Uma Casa para os Artistas Unidos

Texto de Inês Vilão

Os Artistas Unidos nasceram em 1995 como companhia de teatro portuguesa, pelo encenador Jorge Silva Melo, com a peça “António, um Rapaz de Lisboa”. A companhia conta com inúmeras peças encenadas, realização de filmes, exposições, seminários, entre outros. O seu espaço de apresentação ao público é o Teatro da Politécnica, junto ao Jardim Botânico de Lisboa.

Com a morte de Jorge Silva Melo, no passado dia 14 de março, os Artistas Unidos entraram em crise. A Universidade de Lisboa quer reaver o espaço do Teatro da Politécnica forçando esta prezada companhia a encontrar um novo lugar, sob a ameaça da não renovação do contrato de arrendamento. Os Artistas Unidos há vinte anos que não têm uma casa fixa ou estável, obrigando mais uma vez, especialmente depois do adeus a Jorge Silva Melo, a procurar uma casa.

A Câmara Municipal de Lisboa comprometeu- se a arranjar uma solução, contudo desde 2002 que nada foi feito. A companhia já passou por vários espaços. Segundo Luís Ferreira, reitor da Universidade de Lisboa, estão a ser feitos esforços, em conjunto com a Câmara Municipal de Lisboa, para encontrar um novo espaço para a companhia de teatro, na medida em que o atual tem agora a urgência de guardar uma coleção de material zoológico. O contrato de arrendamento cessa em fevereiro de 2023, podendo vir a provocar o fim da companhia.

No passado dia 6 de abril, os Artistas Unidos reuniram- se com o Vereador da Cultura da Câmara Municipal de Lisboa. Dr. Diogo Moura quer arranjar uma solução estável, contudo nenhuma proposta clara e direta terá sido apresentada. Tudo continua igual: incerto, imprevisível e intolerável. Perante esta situação, é impossível não questionarmos sobre o porquê de desde 2002 os Artistas Unidos nunca terem encontrado uma morada fixa. Com tantos esforços da Câmara Municipal de Lisboa, seria de esperar que, vinte anos depois, isto já não fosse um problema. Para além de que seja estranha a decisão da não renovação de contrato, logo após a morte de Jorge Silva Melo. Mais do que esta companhia estar em risco iminente de ficar sem casa, também tem de lidar com a morte do seu fundador, tudo em simultâneo. O que fez mudar a morte de Jorge Silva Melo? De repente, o espaço da politécnica tem de ser um armazém de material zoológico? Sem uma proposta concreta de um novo espaço para a companhia? Questões que a Universidade de Lisboa e a Câmara Municipal tendem a fugir.

É de conhecimento geral o estado da cultura em Portugal. O famoso 0,5 de IRS parece que não é prova suficiente da precariedade da cultura no nosso país, tendo a pandemia vindo agravar esta situação. Para além da falta de apoios do estado ao setor da cultura, a falta de resposta da Câmara Municipal de Lisboa só demonstra a desvalorização contínua que o governo tem prestado. É urgente alterar o panorama geral da cultura em Portugal, dar apoios, financiar projetos, impedir a cessão de contratos de arrendamento, pagar com dignidade aos nossos artistas.

É triste ver que a cultura, mais do que desvalorizada, seja envergonhada desta maneira. É urgente uma proposta assertiva e clara do futuro da companhia dos Artistas Unidos. É necessário prestar homenagem a Jorge Silva Melo e assegurar uma nova casa aos Artistas Unidos, uma casa fixa e permanente. A Câmara Municipal de Lisboa tem um compromisso para com a cultura que tem de fazer cumprir. A cultura tem de ser protegida e salvaguardada, e não gerida como uma entidade privada, onde a arbitrariedade reina.

A realidade que a companhia está a viver é um autêntico pesadelo, uma incerteza, um desrespeito para com quem trabalha há décadas, acreditando num projeto comum que são os Artistas Unidos. Antes do espaço do Teatro da Politécnica, que a companhia ocupa desde 2011, os Artistas Unidos estavam sediados n ‘A Capital, que também, pela ordem da Camara Municipal de Lisboa, se viram obrigados a sair do Bairro Alto. Esta situação não é nova, é uma triste repetição do que se sucedeu no passado. Vinte anos depois, a precariedade mantém-se, não há soluções práticas e eficientes, e a cultura agrava-se. A Câmara Municipal já se tinha anteriormente comprometido a arranjar uma morada permanente para a companhia, provando só a falta de compromisso e seriedade que estamos habituados a ver. Estamos perante uma crise de valores e prioridades.

Os Artistas Unidos são ainda responsáveis pela coleção de Livrinhos de Teatro da editora Cotovia, dão casa a espetáculos e exposições, e são o legado de trabalho de Jorge Silva Melo. Temos todos um compromisso, para com esta companhia, de lutar em prol dos seus direitos e do futuro do teatro em Portugal.