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Artigo de Joana Saraiva.


Evgen Bavcar é um artista visual. É fotógrafo. É cego.

Para fabricar as suas imagens, Bavcar conta com colaboradores que lhe descrevem os vários momentos do seu processo compositivo, a fim de ajustar a imagem final ao que imaginou. Conta, portanto, com uma audiodescrição.

A audiodescrição (AD) é uma tradução intersemiótica que transforma informação visual em palavra, narrando o que pode ser visto. É um recurso usado sobretudo em contextos culturais e possibilita o acesso de pessoas portadoras de deficiência visual à oferta cultural disponível. Sendo difícil traçar a história da AD em Portugal, por muitas vezes se ter feito de modo espontâneo e/ou informal, é possível afirmar que está formalmente disponível há bem mais de uma década.

Apesar da sua crescente implementação, este recurso é ainda pouco conhecido ou simplesmente ignorado. Neste momento, correm a par duas lutas: (1) A da acessibilidade como direito fundamental e (2) a do reconhecimento da profissão e regulamentação das carreiras dos técnicos e técnicas que a tornam possível.

A invisibilização da AD traz consigo inevitavelmente a das pessoas com deficiência visual, que são assim privadas de frequentar inúmeros espaços de socialização. Pensemos nas vezes que encontramos alguém com deficiência visual no teatro ou num museu. Com a invisibilidade do recurso, vem a dos técnicos e técnicas de AD e a de uma carreira que não é reconhecida nem está regulamentada. A AD exige o domínio de uma técnica específica e não pode ser equiparada a uma tradução pura e simples.

A luta pela implementação do recurso implica frequentes ações de sensibilização para a plena inclusão. As estruturas culturais que querem contar com o serviço de AD enfrentam, para além das dificuldades orçamentais que não deixam margem à contratação do serviço, outras dificuldades, como, por exemplo, a comunicação com um público que, não sendo homogéneo, tem características específicas e que exige que a divulgação da oferta se faça por meios também específicos. Mas falar de AD é falar também de estruturas que não assumem a tarefa da inclusão como sua, como pertinente, ou, mais preocupante ainda, que não a consideram rentável. Que fazem o cálculo de quantos mais bilhetes se venderam para justificar o investimento no recurso. Como se a inclusão fosse uma extravagância e não uma obrigação e um direito.

Com esta obrigação e este direito, vem uma responsabilidade. Porque, como lembra Saramago, há a responsabilidade de ter olhos quando os outros os perderam. As decisões que tem de tomar aquele que se lança nesta tarefa, para lá de técnicas, são éticas e políticas. Porque entre o mundo e quem não vê há a palavra, essa distância de que fala Bavcar. Audiodescrever confere poder a quem descreve. Quem tem o privilégio da visão e a prerrogativa da descrição, estabelece a identidade do objeto, sobretudo se o seu destinatário não tiver a possibilidade de elaborar uma descrição alternativa. A AD não pretende levar a ninguém a luz. O seu desafio é transformar poder em potência e garantir autonomia para a formulação de um juízo próprio. A prática da AD será tão mais inclusiva quanto mais potencie a emancipação de quem usufrui dela. E será tão mais implementada quanto mais depressa se regulamente esta prática.

A AD é o reverso discursivo das fotografias de Bavcar. Estas constroem uma poética da invisibilidade: nascem da sombra débil entre a escuridão e a luz, da reunião do visível com o invisível. Bavcar fotografa como forma de não rendição à sua condição. Subverte os métodos estabelecidos de perceção: aquele que não vê produz as imagens para os que veem, afrontando um mundo que cultiva o poder da imagem e que faz sempre equivaler o conhecimento à luz.


Audiodescrição da imagem

Sobre fundo preto, e em contraste com este, está uma bicicleta branca, posicionada com o guiador do lado esquerdo da imagem e a roda traseira do lado direito. Aparecendo sobre o fundo preto, acima da bicicleta, e da esquerda para a direita, temos uma sequência da mesma imagem de um punho branco sobre o pulso de uma mão que agarra a asa de uma andorinha branca. A mesma imagem da mão aparece repetida sobre as rodas dianteira e traseira.