Um novo momento para o feminismo

Artigo de Justa Montero.


As greves feministas, que se iniciaram em 2016 com o apelo do movimento feminista argentino, a que se somaram muitos outros países, são testemunho do novo momento da interpelação feminista. Vários elementos podem ajudar à leitura deste caminho. Um deles é a análise feminista da complexidade e da profundidade da crise e do seu impacto na vida e nos corpos das mulheres. Supõe falar do aprofundamento da divisão sexual do trabalho, da privatização dos cuidados nas famílias, com o aumento da carga de trabalho para as mulheres e a deterioração das condições de trabalho para quem as realiza (desde as mulheres em casa, ao trabalho doméstico assalariado e ao dos serviços sociais). É o resultado da inibição do Estado e dos homens desta responsabilidade.

Esta análise estabelece também a relação entre produção e reprodução social como parte do mesmo processo económico e abre alternativas para politizar a reprodução e discutir a centralidade dos cuidados, com a consequente mudança do paradigma económico. Ou seja, trata-se de discutir a articulação entre o patriarcado e o capitalismo racializado, no contexto neoliberal. Alguns dos seus efeitos são o aprofundamento das desigualdades, o ataque a todo o projeto coletivo como o que representa o feminismo porque critica o sistema e a mercantilização de todos os aspetos e espaços da vida. Também supõe um reforço do Estado autoritário, que necessita de maior violência institucional para impor a sua solução para a crise.

As mulheres no cruzamento das relações de poder

Outro elemento que explica a evolução do feminismo é o processo de criação dos conflitos que atravessam a vida das mulheres. (…) Falamos de um feminismo anticapitalista e antirracista que não entende a diversidade como a soma de identidades particulares, nem como uma desculpa para estabelecer hierarquias de opressões, mas que tenta compreender como operam essas hierarquias sociais nas condições materiais de vida e na subjetividade das mulheres.

Esta perspetiva amplia da forma explícita o sujeito do feminismo, atravessado pelo reconhecimento desta diversidade e pelo reconhecimento da ação das mulheres, da sua capacidade de tomar a palavra e a expressar. Como assinala Chandra Mohanty, “situar-se no privilégio é o que alimenta a incapacidade de ver as que não beneficiam dele”; contra esse risco somos alertadas pelas mulheres que o sistema exclui e criminaliza, as que sofrem novas formas de exploração, as trabalhadoras do sexo que estão organizadas, as mulheres racializadas, as que mulheres que decidem pôr o véu ou as mulheres trans. A diversidade e a perspetiva intersecional é o que está a dar um significado global ao feminismo, ao impacto social da mobilização e à proposta feminista.

Um novo internacionalismo feminista

O último elemento que explica esta nova vaga feminista é o novo internacionalismo. Conectadas em redes e encontros, a política do contágio ampliou os seus horizontes a partir dos feminismos locais. Traduz no feminismo a relação que o capital estabelece entre o Norte e o Sul globais. São as cadeias globais de cuidados que transferem as mulheres do Sul para os cuidados das mulheres do Norte e das suas famílias. São os efeitos das empresas extrativistas do Norte global para se apropriarem das terras e recursos em países como os centro-americanos, onde assassinam as defensoras das terras e dos direitos humanos, ou as feministas, ou as expulsam dos seus territórios e as obrigam a emigrar. São as violências que ultrapassam fronteiras para a exploração sexual.
O internacionalismo, tecido em práticas feministas transnacionais, coloca em questão estas situações e as suas soluções, sem cair em armadilhas que tentam justificar, em nome dos direitos das mulheres, as políticas militaristas, invasões de países, políticas anti-imigração e islamofóbicas.

O feminismo articula lutas a partir das reivindicações mais concretas, pondo em cima da mesa uma proposta global e propondo um novo sentido comum que impugna o que rege a lógica capitalista e neoliberal.


Justa Montero faz parte da Assembleia Feminista de Madrid e da Coordenadora nacional de organizações feministas. Extratos de um artigo publicado na revista Viento Sur