Uma história de resistência contracultural nos anos de consolidação do neoliberalismo: Don Letts, os Clash e a música como contrapoder

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Artigo de Hugo Monteiro


 

Talvez nada como a música tenha registado e eternizado, para grandes massas, as emergências do tempo, as formas não hegemónicas de expressão, as identidades emergentes, em debate com as inculcações valorativas dos poderes. Talvez por isso mesmo, enquanto arte popular, formativa e identitária, debata-se com a sua docilização: pela indústria, pelo mercado, pela conversão ao capital.

No recentemente publicado There and black again, o músico cineasta e agitador cultural Don Letts, jovem racializado na Inglaterra que preparava os anos Thatcher, fornece um instantâneo do seu tempo. Ainda antes da sua relativa notoriedade, a figura de Letts massificou-se através de uma fotografia tirada por Rocco Macally, nos motins de 1976 em Notting Hill, em que surgia em pose de aparente desafio face ao aparato policial. A foto serviu de capa a um álbum dos The Clash, banda cujo percurso foi acompanhando a par e passo. Foto e música refletem-se, como uma espécie de ilustração do racismo sistémico, que proliferava nos anos 70. 

 

Letts e os Clash

Letts reitera, no livro, o peso quotidiano do racismo nos seus anos de formação através de uma curiosa confrontação com o que, na mesma época, se vivia nos EUA, na sequência das lutas pelos Direitos Civis. Afirma Letts que, “no Reino Unido, tínhamos racismo sistémico, mas não racismo legal”. A sinuosidade desse mesmo racismo, próximo daquele que hoje combatemos, impõe a centralidade do combate contracultural na luta antirracista. Um combate pelo senso comum, em que as alianças são necessárias e o “lugar de fala” precisa de dispositivos de disseminação. A proximidade entre Letts, jamaicano de segunda geração na Londres suburbana dos anos 70, e os Clash, banda de ingleses brancos que integram, intencionalmente, discurso antirracista com a influência da música negra, descreve uma história contracultural de resistência, irrepetível em si mesma, mas capaz de ilustrar um combate contra a estabilização dos discursos de polarização, que naturalizam e favorecem sistemas de desigualdade ao nível das classes populares. 

 

Cultura e contraculturas

Os Clash surgem na cena cultural inglesa no contexto de uma crise social e política de grandes proporções no Reino Unido. Quando a banda é fundada, em 76, o governo trabalhista lidava com uma crise de Finanças Públicas e com uma escalada de descontentamento transversal às classes trabalhadoras britânicas, que a extrema-direita tentava capitalizar a seu favor. O descrédito generalizado da classe política, com a descrença nas instituições e processos democráticos associada à rejeição xenófoba e racista das minorias, arriscava a tornar-se sistémico e a reavivar o espectro do fascismo. Por esta altura, também, o movimento punk era uma das respostas culturais que, entre jovens, traduzia um pessimismo generalizado quanto a um presente sem esperança e ‘sem futuro’. Todo o período de atividade dos Clash acompanha este momento de reorganização do cenário político, que confluirá na ascensão e consolidação do poder de Thatcher, em Inglaterra, e de Reagan, nos Estados Unidos, corolários simbólicos de uma hegemonia neoliberal triunfante e mundializada. O quotidiano das pessoas mais pobres foi, tal como em outras épocas, a cartografia palpável deste cenário de disputa, onde a população mais jovem, na ressaca dos sonhos perdidos de 60, lutava com a aridez de uma realidade desencantada.

 

Isto tem efeitos!

Fazendo nota disto mesmo, a BBC, em 78, transmitia um episódio de “Something Else”, programa televisivo juvenil em que se realizou um conjunto de breves entrevistas de rua a jovens britânicos/as, dando razões para o seu desapego a uma política que os não representava. Aparentemente, as respostas não seriam muito diferentes se as entrevistas tivessem sido feitas hoje, com a verbalização do distanciamento entre política e quotidianos concretos, com a identificação da classe política à corrupção e com uma sensação de recusa generalizada de tudo o que ao político dissesse respeito. Já em estúdio, outros/as jovens comentam as entrevistas, com participação especial de Joan Lestor, deputada do Partido Trabalhista, e dois dos fundadores dos Clash, o baixista Paul Simonon e o vocalista Joe Strummer. 

No decurso da discussão, em que os/as intervenientes interagem ante a desmotivação para com os mecanismos da política formal (que Strummer classifica como “entediante”), Paul Simonon expressa preocupação com o crescimento da extrema-direita entre jovens, ante a ineficácia dos tradicionais discursos de esquerda. Desafiado por Joan Lestor a apontar uma solução, o baixista foca a intervenção específica dos Clash, quando levam a palco Reggae e música negra. “– Isto tem efeitos!”, realça Simonon. 

 

O popular contra o povo

Na análise de Stuart Hall, o thatcherismo inscreveu-se e consolidou-se como “força material e ideológica na vida quotidiana das pessoas comuns” (The hard road do renewal). Considerando Thatcher – ou, acrescentaríamos, considerando exemplos de governação neoliberal temporal e espacialmente mais próximos –, a legitimação popular não pode ser analisada pela simples polarização entre conservadores e progressistas. O “populismo autoritário” de Thatcher demonstra isso mesmo, quando a capacidade de “rotura popular” se transforma em “unidade populista”, por estratégias e dispositivos de docilização ideológica fulcrais na história do neoliberalismo. São estes dispositivos que permitem não apenas naturalizar situações de exploração laboral, ou atropelo de direitos fundamentais, como cavalgar a ilusão de um interesse comum e agregador, que ultrapassa conflitos e que nivela empresa, Estado (ou o Estado como empresa) na salvífica “cooperação” entre governantes e governados. No caminho deste processo de neutralização de conflitos surge, ao mesmo tempo, o punho de ferro do poder disciplinador do Estado e o canto de sereia da ordem, que premeia o subalterno e glorifica o detentor do mérito. É precisamente a capacidade de conjugar estes dois tabuleiros que, hoje, permite a aliança ou fusão de uma nova extrema-direita com a tradicional direita, de raiz conservadora e liberal. A réplica impõe-se, em todas as frentes, e é também cultural.

 

Construir réplica e criar dissonância

O gesto de olhar para trás, por Don Letts, não deixa de proporcionar a história de uma tentativa de rotura com a imposição de uma ordem de mundo. Mostra-nos processos de afirmação de identidades proscritas, com a construção de formas de expressão alternativas e improváveis, face à instalação triunfal de uma norma opressora. Sem qualquer didatismo, sem querer transportar para os dias de hoje contextos irrepetíveis, destaca-se o modo como uma (contra)cultura permite, contra os processos de homogeneização da grande indústria, ensaiar outras formas de pensar, de exercer curiosidade e de resistir ao cansaço do tempo, com formas outras de expressão política, de tradução de quotidianos concretos nas suas próprias linguagens. Os processos assimiladores do mercado são, aqui, mais um ponto de interesse do que um desenlace, quando a dissonância e o dissenso, apesar de tudo, criam bolsas de resistência, mantêm a vivacidade e – tal como Letts, negro de Brixton, tal como os Clash, contestatários londrinos – não desistem de falar por si mesmos, de organizar alianças e de proporcionar o imprevisível. Para além da rigidez da instituição, a música pode ser um indomável contrapoder e um antídoto de rebeldia inventiva contra o fatalismo opressor.