Twitter: Comunicação política ou cacofonia social?

image_pdfimage_print

Artigo de Andreia Galvão.


 

“A tarefa da pragmática universal é identificar e reconstruir as condições universais do entendimento mútuo possível”, Jurgen Habermas

O diálogo tem sido visto de formas drasticamente diferentes por vários autores que a tentaram conceptualizar. O ramo da comunicação política tentou conciliar as visões de comunicação de Foucault e Habermas que partilhavam pontos em comum na necessidade de repensar a participação democrática de modo a que excedesse os momentos eleitorais. Os autores, no entanto, divergiram na forma como enquadram o diálogo. Foucault, um libertário radical, seduz-nos com a ideia de ética da resistência, paradigma onde mudou o tom do seu trabalho de vida, procurando olhar para o modo como é possível um sujeito libertar-se das amarras estruturais de modo a explorar a sua individualidade, definindo-se por si próprio. Olhava para o diálogo, então, como um espaço confortável onde os sujeitos se apresentam exatamente como são, sem constrangimentos criados pelas assimetrias de poder. Esta expressão radical do sujeito veio, no entanto, abrir caminho para a exaltação da individualidade no espaço público.

Isto fez-nos chegar a um enorme problema comunicacional: no meio de tanta conversa perdemos o entendimento? A capacidade de chegar a pontos comuns, a compromissos coletivos? O Twitter tem sido um palco para este mesmo olhar. Com poucos caracteres cada um pode falar no espaço público. Imaginamos o modo como as redes sociais nos libertariam das amarras sociais, permitindo uma difusão policêntrica do diálogo social que nos permitiria atingir uma sociedade mais justa e igualitária, do ponto de vista comunicacional. E trouxe muitas mais-valias – pensemos na forma como tem potenciado o ativismo – como, por exemplo, o movimento climático, o BLM e #MeToo. Sem as redes sociais estes eventos nunca teriam explodido socialmente.

No entanto, temos verificado uma dinâmica inversa – um espaço desregulamentado do ponto de vista informativo que permite facilmente a difusão das fake news, uma semi tentativa de fabricação da realidade. Debates que devem ser tidos à luz dos órgãos específicos para a sua resolução agora centram-se na rede como uma plataforma de denúncia. Este esbatimento entre a realidade e o ficcional já tem produzido efeitos. Por exemplo, vários estudos já afirmam que os jovens estão cada vez menos capazes de distinguir opiniões de factos. E isto é um grave problema social. A incapacidade de distinção de factos comprovados, com argumentos e métodos, de opiniões apenas comprovadas pelas vozes que habitam as nossas cabeças gera um problema paradigmático no sentido da descrença da ciência, do próprio conhecimento.

Os novos media parecem estar a envelhecer cada vez mais rapidamente, sendo velozes a captar os vícios dos media tradicionais – as forças que dominam este espaço, desta vez, sem qualquer verificabilidade informativa – põem em causa uma nova geração cada vez mais conectada com as redes sociais, que ultrapassou a pandemia graças aos ecrãs que têm vindo a ocupar, a tomar as nossas vidas. Tornaram-se as redes uma forma de projetarmos um mundo ou um intermédio que fabrica uma realidade (sem o nosso controlo ou consentimento) transformando a potencial capacidade dialogal numa cacofonia social?