unitária de Base) e a Confederação Cobas, que inclui o Cobas Escola. 

Existem ainda sindicatos de base territorial mais limitada, entre as quais a minha organização sindical, o SIAL-Cobas (Sindicato Interprofissional Autogerido dos Trabalhadores), nascido de uma cisão do USB em 2012 e presente na Lombardia, com algumas ramificações na Ligúria e Toscana, tanto no público como no privado, sobretudo no setor automóvel. Ou ainda o SUDD Cobas, composto essencialmente por imigrantes na Toscana. Em Roma existe a experiência dos CLAP, Câmaras de Trabalho Autónomo e Precário, que se apoiam em espaços sociais ocupados e procuram organizar o precariado. Algumas destas iniciativas sindicais formaram uma rede intersindical, que participa na Rede internacional de solidariedade e luta, articulada por importantes experiências como os SUD Solidaires franceses, a CGT de Espanha e a Conlutas do Brasil.

Existe igualmente em Itália a experiência particular da Association Fuorimercato – movimento pela autogestão, que procura conjugar práticas mutualistas, o sindicalismo social, com a sindicalização propriamente dita, em particular no sul do país, entre trabalhadores migrantes assalariados como operários agrícolas e submetidos a um regime muito duro de exploração e marginalização social.

Nascida da convergência de vários espaços sociais e da autogestão de uma fábrica ocupada, Rimaflow, na província de Milão, a Associação Fuorimercato empenha-se agora em apoiar a luta da antiga GKN de Florença, uma fábrica automóvel atingida por uma vaga de despedimentos e pelo fecho em julho de 2021, e cujos trabalhadores continuam a resistir, se constituíram em cooperativa e reclamam a reconversão ecológica da empresa pelo Estado. Entretanto, tentam pôr em marcha um plano de produção ecológica, para a construção de painéis solares e de bicicletas de carga, graças a um projeto de financiamento por ações populares. Fundaram igualmente o SOMS (Sociedade Operária de Entreajuda), que junta ativistas solidários, incluindo o Fuorimercato. Trata-se de uma experiência de autogestão combativa que tem grande impacto na esquerda sindical, social e política, porque demonstra a potencialidade da convergência. Deu lugar a manifestações de solidariedade com milhares de participantes, reinvindicando um modelo alternativo a nível internacional, nomeadamente através da solidariedade com o povo palestino.

Tradução de Francisco Louçã