Vogue e Ballroom Scene: sobre comunidade, pertença e resistência

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Artigo de António Figueira.


Entre as décadas de 60 e 80, o Harlem, nos EUA, viu crescer a arte de quem tinha sido marginalizado, expulso, espancado, morto. Homens gays, mulheres trans e pessoas queer, maioritariamente negras e latinas (não nos esqueçamos), encontraram, na exclusão, uma comunidade que também era sua: um livro no qual as linhas eram passos de dança e as mãos contavam cada história que por ali passava. Apesar de silenciadas, pobres e lançadas para a vala da precariedade laboral e segregação social, estas comunidades levantaram pilares e construíram o legado e o caminho de hoje. Hoje, quando celebramos a cultura criada em volta de Rupaul’s Drag Race, de Pose, de Paris is Burning ou até do Vogue de Madonna, resta-nos olhar para o passado e pensar o futuro com a marca d’água daquelas que caminharam para podermos desfilar.

 

A violência nas ruas

Assim, falemos de ballroom scene: enquanto as ruas eram palco de violência e preconceito, faziam-se surgir, em armazéns, grandes salões e casas residenciais, pistas de dança improvisadas onde a liberdade era a regra e as bichas, mulheres trans e pessoas queer eram as protagonistas. A autenticidade, a excentricidade e a beleza da feminilidade faziam-se acompanhar, musicalmente, por grandes artistas de vanguarda tais como Whitney Houston, Mariah Carey, Judy Garland, Janet Jackson, Diana Ross, Kate Bush e muitas outras que davam voz e ritmo ao movimento dos corpos. Na pista de dança, a performance improvisada era um agente político que ultrapassava os limites convencionais da arte e se apresentava como um manifesto à libertação sexual, corporal e social destas pessoas; ali, a presença de cada uma delas era uma afirmação e um berro contra o silêncio ensurdecedor que, todos os dias, matava irmãs e amigas.

 

Nas diversas categorias da ballroom scene, o grande objetivo comum era a desconstrução total e completa, mas também a interpretação de um papel que, à luz da condição daquelas pessoas, nunca seria atingível por elas próprias. Chamavam-lhe “realness”, justamente por ser uma atuação que pretendia ser o mais fiel à realidade. Por isso, as participantes abraçavam a delicadeza e a subtileza dos corpos femininos, através do voguing que replicava as poses das modelos estampadas na revista norte-americana Vogue, ao passo que, por exemplo, mulheres trans desfilavam em roupas customizadas, muitas vezes desenhadas e costuradas por elas próprias, para personificar e representar o papel de mulheres brancas e cisgénero que se estabeleciam socialmente sob os padrões do status quo vigente. Opulência, capa de revista, família real e mãe de família são alguns dos exemplos que encabeçavam desfiles e performances, no sentido de dar a estas pessoas a possibilidade de, por uma noite, pertencerem a um padrão social e cultural muito distante da sua condição e daquilo que alguma vez poderiam almejar fora daquela arena.

 

Lado a lado com a discriminação e a desinformação sobre comunidades LGBTQ+, crescia a pandemia do HIV e, claro, o estigma sob comunidades marginalizadas. Mais uma vez, estas comunidades marchavam contra a ignorância propagada pelos veículos de informação e combatiam a ideia de castidade que a Igreja apresentava como forma de evitar a campanha a favor do uso de preservativo. Era, no entanto, naqueles armazéns e espaços improvisados que crescia a revolta de uma comunidade e se semeava a informação que não passava pelos veículos da cultura dominante e que massacrava milhões de pessoas ao redor do mundo. Todos os dias, pessoas queer eram automaticamente vistas como doentes e rejeitadas pelos próprios lares. Todos os dias, pessoas queer eram expulsas de casa, enviadas para tratamentos de reconversão, violentadas e silenciadas; mais tarde, resgatadas pela ballroom scene.

 

Concursos ou afirmação?

