Sugestões Culturais

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LIVRO. O Beijo da Mulher Aranha – Manuel Puig

A América Latina possui uma bagagem literária e cultural de grande renome, mas poucos títulos chegam perto de um dos mais puros e desafiantes retratos do subcontinente do que a obra de Puig. Numa pequena cela, a dialética casual entre dois personagens presos pelo regime militar argentino leva o leitor a ter contacto com a natureza de regimes ditatoriais, do conceito da prisão e da própria psicologia dos perseguidos perante a máquina anónima do Exército. No contexto do tema do dossiê, este romance é de grande interesse pela abordagem que faz às relações entre o oprimido e o opressor – assim como as suas violências.

Guilherme Machado, estudante de História na FCSH

 

Frantz Omar Fanon Vive

LIVRO. Em Defesa da Revolução Africana – Frantz Fanon

“O racismo não é um todo, mas o elemento mais visível, mais quotidiano, para dizermos tudo, em certos momentos, mais grosseiro de uma estrutura dada (pág.,37)” Racismo e Cultura in Em defesa da Revolução Africana

Nascido na Martinica – outrora e ainda hoje um departamento francês do “Outre Mer” – combatente voluntário na Segunda Guerra Mundial pela França – participação na qual viria demonstrar a sua desilusão perante o fenómeno racista vivido –, medalhado por bravura em combate, ganha uma bolsa de estudo decidindo estudar Medicina, com especialidade em Psiquiatria, na cidade de Lyon. Forma-se como médico psiquiatra, mas, também, como homem consciente da existência de uma sociedade a ser destruída – “chamo sociedade burguesa toda sociedade fechada na qual não é prazeroso viver-se, onde o ar está poluído e as ideias e pessoas em putrefacção. E penso que um Homem que toma posição contra essa morte é, de certa forma, um revolucionário (Peau noire, masques blancs., pg.,218).

N’Os condenados da Terra retoma, originalmente – analisando concretamente o fenómeno independentista nos países africanos ao qual formalmente tinham acedido – a tese da Revolução Permanente de Trotsky. Entende que as burguesias nacionais nos territórios neo-colonizados seriam incapazes de levar a cabo as tarefas democráticas que, em outras partes do mundo, na Europa nomeadamente, tinham sido levadas a cabo por movimentos revolucionários liderados pelas burguesias europeias: “Não se deve combater a burguesia nacional nos países subdesenvolvidos porque ela pode frear o desenvolvimento global e harmonioso da nação. É preciso opor-se resolutamente a ela porque de forma literal, ele serve para nada”. Antecipa Amílcar Cabral nas teses do lugar da cultura na luta de libertação –  como acto de cultura e factor de cultura – e na crítica às pequenas burguesias alienadas que colocavam a luta pela exaltação e hegemonia de uma dita cultura africana essencialista e alienante, em detrimento da luta política anti-imperialista para a modificação das condições materiais de existência – factor este essencial para a criação de uma cultura “aberta, percorrida por linhas de força espontâneas, generosas, fecundas”( Em defesa da Revolução Africana, pg.,38).

Hoje, mutatis mutandis, a violência política revolucionária do neocolonizado deve ser a antítese perante a violência do mundo neocolonial porque, quer queiramos quer não, a força e a violência continuam a ser as parteiras da História (O Capital, pg.,470).

Yussef – Movimento Africano de Trabalhadores e Estudantes/RGB

 

ÁLBUM. MY AGENDA – Dorian Electra

Dorian Electra, no seu novo álbum “My Agenda”, embarca-nos numa viagem pela cultura LGBTQI+ através da linguagem dos memes e dos kinks, linguagem contemporânea e familiar para quem cresceu na internet.

Este álbum, com toda a perspicácia de um dialético génio liricista e musical, demonstra as incongruências e dissonâncias cognitivas dos papéis de género e da experiência LGBTQI+ no capitalismo, através de hiperpop inovador, deixando para trás quem não está familiarizado com internet culture e os sons que SOPHIE introduziu ao mundo.

Estes novos sons, que têm em si misturados uma certa dose de EDM, são, ao início, difíceis de ouvir, acabando por se enraizar dentro da mente jovem para a qual foram feitos, juntamente com as mensagens críticas e por vezes irônicas das canções. Um álbum para ouvir e reouvir, que primeiro se estranha e depois se entranha.

Francis Salema, ativista trans e músico (ele/elu) 

 

LIVRO. Governar para as próximas gerações: Sucessos e fracassos de políticas de longo prazo em Portugal

Existe hoje em Portugal e na maioria das sociedades do capitalismo tardio uma injustiça intergeracional gritante. Pela primeira vez, as gerações mais novas deixaram de ter a expectativa de uma vida melhor ou pelo menos tão boa com a dos seus pais. Mesmo apesar de estas serem as gerações mais qualificadas de sempre, a precariedade laboral generalizou-se e os empregos para a vida deixaram de ser uma realidade. O desequilíbrio demográfico cria pressões nos serviços públicos e na segurança social e desafia a sua sustentabilidade. Finalmente, os jovens deparam-se com uma caminhada desenfreada para o abismo da crise climática, que coloca em causa a vida no planeta e que exige transformações radicais na forma como a sociedade se organiza.

Muitas destas questões só podem ser eficazmente respondidas com medidas estruturais e de longo prazo. No entanto, há vários fatores que fazem com que reformas deste tipo sejam cronicamente adiadas. Alguns causas são a gestão de riscos políticos em ciclos eleitorais curtos, as assimetrias de poder entre beneficiários e perdedores ou ainda a resistência à mudança, uma vez que os efeitos das políticas de longo prazo são normalmente mais difusos e menos perceptíveis.

Este livro pretende identificar as condições que permitem ou não implementar com sucesso este tipo de reformas, através da análise de dez medidas em cinco áreas – ambiente, saúde, família, segurança social e trabalho – no contexto português. Será a procura de consenso entre governos e oposições determinante? Qual o papel da opinião pública? E da conjuntura internacional? Nesta viagem de conhecimento sobre políticas públicas com âmbitos e níveis de implementação tão diferentes como a descriminalização das drogas, o alargamento da licença parental ou o imposto sobre heranças, podemos perceber melhor as razões para os seus sucessos e fracassos.

João Bernardo Narciso, mestrando em Ciência Política no ISCTE