A mais decisiva linha divisória da contemporaneidade situa-se entre, por um lado, uma “tanatopolítica” de guerras, genocídios, aumento vertiginoso das despesas militares, com o consequente sacrifício do Estado-providência e, por outro lado, uma política de paz, de defesa dos seres vivos e de proteção das vítimas de conflitos armados, da catástrofe climática e do combate às desigualdades sociais. Esta divisão atravessa todos os partidos, movimentos e instituições de representação social e política em todo o mundo.
Um conflito moral e ideológico
O surgimento de um discurso imperialista assumido – que rejeita abertamente o direito internacional e toda a ordem internacional pós-Segunda Guerra Mundial – deixou todos os atores políticos confrontados com as reais implicações dos seus posicionamentos. Na atual conjuntura, a postura da Igreja Católica, ancorada nas posições ousadas e inequívocas do Papa Leão XIV, mas que vai muito além delas, revela-se fundamental, num conflito que acarreta profundas dimensões ideológicas; um conflito que diz respeito a nada menos do que a formação de um novo ethos coletivo para o chamado mundo ocidental.
O confronto com o “trumpismo”
O Papa Leão XIV, que inicialmente parecia menos propenso às intervenções públicas contundentes que caracterizaram o seu antecessor, o Papa Francisco, rapidamente demonstrou não ter qualquer intenção de ceder espaço na esfera pública ao belicismo febril do trumpismo, nem à mais ampla “Internacional reacionária”. Entrou em confronto direto com o presidente dos EUA, desencadeando uma série de reações da presidência americana que roçaram o absurdo. Na sequência da condenação, pelo Papa, da guerra dos EUA e de Israel contra o Irão, J.D. Vance — que “descobriu” o catolicismo em 2019 — passou a dar lições ao Papa sobre a necessidade de ser “mais cauteloso ao falar de questões teológicas”, enquanto Trump acusou o pontífice de “ceder à esquerda radical” e de ser “brando com o crime”. O que algumas pessoas entenderam, inicialmente, como uma eleição papal simbólica — o primeiro pontífice norte-americano a servir de contrapeso moral ao trumpismo — está a revelar-se precisamente isso.
As primeiras palavras do Papa Leão XIV após a sua eleição foram inteiramente dedicadas à paz: “A paz esteja convosco (…) esta é a paz do Cristo ressuscitado, uma paz desarmada e desarmante, humilde e perseverante”, sinalizando que a Igreja Católica não só se recusa a conferir qualquer forma de legitimidade às grandes potências imperialistas quando estas invadem Estados soberanos, cometem genocídio contra povos e raptam líderes eleitos, como também tenciona posicionar-se firmemente no campo do movimento antiguerra: ao lado de todas as vozes sociais, políticas e institucionais que lutam por uma paz sustentável e trabalham para garantir as condições que a tornam possível. Esta orientação traduziu-se numa expressão institucional concreta, quando o Vaticano, a 1 de maio, por ocasião da 11.ª Conferência de Revisão do Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares, apelou à eliminação dos arsenais nucleares:
“A sua eliminação é uma responsabilidade necessária que requer passos concretos e credíveis (…). Uma paz justa, segura e duradoura assenta num único pilar: o desarmamento (…) Numa época de tensões crescentes que abalam os alicerces da segurança internacional, é necessário analisar os pré-requisitos essenciais para uma paz duradoura — incluindo o desarmamento nuclear e «a superação de um modelo de segurança baseado no medo e na ameaça do uso da força»”
Uma instituição como a Igreja Católica deixa uma marca sociopolítica clara, quando a sua liderança consegue dar voz às suas correntes mais poderosas e comprometidas, aquelas tendências que se revelam mais dinâmicas e vigorosas em momentos históricos determinados. Consequentemente, o que importa em igual medida é tanto o perfil pessoal do próprio pontífice, a sua teologia social e política, como a dinâmica mais ampla do mundo Católico.
Um Papa, muitos manifestantes
O Papa Leão XIV parece ter assumido uma postura antibélica desde muito cedo: ainda jovem, marchou ao lado de outros agostinianos como «Agostiniani per la pace» (Agostinianos pela Paz) contra a instalação dos mísseis europeus, na manifestação realizada em Roma a 22 de outubro de 1983. A fotografia recentemente publicada pelo jornal italiano Il Manifesto, que mostra um jovem Robert Prevost entre os manifestantes, foi tirada por Gianni Novelli, um padre estigmatino e ativista pela paz. O Papa também parece ter sido influenciado pela teologia da libertação e muitas das suas declarações anteriores revelam o tom incisivo da sua crítica à atual ordem socioeconómica. Num discurso proferido há cerca de vinte anos, declarou:
“A realidade da pobreza injusta e da marginalização é um dos problemas mais prementes do mundo atual, e não apenas no “Terceiro Mundo” (…). Ninguém pode ser cristão hoje em dia e ignorar o “clamor dos pobres” e a luta pela justiça. O empobrecimento de milhões de pessoas é um verdadeiro “sacramento” do pecado no mundo.”
As influências teológicas e políticas que o moldaram estão documentadas num livro lançado muito recentemente — Liberi sotto la grazia (Livres sob a Graça), publicado em colaboração com a editora do Vaticano por Rocco Ronzani, Miguel Ángel Martín Juárez e Michael Di Gregorio.
Ao mesmo tempo, para além do próprio Leão XIV, um conjunto de movimentos, organizações e paróquias da Igreja Católica nos Estados Unidos e na Europa está a mobilizar-se contra a reação internacional, contra o frenesim bélico dos EUA e de Israel e contra a submissão das elites europeias a ambos. Nos Estados Unidos, as paróquias estão a participar em massa em manifestações de rua e na campanha “No Kings”, enfrentando as operações do ICE nas suas comunidades, enquanto redes como a Interfaith Alliance estão a organizar formações para o clero contra o autoritarismo e o nacionalismo cristão. Os meios teológicos e as comunidades de intelectuais e académicos cristãos estão a organizar espaços com o objetivo de articular uma teologia política radical, capaz de contestar a extrema-direita global e de resistir à instrumentalização do cristianismo — um cristianismo que está a ser reduzido a um híbrido de catolicismo integralista reacionário e neo-evangelicalismo auto-engrandecedor. Também na Europa, as iniciativas contra a guerra, o movimento de solidariedade com a Palestina e a campanha “StopReArm”, contra o aumento dos gastos militares nos orçamentos europeus, estão a ser apoiadas por católicos e organizações católicas, demonstrando que a linha divisória entre a guerra e a própria vida pode criar as condições para amplas alianças sociais e políticas entre as forças de esquerda, ecologistas e democráticas, por um lado, e a Igreja, por outro.
Tradução de Hugo Monteiro.