1Um samba
Que tal um samba?
Puxar um samba, que tal?
Para espantar o tempo feio
Para remediar o estrago
Que tal um trago?
Um desafogo, um devaneio(…)
De novo com a coluna ereta, que tal?
Juntar os cacos, ir à luta
Manter o rumo e a cadência
Esconjurar a ignorância, que tal?
Desmantelar a força bruta
Então que tal puxar um samba
Puxar um samba legal
Puxar um samba porreta
Depois de tanta mutreta
Depois de tanta cascata
Depois de tanta derrota
Depois de tanta demência
E uma dor filha da puta, que tal?
Puxar um samba
Que tal um samba?
Um samba(Chico Buarque, “Que tal um samba?”)
Feliz do povo que tem entre os seus um compositor como Chico Buarque. Sua obra se mantém atual e tem servido de bálsamo para que suportemos estes tempos tristes em que vivemos. O que seria de nós sem “Apesar de você”, “Vai passar” e tantas outras pérolas que cantamos ontem e hoje. E foi em 2022, meses antes de um processo eleitoral decisivo para o futuro do Brasil, que Chico compôs um samba-de-lavar-a-alma pra “espantar o tempo feio” e “desmantelar a força bruta”, propondo “um samba porreta” “depois de tanta mutreta” e “depois de tanta derrota”. Naquela então nova canção o compositor sugere, “pra remediar o estrago”, “que tal um samba?”.
A inspiração estava diretamente ligada à conjuntura brasileira, cuja democracia esteve (e está) francamente ameaçada, em um país cujas classes populares, celeiro dos sambistas, têm sofrido perdas sociais e econômicas brutais, provocadas pelas medidas neoliberais reiteradas desde os anos 1990. Elas favorecem largamente as classes dominantes – especialmente o grande capital nacional e estrangeiro, os modernos coronéis do agronegócio e da mineração –, enquanto que os trabalhadores e trabalhadoras do campo e da cidade veem crescer a fome, o desemprego, a escassez de moradia e a terrível violência rural e urbana, que, nesta república das milícias e dos jagunços, condena literalmente à morte centenas de pessoas todos os dias. É um quadro deveras desconcertante e desanimador, para cuja superação, no entanto, a lição otimista do inesquecível samba de Noca da Portela e Gilper2 merece ser evocada: “Vamos lá, rapaziada! / Tá na hora da virada / Vamos dar o troco!”
Um sambista arguto e consciente já expressara, nos anos 70, com rara lucidez e tirocínio, que “os direitos humanos são iguais / mas existem as classes sociais”3. De fato, o processo de concentração de renda e riqueza que a ditadura auspiciou entre as décadas de 60 e 80 gerou uma das sociedades mais iníquas do planeta, gerida por uma burguesia voraz e insaciável – uma autêntica colônia de cupins de demolição, que corrói há séculos os instáveis pilares desta trôpega nação. É por isso que, embevecidos com o compositor Zé Katimba, levantamos a “bandeira da fé”, cônscios de que o nosso caminho é a resistência organizada e criativa de uma gente que concebeu uma das mais ricas expressões culturais do país: o sambae suas férteis matrizes. E, tal qual o artista paraibano, compartilhamos a certeza de que, “para reconquistar os direitos, temos de organizar um mutirão, derrubar os preconceitos e a lei do circo e pão”4.
E é por isso que não há como elidir nossa admiração por esse gênero que fugiu da chibata dos feitores nas fazendas e vicejou nos morros e nas áreas periféricas do Recôncavo Baiano e do Rio de Janeiro, tornando-se uma potente expressão cultural do povo brasileiro – e que vai muito além da sua transformação, por obra das classes dominantes, em uma espécie de ícone de uma assim chamada “identidade nacional”. Excluídos historicamente dos meios educacionais formais, os seus expoentes ajudaram a tornar a gente brasileira num povo musical que, por meio de suas obras, lê e interpreta o Brasil, suas mazelas e suas belezas.
Ao nos propor um samba “para espantar o tempo feio”, ali às vésperas das eleições de 2022 em que se confrontaram Lula e Bolsonaro, Chico Buarque evoca a potência do gênero que, desde outras conjunturas, ofereceu-nos obras de rara beleza melódica e poética como a que se pode ler abaixo:
O Brazil não conhece o Brasil
O Brasil nunca foi ao Brazil
Tapir, jabuti, liana, alamanda, alialaúde
Piau, ururau, aqui, ataúde
Piá, carioca, porecramecrã
Jobim akarore Jobim-açu
(…)O Brazil não merece o Brasil
O Brazil ta matando o Brasil
Jereba, saci, caandrades
Cunhãs, ariranha, aranha
Sertões, Guimarães, bachianas, águas
E Marionaíma, ariraribóia
Na aura das mãos de Jobim-açu
(…)Tinhorão, urutu, sucuri
O Jobim, sabiá, bem-te-vi
Cabuçu, Cordovil, Cachambi, olerê
Madureira, Olaria e Bangu, Olará
Cascadura, Água Santa, Acari, Olerê
Ipanema e Nova Iguaçu, OlaráDo Brasil, SoS ao Brasil
Do Brasil, SoS ao Brasil(“Querelas do Brasil”, de Aldir Blanc e Maurício Tapajós).
