Teletrabalho e privilégio burguês

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Mafalda Escada, activista estudantil


“Is class a difference that still makes a difference?” (1) perguntou Diana Coole acerca do alegado eclipse discursivo da classe. Ignorando um elemento chave na sua resposta– o “discurso da diferença” – é possível reter pelo menos parte dela. O desenvolvimento económico e tecnológico fragmentou as classes “tradicionais”. Sinteticamente, falamos das classes antagónica e relacionalmente definidas: a burguesia e o proletariado. O conflito capital/trabalho tornou-se menos percetível, mas não menos real, num tempo em que aparentemente cada vez mais “burgueses” vivem do rendimento do trabalho, e não do capital. A resposta fácil a este problema é o místico vocativo da política de centro e de direita, banalizado no discurso mediático – a “classe média”. O recurso exaustivo a esta categoria suplanta o antagonismo de classe e torna kitsch o uso de categorias sociais como “burguesia”. Contudo, a “burguesia” mantém a conotação com o privilégio. Não fosse por isso, não teria sido esta a categoria escolhida para nomear quem está em teletrabalho, de forma a imputar-lhe a responsabilidade de “salvar” os “verdadeiros” explorados, atirados para o desemprego ou com quebra de rendimentos.

Segundo Susana Peralta (2), os setores mais afetados pela pandemia têm os salários mais baixos, como a restauração. Entre os setores menos afetados, encontram-se o trabalho presencial essencial com salários baixos – limpeza, indústria, etc. -, e o teletrabalho com salários mais elevados. Conclui que as profissões mais qualificadas e mais bem pagas são as mais compatíveis com o teletrabalho. Assim, os teletrabalhadores são “burgueses” porque têm rendimentos mais elevados. Mas aponta, e bem, exceções: há trabalhadores presenciais com salários elevados (ex. médicos) e teletrabalhadores com salários baixos, como os operadores de call center, trabalhadores estes que, sim, considera “explorados”. Com as suas diferenças, não serão todos?

Entre março e dezembro de 2020, o consumo de energia subiu 15% no setor doméstico e desceu 18% no setor dos serviços (3). O Kaizen Institute, consultora de recursos humanos, revelou à TSF que 70% dos diretores consideram que a eficiência dos trabalhadores aumentou em relação ao trabalho presencial, e que 85% das empresas não paga ajudas de custo aos trabalhadores (4). O trabalhador passou a pagar custos de produção. A alguns trabalhadores foi mesmo cortado o subsídio de alimentação, substituído por um aumento do salário, inferior ao total do subsídio. Não será por acaso que segundo a mesma consultora, 2/3 das empresas pretendem manter o teletrabalho. Ao custo na carteira soma-se ainda o psicológico. Com, ou sem horário, o que permite conciliar melhor trabalho doméstico e remunerado? Quantos não trocam dias úteis por fins-de-semana, acabando por não ter descanso efetivo; quanto tempo poupado em deslocações se traduziu em mais trabalho, mais zoom? Para todos, a fronteira entre o espaço público e privado dilui-se, os dias confundem-se. Algumas das consequências para a saúde mental têm sido já antecipadas: insónias, ansiedade, depressão, num país em que o consumo de antidepressivos triplicou ainda antes da pandemia e onde o consumo de benzodiazepinas é alarmante (5). Serão estes os rostos do privilégio burguês?

 

Afinal, de que burguesia falamos? Por um lado, a “burguesia” do teletrabalho é uma referência ao imbróglio conceptual da “classe média” a que a ciência dos números, comparando rendimentos, não responde. Erik Olin Wright apontou-a como um conjunto de trabalhadores que, devido à sua relação com a autoridade no processo de produção e elevadas qualificações, ocupam “posições contraditórias dentro das relações de classe” (6). São trabalhadores “diferenciados” de outros, mas não rompem com as relações estruturais de classe que caracterizam o capitalismo. Por outro lado, a “burguesia” como instrumento discursivo é referência provocatória ao léxico marxista para legitimar uma política a que qualquer marxista se oporia: imputar custos sociais aos rendimentos do trabalho (esse grande privilégio!), salvaguardando a acumulação de capital.


(1) Coole, Diana. ‘Is Class a Difference That Still Makes a Difference?’ Radical Philosophy, no. 77 (June 1996).

(2) https://www.publico.pt/2021/03/05/opiniao/noticia/afinal-onde-burguesia-teletrabalho-1953166

(3) https://expresso.pt/opiniao/2021-03-12-Teletrabalho-e-preciso-mudar-a-lei

(4) https://www.tsf.pt/portugal/economia/dois-tercos-das-empresas-querem-manter-teletrabalho-apos-pandemia-85-nao-paga-ajudas-de-custo-13139482.html

(5) https://www.newsfarma.pt/noticias/8667-portugueses-consumiram-mais-de-10-milh%C3%B5es-de-embalagens-de-ansiol%C3%ADticos-num-ano.html

(6) Wright, Erik Olin. ‘Análise de Classes’. Revista Brasileira de Ciência Política, no. 17 (August 2015): 121–63.