Um manual para combater a direita clickbait

Artigo de Adriano Campos.


Já sabemos da origem, do método e dos resultados. Uma abençoada candidatura pela mão do PSD à câmara de Loures e a afirmação de uma abrutalhada imagem futeboleira na praça pública abriu-lhe as portas. A escolha cirúrgica dos temas e a aposta numa campanha concentrada na região da grande Lisboa permitiu-lhe surfar em setores muito particulares durante o período eleitoral. O esfarelamento do voto à direita do PSD completa o quadro que levou André Ventura a sentar-se na Assembleia da República e a lá tentar a sua sorte como líder de um partido de extrema-direita em formação. Nos próximos tempos, esta nova cavalgadura do quadro parlamentar fará ainda pior do que esperamos. Todas as semanas, uma estridente proclamação antissistema, a cada sessão, o perfume rústico da misoginia, em cada debate, a rotulagem racista no ataque ao Estado social. Vai haver muita gritaria e uma comissão de festas instalada nas equipas editoriais pronta a envenenar o debate público. Perante esta novidade, há pelo menos quatro notas para um pequeno manual de como combater esta ameaça.

1. Entender o fenómeno antes de disparar.

O modo e o conteúdo desta nova direita em Portugal são distintos do que tivemos no passado. Não há uma exaltação armilar de um passado imperial ou a promessa de um regresso ao respeitinho salazarista como solução dos males de hoje. Há sim um guião: o tema da corrupção e do privilégio político (redução do número de deputados), a estigmatização das minorias e o fantasma da falta segurança (ataque à comunidade cigana), o moralismo misógino assente na retirada de direitos (abortos fora do SNS). É, portanto, também diferente de fenómenos extremistas que crescem em outras paragens. Não surge de um impasse constitucional e de soberania (Estado espanhol) ou de uma tensão em torno das políticas de imigração. Não existe hoje em Portugal uma doutrina mobilizadora de fundo fascista assente na projeção de uma identidade coletiva (nós) e num princípio de oposição (eles) capaz de capturar maiorias eleitorais. Existe um problema de racismo e preconceito (desigualdade estrutural), uma dificuldade de representação (democracia de baixa intensidade e desarticulação sindical) e uma fragilidade dos direitos económicos e sociais (deterioração dos serviços públicos e precariedade laboral). É desta análise que partimos e respondemos ao que precisa ser feito.

2. Não alimentar a técnica da direita clickbait.

Para crescer, esta nova direita precisa de pânico e medo como de pão para a boca. Da noite para o dia se lança uma petição polémica, como rapidamente se atiram notícias falsas sobre figuras e partidos. A propagação de ataques de ódio tem nas redes sociais o seu instrumento mais eficaz. Não só quem adere às ideias falsas partilha e dissemina como quem discorda e se espanta não resiste a um movimento de denúncia, “já viram esta alarvidade publicada por este fulano? ”. Provavelmente todos fizemos já isso pelo menos uma ou duas vezes. Temos que parar. Não se trata de virar a cara ou recusar a solidariedade devida às vítimas do ataque. Não largamos a mão de ninguém. O problema da partilha de uma imagem de ódio ou de uma notícia falsa, mesmo para a denunciar, é que, na maioria dos casos, a imagem e identidade do emissor original facilmente se perde no manancial de partilhas e cliques. A dado momento, já não sabemos quem jurou ver a etiqueta do relógio de 20 milhões da Catarina Martins e estamos apenas a discutir o caso do relógio de 20 milhões da Catarina Martins. É ineficaz como denúncia, envenena o debate já muito tóxico das redes e não sabemos quem estamos a combater.

3. Enfrentar os monstros e não deixar nenhuma conversa por fazer.

A contenção na partilha não significa uma estratégia de cabeça enfiada na areia. A denúncia e desconstrução do artigo racista de Maria de Fátima Bonifácio foi fundamental num tempo em que os postilhões da direita aflita arriscam mais do que nunca. Significa não abdicarmos da disputa em afirmar um centro de debate político que importa aos direitos das pessoas. Quando alguém invoca uma pertença nacional ou um traço racializado para atacar um representante político, a resposta só pode ser a afirmação e a força do voto popular que lhe concede legitimidade e nunca a equiparação do ataque de ódio como continuação lógica das desigualdades estruturais. A obrigação da esquerda é denunciar os ataques, mas é, acima de tudo, desmascarar a pandilha que tenta o assalto. André Ventura não pode denunciar o sistema, pois André Ventura foi até há muito pouco tempo um representante da direita sistémica troikista que cortou direitos e salários, não pode clamar justiça quando é alvo de processos por ataques de ódio, não pode invocar os direitos para uma “maioria” quando quer destruir os serviços públicos. É esse o debate que importa fazer com todos e todas que se deixem encantar pela pose do justiceiro ou pelas bugigangas ideológicas deste vendedor de banha da cobra.

4. Mobilizar uma resposta social e coletiva pela transformação.

A “ridicularização da política” com uma isca estética tem certamente um pendor de captura do imaginário coletivo num tempo de ameaças, como afirma Márcia Tiburi. Importa, portanto, combater no plano das ideias, mas não esquecer a necessidade de avançarmos numa resposta de mobilização coletiva contra o crescimento da extrema-direita no país e no mundo. Há ensaios e experiências que importa não deixar cair. Nos casos de violação dos direitos e no surgimento de figuras tenebrosas em outras partes do mundo, a mobilização e demonstração de solidariedade em Portugal representa um elo importante de resistência. Existem hoje redes de solidariedade mais ou menos informais em algumas comunidades de imigrantes, e uma urgência na sua organização sindical, em particular no setor “uberizado”. O trabalho de base que falta perante uma fulgurante adesão das mais novas aos ideais feministas e o impulso à luta antirracista continuam a ser uma urgência de organização e uma resposta à construção de maiorias contra o conservadorismo. São essas maiorias em temas concretos de emancipação e conquista de direitos as mais eficazes vacinas contra o discurso de ódio da direita clickbait.

Outra dimensão, mais perigosa e clandestina, passa por perceber a atração que as redes de ódio podem exercer em alguns grupos profissionais (forças policiais), na captura que fazem de um justo discurso reivindicativo (direitos salariais, por exemplo) enquanto constroem uma perigosa rede sindical e social capaz de mobilizar setores significativos, ao qual não podemos responder apenas com silêncio. Por fim, a força que um projeto socialista, combativo e transformador representar nos próximos tempos será decisivo na defesa dos direitos contra a política do medo e os devaneios extremistas da direita tradicional. O Bloco de Esquerda sabe da sua responsabilidade e papel nesta batalha. Não foge aos seus compromissos.