Socialismo ou liberdade? A nova cruzada da direita contra o debate das ideias.

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Texto de Adriano Campos


“O Bloco perdeu a ingenuidade, que nunca teve, e deixou de ter vergonha. Sendo que a falta de vergonha, também chamada demagogia e populismo baratos, sempre foi um dos seus maiores problemas. Não sou o primeiro a dizê-lo, não serei seguramente o último a senti-lo: partidos como o Bloco são tão perigosos para o futuro da democracia continental como os mais radicais dos movimentos nacionalistas de Direita” (Jornal de Notícias, 5 de setembro, 2018).

Três anos após ter escrito estas singelas palavras, Nuno Botelho viu as suas empresas alvo de buscas pelo DCIAP e pela Polícia Judiciária. No centro das suspeitas, um esquema de corrupção e branqueamento de capitais através do financiamento público à empresa Essência do Vinho. Proprietário da empresa e sucessor de Rui Moreira à frente da Associação Comercial do Porto, Botelho teria usado a sua influência como dirigente associativo para, digamos, perder a ingenuidade que nunca teve.

Desviemos, por agora, o foco da ficha criminal desta personagem menor da galáxia direita para atentar ao argumento utilizado. O Bloco de Esquerda é um partido perigoso para o futuro da democracia continental e nisso estaria em pé de igualdade com os mais perigosos partidos da extrema-direita. A tentativa de equiparação entre um programa de emancipação social e redistribuição económica (esquerda) e um projeto de ódio aos mais pobres, aos imigrantes e às mulheres (extrema-direita) é uma das cartadas mais batidas e gastas, em várias as partes do globo e em diversas épocas, por parte dos guardiões do regime da alternância ao centro. Na política portuguesa, essa mistificação assumiu desde pretensas regras de Estado, como é caso do famoso “arco da governação” (que excluía Bloco e PCP) até a uma pífia tentativa de colar ao Bloco o epíteto de “extrema-esquerda”.  Os últimos anos trataram de confirmar a rejeição popular desse tipo de simplificações grosseiras, não que sem no horizonte se vislumbre um apressado realinhamento de armas à direita.

Vai para Cuba, onde os bolcheviques mataram milhões e a tia do Louçã tem um cofre secreto. 

Já o sabíamos, o trumpismo e a sua técnica da bufonaria veio para ficar. Sem olhar a meios ou aos limites da decência no combate político. O despropósito, a mentira, a trapaça, a boataria, tudo vale para a detração dos adversários e a fanatização dos seus seguidores. Como bem tratou Márcia Tiburi, esta forma de autoritarismo pressupõe um empobrecimento extremo dos atos e da leitura política, abrindo caminho à aniquilação do debate das ideias.[1] Se vale dizer que determinado partido é financiado pela Venezuela, ou que o fulano deputado tem um passado obscuro, sem provas, sem contraditório, o que os impede de dar um passo em frente?

“Socialismo nunca mais” foi o brado de Ventura no parlamento a um país que lhe responde “fascismo nunca mais”. Mas os berros e a encenação não escondem um projeto, minoritário na sociedade, de restituição de privilégios simbólicos, económicos e sociais. O messianismo autoritário da extrema-direita carrega consigo a promessa de vingança sobre os grupos e classes que ameaçam o velho normal. O racismo, a misoginia, a discriminação sexual, o preconceito cultural apresentam-se como armas para a banalização do ataque aos direitos e à democracia. Nesse caminho, vilipendiar os representantes de uma esquerda que combate a desigualdade pela afirmação dos direitos universais é a via mais curta para envenenar o debate público e criar fantasmas políticos.

Estamos aqui, estamos aqui, olhem para nós!

