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Artigo de Mafalda Escada.


Ursula von der Leyen afirmou que o vírus veio mostrar “os limites de um modelo que valoriza a riqueza acima do bem-estar”. Da contradição do sistema capitalista, nada de novo.

No seguimento das mobilizações antirracistas dos últimos meses, cruzei-me com um texto sobre a nocividade de alianças performativas no ativismo.1  À primeira vista, os temas não se cruzam, mas as características que a autora atribui à aliança performativa ecoam no discurso da Presidente da CE que se esgota em si mesmo.

Primeiro, uma mensagem simplesO momento para a Europa liderar o caminho da fragilidade rumo a uma nova vitalidade.” Segundo, Ursula mostra-se inconformada com situações de injustiça, como Moria, ou com as LGBTQI free zones. Terceiro, a recusa de reconhecimento de responsabilidade individual que só teno em conta por se por se tratar de quem é. Sem rodeios, a Presidente apontou o dedo à Turquia pela violação da fronteira grega e acusou a China de não respeitar os direitos humanos dos Uyghurs. Porém, não reconheceu a responsabilidade da Europa nos problemas presentes. Por fim, tendo como objetivo uma aceitação fácil interpares, profetiza a Europa da “vitalidade”. Imagina a Europa do futuro sem reconhecer a Europa do presente.

O discurso de von der Leyen é mais assertivo na afirmação de valores democráticos do que o do centrão em Portugal, confrontando a extrema-direita no Parlamento Europeu (PE): a solidariedade, a justiça social, os direitos do trabalho. Contudo, a mensagem desvanece-se quando contrariada pela própria realidade. Com uma Europa ainda não refeita da crise financeira, o perigo não reside apenas no discurso da extrema-direita que abriga quem se refugia no medo e no ódio. Figuras como von der Leyen não se podem dar ao luxo de profetizar a “prosperidade” sem a concretizar. Criar expectativas destinadas à desilusão é gasolina no fogo ateado pela extrema-direita. Quando 60% das pessoas em Portugal espera uma má gestão dos fundos europeus2, a Europa não passa de um depósito de boas intenções, descredibilizada. Simultaneamente cresce a bancada da extrema-direita no PE e em todo o continente.

A esquerda confrontou a CE com a falta de políticas concretas para os objetivos que propõe. Por cá, o Bloco batalha pelo mesmo – medidas concretas de resposta à crise. Só uma política consequente trava a batalha ideológica incentivada pela extrema-direita, criando a fonte de segurança necessária, vacina contra o medo e o ódio: salários dignos, proteção social, etc. O paradigma europeu serve-nos de aviso para a guerra que se trava. Os nossos esforços não podem ser empregues na troca de palavras contra a extrema-direita, a nova versão da política do hashtag que, tal como o ativismo performativo, de nada serve senão para nos tranquilizar a consciência. A disputa política não pode negligenciar a construção de soluções para os problemas de agora, o que passa pela disponibilidade para dialogar e não pelo isolamento suicidário. (Mas não esquecer o provérbio russo: “confie, mas verifique”).

As mobilizações que têm crescido – feministas, antirracistas, ecologistas – não estão garantidas. Perante um eventual esgotamento do potencial mobilizador das identidades e uma maior saliência da crise económica, em detrimento da crise climática, precisamos de transformar a privação relativa em mobilização. O Bloco tem de ser esse mecanismo transformador, conhecendo o terreno onde se move, falando a mesma língua que quem pretende mobilizar, batalhando pela tal fonte de segurança que impede o abismo. Não podemos contentar-nos com a aceitação fácil interpares, nem ser profetas de um paraíso que nunca chega. O momento para sair da zona de conforto, construir pontes e alicerces para os valores que defendemos, junto de quem defendemos, é agora.


Mafalda Escada é ativista estudantil.

Notas:

1 Performative Allyship is Deadly, Holiday Phillips
2 Expresso, “Sondagem: 60% dos portugueses garante que os fundos europeus vão ser mal geridos