Desta forma, a ballroom culture ultrapassava os limites de uma competição. As participantes competiam através de “houses”, onde encontravam uma família, um lar, um prato à mesa. Era nestas casas, com a orientação das “mães” e “pais” não-biológicos, mas de coração, que crianças e jovens, rejeitadas pela família biológica, encontravam o conforto de um seio familiar onde ser elas próprias era a fórmula. Enquanto o mundo ao redor destas pessoas as anulava, violentava e silenciava, elas próprias criavam um novo padrão de quotidiano e um conjunto de novas regras sobre ser, estar, viver. Não existia uma obrigação de consanguinidade, de ligação biológica: toda a construção social de família desfazia-se na criação de algo muito maior: a união de pessoas que só se tinham umas às outras e cujos laços ultrapassavam a necessidade da validação social heteronormativa.

 

Hoje, a cultura de ballroom estende-se ao mundo inteiro e toma proporções branqueadas pelo neoliberalismo e pelos interesses do sistema capitalista: assistimos, a passos largos, a uma transformação de uma cultura tão própria e rica – desenhada e elevada por pessoas negras e latinas, lembremo-nos – que é, agora, engolida pelo pinkwashing de empresas e entidades que lhe retiram toda a carga política e anulam o passado militante de quem deu a cara nos primórdios da criação. Antes do “Vogue”, de Madonna, o Harlem já existia; as casas já existiam; as batalhas já existiam; estas pessoas já resistiam. Esquecer os seus nomes e transformar o vogue numa marca ou numa simples dança é recuar toda uma história atrás e invalidar aquilo que foi feito por quem olhava para estes círculos como uma única forma de sobrevivência.

 

Cá estaremos para repetir, as vezes que forem necessárias, que a apropriação feita em cima do voguing e da ballroom scene não é fiel àquilo que estava na génese do projeto. O voguing não é um fetiche burguês, uma provocação sexual, um filho da pop culture. É, sim, o fruto de uma cultura marginal com uma carga política fortíssima e, acima de tudo, uma afronta ao padrão cultural dominante e ordinário. Não nasceu com as estrelas, em academias de dança ou em estúdios de produtoras bem sucedidas: nasceu no Harlem, no Bronx, por pessoas racializadas e pobres, para veicular as suas exclamações e criar uma voz que nunca lhes tinha sido dada.

 

Assim, se nos dias de hoje, em Portugal, podemos assistir ao início de um projeto que se constrói em volta da comunidade de baile, também é verdade que é importante preservar todo o legado e história daquilo que significa tudo isto: e, claro, manter essas origens vivas sem dar a mão a quem as quer revogar. Não negociamos, não nos vendemos, não somos mercadoria e, como tal, não deixaremos que a beleza de uma história se resuma àquilo que não é. A cultura ballroom é, sim, uma história contada e protagonizada por pessoas negras e latinas, transgénero, que não é complacente com alienação e capitais financeiros. É uma história sobre pessoas, sobre vidas, sobre narrativas que importam ser estimadas, divulgadas e celebradas.

 

Contra a violência, a liberdade

No entanto, se é verdade que o fenómeno mainstream trouxe o vogue aos grandes palcos e tentou branquear a sua carga política, também o é que o mundo parou, sentou-se e olhou para algo que, durante anos, circulou unicamente nos subúrbios de Nova Iorque. Hoje, mais uma vez, é de nossa responsabilidade todo o trabalho de preservação e enaltecimento de uma cultura tão própria e que hasteou bandeiras de luta, resistência e liberdade, em tempos onde esses valores pareciam escassos. Carregamos o legado daquelas que se atreveram a erguer o queixo contra a violência policial, daquelas que construíram uma comunidade onde ser queer é ser livre. Se hoje combatemos a pandemia do Covid-19 a par da ascenção de ideologias fascistas, havemos de ir buscar forças aos ícones que, também em tempos de pandemia, estiveram na linha da frente das vanguardas culturais e artísticas; foram carne para canhão, mas nunca descalçaram o salto e nunca tiraram o batom. Como elas, também nós, bichas, seremos resistência. Não nos esquecemos.