Os versos são de uma pérola da canção popular brasileira, lindamente cantada por Elis Regina, composta pelo genial Aldir Blanc em parceria com Maurício Tapajós, em 1978. Denunciam um certo Brazil que despreza e destrói as “coisas” do Brasil – nossa gente, nossa cultura, nossos lugares, nossas línguas. Tendo surgido em meio às lutas pela democracia no país naqueles finais dos anos 1970, é impactante reconhecer, após quase meio século, como a obra permanece tristemente atual, o que prova a grandeza artística de uma canção que continua universal e a miséria de uma realidade nacional que mantém vivos os versos dos compositores.
Após vivermos no Brasil sob um governo cujo mandatário, Jair Bolsonaro, um indisfarçado fascista, atacou os frágeis institutos democráticos nacionais, é imperioso que recordemos a história – ainda mais porque, mesmo após sua derrota eleitoral, julgamento e prisão, manteve-se vivo e ativo o bolsonarismo como força política que se constituiu como expressão brasileira das hordas neofascistas que grassam no mundo atual. É importante que não se esqueça que em boa parte do século XX o Brasil foi palco de inúmeros eventos políticos que nos levaram a interrupções da democracia, quase sempre por meio de golpes arquitetados pelas classes dominantes. Historicamente, elas buscaram adotar um modus operandi de permanente contrarrevolução preventiva como forma de abortar todo tipo de movimento que ameaçasse suas posições políticas e econômicas – desde os mais abertamente revolucionários até os timidamente reformistas, como foram os recentes governos do PT. Em todos os casos, o fascismo esteve sempre à espreita. Como está hoje.
Se fôssemos prosseguir aqui nesta recapitulação histórica, estaríamos exagerando as linhas de um breve artigo. No entanto, elas nos servem para mostrar que a democracia na história brasileira já foi pisoteada por coturnos fascistas bem piores que os atuais. O liberalismo à moda brasileira não teve vergonha nenhuma de se acasalar com o atraso, herdando o horror da escravidão e operando por meio de soluções políticas “pelo alto” que, historicamente, excluíram os “de baixo” dos processos políticos mais relevantes. A Independência de 1822, a Abolição de 1888, a Proclamação da República de 1889, a Revolução de 1930, o golpe de 1964, são, todos eles, exemplos históricos indeléveis de “revoluções pelo alto” sem a participação massiva dos “de baixo”. Não diríamos que em todos esses episódios o povo esteve bestializado. O que se deu historicamente foi um processo de conciliação pelo alto que excluiu as massas, ora cooptadas e, sistematicamente, reprimidas quando se rebelou. Em todos esses momentos históricos o samba e os sambistas tiveram papel importante, claro que de modo não homogêneo, como é característico de qualquer manifestação artístico-cultural.
De toda maneira, o samba, como forma popular de aguda e jocosa crítica política e de costumes, contribui para desvelar as máscaras sociais e denunciar, com engenho e arte, as mazelas e misérias desta claudicante pátria inscrita em uma experiência socioespacial em que se entrelaçam a modernização capitalista com relações de trabalho herdadas da escravidão e também se mesclam o moderno e o arcaico – contradição perfeitamente figurada por Wilson Batista na popular canção “Bonde de São Januário”5 e genialmente sintetizada por Noel Rosa no verso “coisa nossa… muito nossa”6.
Não foi por acaso que Franklin Martins, em seus três volumes de Quem foi que inventou o Brasil?7 (um exaustivo estudo sobre as canções que “escreveram” a crônica musical do país desde 1902 até 2002), concedeu ao gênero uma deferência inequívoca. Embalado pelos sambas e pela verve de Noel Rosa, Lamartine Babo, Wilson Baptista, Ary Barroso, Zé Keti, Paulinho da Viola, João Bosco, Aldir Blanc, João Nogueira, Noca da Portela e tantos outros, o pesquisador logrou recapitular a história da nossa República por meio das criações desses grandes compositores brasileiros.
