Trotsky é um ponto de apoio indispensável

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Artigo de Daniel Bensaïd.


Esse assassinato porquê? Se deixarmos de lado a personalidade perversa de Estaline, teríamos que voltar às últimas batalhas de Trotsky, isto é, todo o período mexicano durante o qual ele travou principalmente três grandes lutas em uma fase de esperanças em declínio.

Ele procurou, em primeiro lugar, evitar qualquer confusão possível entre revolução e contra-revolução, entre a fase de outubro de 1917 e o termidor estalinista. Faz isso organizando, desde a sua chegada ao México, por ocasião do segundo processo de Moscovo, a Comissão Internacional de Investigação presidida pelo filósofo norte-americano John Dewey. Quinhentas páginas de documentos desmontam o mecanismo de falsificação de amálgamas políticos. O segundo combate é a compreensão das amarras de uma nova guerra, numa fase em que os chauvinismos seriam exacerbados e os confrontos de classe, diluídos. Por fim, o terceiro combate, ligado aos precedentes, é o da fundação de uma nova Internacional proclamada em 1938, mas projetada pelo menos cinco anos antes, quando da vitória de Hitler na Alemanha, Internacional que ele não concebeu apenas como o encontro de marxistas revolucionários, mas como uma ferramenta para as tarefas do momento. É nessa obra que Trotsky pôde, naquela época, ser insubstituível.

Tempo de derrotas
Trotsky equivoca-se em suas previsões, ao fazer um paralelo entre os acontecimentos que se seguiram à I Guerra Mundial e os que poderiam resultar da Segunda. O erro reside no facto de que os movimentos dos trabalhadores encontram-se então em situações muito diferentes. Muitos fatores se acumulam na II Guerra Mundial; mas o qualitativo é, sem dúvida, a contra-revolução burocrática da URSS durante os anos 30. Com um efeito de contaminação sobre o conjunto do movimento operário e seu componente mais revolucionário.

Há aí uma espécie de mal-entendido, do qual a desorientação de muitos comunistas franceses em relação ao pacto germano-soviético é a mais perfeita ilustração. Mas derrotas qualitativas se somam, como a vitória do nazismo na Alemanha e do fascismo na Itália, a derrota na Guerra Civil Espanhola, o esmagamento da segunda revolução na China. Acumulado de derrotas sociais, morais e até físicas, que não podemos imaginar. Mas nunca podemos considerar nunca que tudo estava predeterminado.

Um dos erros importantes de Trotsky é ter imaginado que a guerra significaria inevitavelmente a queda do estalinismo, assim como a guerra franco-alemã de 1870 significou o golpe final do regime bonapartista na França. Estamos em 1945, momentos de estalinismo triunfante, com seus aspetos contraditórios. Tudo isso é muito bem ilustrado no livro de Vassili Grossman, “Life and Destiny“, sobre a Batalha de Estalinegrado. Por meio das lutas, vemos aí a sociedade despertar e até escapar parcialmente do empreendimento burocrático. Podemos encarar a hipótese de um relançamento da dinâmica de Outubro. Os vinte anos desde a década de 20 são um intervalo curto. Mas o que o livro de Grossman diz a seguir é chocante. Estaline é salvo pela vitória! Os vencedores não são responsabilizados. É o grande problema para a inteligência da época.

As implicações teóricas são importantes. Na sua crítica ao totalitarismo burocrático, se Trotsky vê muito bem a parte da coerção policial, ele subestima o consenso popular ligado à dinâmica faraônica, mesmo a um preço alto, liderada pelo regime estalinista. Há um ponto esquecido aqui que merece ser retomado.

Dito isso, após a guerra, há a responsabilidade específica dos partidos comunistas. Na imagem da divisão do mundo – o famoso encontro Estaline-Churchill onde eles dividem a Europa a lápis azul – há impulsos sociais importantes ou pré-revolucionários; em França, com forças parcialmente escassas, mas com vantagens em Itália e na Grécia. E aqui podemos falar francamente de traição, de subordinação dos movimentos sociais aos interesses dos aparatos. Isso não significa automaticamente uma revolução vitoriosa, mas uma dinâmica de desenvolvimento e uma cultura política do movimento operário que é certamente diferente. O que traz outras possibilidades. Devemos lembrar também o famoso “é preciso saber acabar com uma greve” do secretário do PCF, Maurice Thorez, ou a atitude do PC italiano na época do atentado contra Togliatti, em 1948. Mas o pior e mais trágico foi a derrota da revolução espanhola e o desarmamento da resistência e da revolução grega. Depois veio o veto estalinista ao projeto da Federação dos Balcãs, então a única solução política face à questão das nacionalidades nos Balcãs.

O necessário e o possível
Em suma, o destino trágico de Trotsky ilustra a tensão entre o necessário e o possível. Entre a transformação social que responde aos efeitos de um capitalismo decadente e as possibilidades imediatas. Já descobrimos isso lendo a correspondência de Marx. Quanto à contribuição teórica e estratégica de Trotsky, esta é considerável. Principalmente na análise do desenvolvimento desigual e combinado das sociedades, começando com a Rússia em 1905 ou a perceção das modalidades atuais do imperialismo. Mas onde é insubstituível, apesar das lacunas, é na análise do fenómeno da contra-revolução estalinista, sem precedentes na sua época e dificilmente compreensível.

Desse ponto de vista, Trotsky é um timoneiro. O que não é uma referência piedosa ou exclusiva. Pelo contrário, temos a tarefa de transmitir uma memória pluralista do movimento operário e dos debates estratégicos que o percorreram. Mas nessa paisagem e nessa travessia perigosa, Trotsky é um ponto de apoio indispensável.