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Artigo de Rui Moreira.


Muito se tem escrito, opinado e vaticinado: os efeitos do Covid-19 serão esmagadores e sem precedentes. O que aí vem será incomparável com tudo o que vivemos, dizem os especialistas, seja qual for a perspectiva. Como não sou da área dos números, evito qualquer banalidade ou lugar-comum mas o óbvio está à nossa frente: sim, vai doer. No entanto, não tem de ser trágico e sempre para os mesmos. Depois da notícia “vinda de longe” e que muitos julgavam que era “coisa” tirada de um filme de ficção científica, o comportamento passou rapidamente “do 8 ao 80”: surpresa, receio, medo, pânico. E temível e terrível é o aproveitamento que se vem fazendo. Descrevo, neste texto, uma espécie de lay-off na Altice.

Todos sabemos que sofrendo a economia e as empresas, os trabalhadores estão na “mira de abate” (o que se está a passar com os trabalhadores precários, não vale a pena elencar porque é sobejamente conhecido, é ultrajante). Este “fenómeno”, no entanto, é fruto da abertura politica que o Capitalismo tem conseguido manter com os poderes políticos instalados. Como lapas, envolvem-se e corroem o sistema, adaptando-o aos seus interesses. São comportamentos conhecidos, cíclicos e cínicos.

Vejamos: porque é que a Altice, depois de anunciar mais de 500 milhões de euros de lucro, dias antes, não “segurou” ou compensou profissionais competentes e dedicados? O que se verificou – e foi noticiado – é que várias empresas externas à Altice mas que empregam pessoas que prestam trabalho para a primeira, em regime de full-time, foram colocadas em lay-off. Quantas? Não se sabe ao certo porque o Ministério do Trabalho não divulga (infelizmente, é esta a informação oficial) quais são as empresas nem quantos trabalhadores abrange cada uma (há uma leitura macro dos números, não micro) mas o que veio a público permite especular sobre a ordem de grandeza desta operação, completamente desnecessária e anti-social: os tais parceiros da Altice terão visto redimensionados os seus contratos e, por verem reduzida a facturação mensal, reflectiram isso nos trabalhadores, colocando-os em lay-off a receber o salário cortado.

Lay off e contratos públicos?

Esta situação é ainda de mais difícil compreensão porque ao consultarmos o Portal Base, que é onde se registam os contratos que são adjudicados pelo Estado, só na primeira quinzena de Abril, a Altice garantiu 25 contratos, por concurso público, por cerca de 4 milhões e 200 mil euros. Ora, se há tanto trabalho comercial a ser (bem) feito e se os recursos técnicos são (tão) necessários para garantir os serviços aos clientes, porquê isto? Sei bem o que vão dizer, porque é um argumento recorrente: “a protecção de recursos humanos, a segurança dos postos de trabalho e o rejuvenescimento dos mesmos, sem nunca em situação alguma ter lançado mão a qualquer mecanismo que pusesse em causa a estabilidade social interna na empresa”. É verdade, sim, que a Altice não dispensou ninguém directamente nem pediu ajuda ao Estado para nenhum Programa, mas a verdade, pura e crua, é que muitos ficaram no limiar da pobreza por uma decisão que tem tanto de incompreensível (dados os lucros monstruosos) como de irresponsável (que atira muita gente para o desespero e incerteza). Recorrendo tantas vezes à expressão “família”, não é tempo de deixarem de existir filhos e enteados?

Falemos, também, de comunicação, uma das armas que o Capitalismo usa para nos intoxicar: há uma tal de APCC (Associação Portuguesa de Contact Centers, cuja Altice também é uma das 92 empresas sócias, assim como todas as empresas que praticaram o lay-off em causa) que chegou ao ponto de publicar no seu site um texto de “homenagem aos seus heróis”, destacando o “serviço de excelência” e insistem num “muito obrigado a todos vós”. Adoptam um discurso misericordioso, de ir às lágrimas (de crocodilo) para praticarem exactamente o seu contrário. Mesmo que tentem pintar o céu em tons de azul, como dizia a canção, não tentem fazer-nos a todos de parvos, pelo menos ao mesmo tempo. Se acreditam mesmo na mensagem que passam porque é que insistem em manter os trabalhadores como precários e pobres? Chama-se Capitalismo, não é?

De facto, é esta a forma como se posicionam: ao mínimo desvio do seu trajecto, da estratégia que delinearam para atingir os objectivos, então aproveitam-se do sistema para conseguirem encher mais os bolsos e “devolver” o dinheiro aos accionistas, esquecendo os que estão na linha da frente. Digam o que disserem, a realidade dos dias desmonta qualquer discurso hipócrita.

O capitalismo predador

E do outro lado do Atlântico chega um sinal que também cheira a esturro, como se diz vulgarmente. Foi lançado um Manifesto (naodemita.com) subscrito por milhares de empresários que se comprometem a não despedir durante dois meses em plena pandemia do Covid-19. O princípio é bom, claro, mas quando subscrito por grandes multinacionais devemos mesmo acreditar? Lê-se que “o Brasil é um país de heróis: na saúde, milhares de profissionais dão o melhor de si e correm riscos para salvar vidas nos hospitais. Em outros sectores, milhões de brasileiros trabalham todos os dias para manter nossas cadeias de fornecimento intactas. Eles garantem o funcionamento das fábricas, o abastecimento e o transporte público”. So what? Vão mudar comportamentos? Vão, mesmo, compensar quem merece? Também já vimos disto por cá, certo? Temos assistido a posturas igualmente “patrióticas”, correcto? Aliás, quase que posso jurar que a Jerónimo Martins (Pingo Doce) tem o mesmo discurso. Será que estão a pagar ao mesmo assessor de comunicação?

Situações inesperadas, crises nunca vistas, cenários nunca colocados, desafios nunca ultrapassados merecem respostas nunca dadas, soluções nunca pensadas, ofertas nunca equacionadas. Continuaremos a ter o velho velhaco, o capitalismo predador? Ou acham mesmo que basta criar um hashtag todo fofinho para “ficar tudo bem”?


Rui Moreira é membro da Comissão de Trabalhadores da MEO (Altice)