Em meio a tantos temas essenciais da vida pública nacional, é importante evidenciar o enlace do samba com a bandeira da democracia num país cevado no antigo regime colonial da “casa-grande e senzala”. De fato, após a farsa da Abolição da escravidão e da Proclamação da República, ao final do século XIX, o Brasil continuou a ser o paraíso das oligarquias, tornando-se, a partir do Estado Novo de Vargas, pasto gentil do grande capital que explora milhões de trabalhadores e trabalhadoras e dilapida as riquezas de nossa terra. Essa evolução capitalista de notória feição prussiana, em que o novo se revela tão somente uma versão repaginada das velhas estruturas de poder, enseja, inevitavelmente, resistência e rebeldia das classes populares, expressas não apenas por meio de greves, guerrilhas e insurreições, mas também pelo humor ferino e corrosivo de nossos artistas. E, no caso do samba, muitas vezes, por uma incisiva participação na linha de frente da luta pela justiça social e pelos direitos dos trabalhadores, em defesa das liberdades democráticas e da soberania nacional.
Assim, de Noel Rosa a Noca da Portela, esses “cronistas do Brasil”, legítimos epígonos da linhagem que forjou Gregório de Matos e Lima Barreto, retratam a pilhagem de nossos abundantes recursos, erguem suas vozes contra a opressão e se atrevem, mesmo sob o tacão da ditadura, a conclamar o povo para “dar o troco”, anunciando em seus versos a tão sonhada “hora da virada”. Esse papel de vanguarda da resistência ao arbítrio nem sempre tem sido devidamente sublinhado por historiadores e jornalistas, que, ao evocar os “anos de chumbo”, costumam privilegiar outras vertentes musicais que afrontaram, cada qual a seu modo, a opressão e a violência do regime. É comum se celebrar a sanha iconoclasta da Tropicália em resposta à caretice dos militares, ou a explosão da juventude estudantil nos festivais da TV (que fizeram de Geraldo Vandré e Sérgio Ricardo ícones da luta armada).
Mas que espaço está reservado aos bambas das “Noitadas de Samba” do Teatro Opinião, que, de 1971 a 1983 (em plena ditadura!), desvendaram, em versos belos e potentes, a falácia do “Brasil do milagre” (indagando, como Noca & Gilper, “de que adianta trabalhar demais, se o que eu ganho é pouco” e advertindo-nos que “quem tem muito tá querendo mais e quem não tem tá no sufoco”)? E o que dizer do “Clube do Samba” criado em 1979 por João Nogueira, uma experiência riquíssima de festa e de luta pela cultura brasileira num contexto contraditório em que estávamos imersos numa luta pela redemocratização da sociedade brasileira que, com a Anistia, se reforçaria com aqueles “que partiram num rabo de foguete”? O “Clube” de Nogueira tinha alvos muito claros: a luta pela democracia e a valorização do samba e de nossas expressões culturais em meio a uma brutal estrangeirização da música capitaneada pelas forças do mercado.
Já a valorização da cultura afro-brasileira teve em 1988 um dos seus momentos mais gloriosos. Foi quando a Unidos de Vila Isabel se sagrou campeã em um histórico desfile com enredo assinado por Martinho da Vila, cujo samba (escrito por Jonas, Rodolpho e o inesquecível Luiz Carlos da Vila) figura entre os mais lindos de todos os tempos. “Kizomba, Festa da Raça” consagrou a nova direção da agremiação encabeçada por Lícia Caniné, a Ruça, militante do PCB que buscava, justamente, realizar um carnaval que afirmasse uma leitura crítica do centenário da assim chamada “Abolição”.
Esses são apenas alguns exemplos da contribuição do samba. Um gênero que historicamente nos ajudou a entender o Brasil por meio da crítica social, ora jocosa, ora lamurienta. E que também forneceu com suas criações obras que serviram à luta pela democracia em tempos (os de agora e os de outrora) de arbítrio.
- Luiz Ricardo Leitão é Professor da UERJ, autor de vários livros, entre os quais Gramática Crítica: o culto e o coloquial no português brasileiro (5ª ed., 2016) e Rosa Magalhães: a moça prosa da avenida (2020).
Marcelo Braz é Professor da UFRN e da UFRJ, autor, entre outros, de Economia Política: uma introdução crítica (coautoria com José Paulo Netto, 7ª. ed., 2011) e Noca da Portela e de todos os sambas (2018). Organizou com L. R. Leitão a coletânea Samba, Democracia e Sociedade (2022). ↩︎ - Virada (1981). ↩︎
- A Humanidade (1974), de Aluísio Machado. ↩︎
- Versos da canção Bandeira da Fé (1983), de Martinho da Vila & Zé Katimba. ↩︎
- Bonde São Januário, de Ataulfo Alves e Wilson Batista (1940). ↩︎
- São Coisas Nossas, de Noel Rosa (1932) ↩︎
- Quem foi que inventou o Brasil? A música popular conta a história da República. Volume I – de 1902 a 1964; Volume II – de 1964 a 1985; Volume III – de 1985 a 2002. Todos publicados em 2015 pela editora Nova Fronteira, do Rio de Janeiro. ↩︎