Nem todas as direitas chafurdam na lama da difamação à primeira oportunidade. A criação de fake news e do engodo primário não bastam a públicos mais refinados. O exemplo da Iniciativa Liberal em Portugal ilustra a diferença.  A técnica do alarme permanente é bem conhecida. Reparem em nós que estamos aqui para criar polémica. De uma proposta impraticável (taxa única de IRS) a um arraial em plena pandemia é um instante e cumpre-se o objetivo, ocupar o espaço, custe o que custar. No que toca à mistificação política, a Iniciativa Liberal prefere, todavia, o recurso à reescrita da história e às campanhas de polarização.

A campanha contra o “Socialismo”, desenhada nos cartazes e entoada pela bolha liberal concentra três mitos que servem à algazarra eleitoral. O primeiro unifica o espaço à esquerda do PSD como uma amálgama de atrasos históricos, onde o clientelismo de Estado impera e o sucesso individual está atado pela corrupção e pelo patrimonialismo lusitano. O segundo trata de diabolizar as funções sociais e económicas do Estado e endeusar o mercado como espaço supremo de organização da sociedade, reduzindo o leque das escolhas entre um autoritarismo estatal asfixiante e um paraíso liberal sem impostos ao virar da esquina. Por fim, temos a releitura caricatural dos problemas presentes a partir de “tragédias” políticas do passado, varrendo a complexidade da história para debaixo do tapete. Março de 1975 e outubro de 1917 são as datas do pecado original, no qual se conceberam todos os males e todos os horrores, restando aos liberais louvar os justiceiros, seja o Jaime Neves na bruma de novembro ou o capitalismo na saga do século contra o pesadelo estalinista.

Em todos estes mitos reside uma tentativa de fechamento de pensamento e um esvaziamento de sentido. Dissipam-se diferenças programáticas de fundo entre os partidos, manipulam-se estatísticas para torcer os argumentos em favor do mercado, apaga-se a heterogeneidade do campo que lutou pela emancipação histórica.  Socialismo ou Liberdade torna-se, assim, o chamado liberal na era do individualismo extremo, onde as práticas coletivas da entreajuda e da solidariedade não têm lugar, posto que a sacralização da via individual para o sucesso não contempla outros caminhos.

O negacionismo discreto da direita bem comportada.

Socialismo ou Liberdade. O grito eleitoral que levou Isabel Díaz Ayuso à presidência da Comunidade de Madrid ecoou na campanha de Carlos Moedas em Lisboa. Mesmo que em clima mais ameno, Moedas tratou de transpor a nova fórmula, alertando para “o regime socialista” que anestesia as pessoas,  merecendo o entusiasmo e o apoio do CDS a um presidente que pode “libertar os lisboetas do socialismo”.  O desgaste da pandemia e a má gestão da crise, nomeadamente na fragilidade das respostas de emergência em sectores particularmente afetados (turismo, restauração, cultura) criaram uma fadiga social em camadas significativas da população, permitindo à direita flertar com a ideia do alívio das restrições.[2] Assim foi em Madrid, assim se conseguiu em Lisboa. Novos tempos, Socialismo ou Liberdade.

Há, todavia, uma linha mais dissimulada de negacionismo discreto que se fez notar na campanha de Moedas. A guerrilha da direita contra as ciclovias, que nada mais é que uma defesa do automóvel, tornou-se um ensaio para a displicência política no que toca à emergência climática. Dar carta branca a um comportamento individual nocivo, cujos impactos são coletivos, torna-se no elogio a uma pretensa liberdade que se sobrepõe às consequências, nomeadamente ao seu impacto climático. Na direita bem comportada, a transição energética e o combate às alterações climáticas servem para nomear pelouros, desde que não ataquem a raiz dos problemas.

Em todas as suas variações e declinações, a direita perdeu a ingenuidade e encontrou o seu lema. Socialismo ou Liberdade é o seu grito de guerra na nova cruzada contra o debate das ideias. Entender isto é compreender que diferentes serão os instrumentos e as escolhas organizativas à esquerda neste combate.

 

[1] Tiburi, Márcia (2015), Como conversar com um fascista, São Paulo: Record.

[2] “Carlos Moedas defende fim das restrições no comércio e na restauração”, ECO (27 de julho, 2021).